SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

CIÊNCIA

Tolerância à lactose vem da domesticação de animais

Análises genéticas mostram que a capacidade de seres humanos adultos de digerirem o açúcar presente no leite surgiu na mesma época em que vacas, ovelhas e camelos começaram a ser criados, entre 5 mil e 12 mil anos atrás

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 14/03/2014 16:00

Afresco do Antigo Egito mostra vacas domesticadas: à medida que o pastoralismo se espalhava pelo mundo, adaptações genéticas à lactose surgiam (Wikipedia/Reprodução) 
Afresco do Antigo Egito mostra vacas domesticadas: à medida que o pastoralismo se espalhava pelo mundo, adaptações genéticas à lactose surgiam

Tomar um copo de leite sem passar mal é um luxo para a maioria das pessoas que, quando saem da infância, começam a se tornar sensíveis à bebida. Enquanto as crianças têm níveis altos da enzima lactase, o que as faz digerirem com facilidade o ingrediente, à medida que a idade avança, a quantidade dessa substância decai no organismo. Um terço da população mundial, contudo, é capaz de manter a mesma tolerância à lactose — o açúcar do leite — que tinha quando bebê. A variante genética que confere essa habilidade foi uma vantagem evolutiva que surgiu na África com o advento do pastoralismo, de acordo com um estudo publicado na edição desta semana da revista Journal of Human Genetics.

Os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia rodaram o globo atrás de etnias tolerantes à bebida. Eles investigaram três regiões do genoma de 819 africanos pertencentes a 63 grupos distintos e de 154 não africanos de nove populações na Europa, do Oriente Médio e do leste asiático. Além disso, foram realizados testes de digestão da lactose em 513 indivíduos do leste da África. “A análise fornece fortes evidências de uma seleção positiva em diversas variantes genéticas associadas à tolerância à lactose em populações africanas. Provavelmente, isso ocorreu em resposta ao desenvolvimento cultural do pastoralismo”, explica Sarah Tishkoff, professora do Departamento de Genética da universidade e principal autora do estudo.

De acordo com ela, os locais distintos onde essas variantes foram encontradas estão relacionados, em muitos casos, com a história das migrações humanas. “À medida que os pastores se deslocavam geograficamente, comercializando gado, camelos e ovelhas, também houve misturas entre as etnias. Algumas populações acabaram herdando a tolerância à lactose graças a esse mix racial”, acrescenta. A especialista conta que esse é o primeiro estudo em larga escala sobre o tema. “Nossa pesquisa conta fatos tanto sobre a base genética e evolutiva de um traço biologicamente relevante dos humanos quanto traz informações sobre a origem do pastoralismo na África”, diz Alessia Ranciaro, geneticista da Universidade da Pensilvânia que também assina o artigo.

Uma das descobertas das cientistas foi que uma variante associada à resistência à lactose em europeus também está presente em grupos de pastores do norte da África, o que sugere uma mistura entre essas populações distintas. A mutação surgiu entre 5 mil e 12,3 mil anos atrás, coincidindo com a origem da domesticação do gado nessa parte do continente africano e no Oriente Médio. Uma outra variante, bastante frequente na Península Arábica, foi detectada no norte do Quênia e no nordeste do Sudão. Ela teria emergido há 5 mil anos, época em que, segundo evidências arqueológicas, os camelos foram domesticados na região.

Também há o exemplo da variante C-14010, identificada em indivíduos da Tanzânia, no Quênia e do sudeste africano. A modificação genética surgiu por volta de 3 mil e 7 mil anos atrás, mesma época em que pastores do norte do continente começaram a migrar para o leste. No sudeste ela teria surgido apenas nos últimos mil anos. “Estamos começando a formar a figura de uma evolução convergente. Nossos resultados mostram diferentes mutações emergindo em diferentes lugares que estavam sob seleção, depois se consolidando para, em seguida, serem reintroduzidas por migrações em novas áreas e para novas populações”, afirma Tishkoff.

Sarah Tishkoff faz teste de tolerância ao açúcar do leite na Tanzânia (Marty Condon/DivulgaçãoUniversity of Pennsylvania/Divulgação) 
Sarah Tishkoff faz teste de tolerância ao açúcar do leite na Tanzânia

Áreas remotas
Alessia Ranciaro explica que estudos anteriores haviam mostrado que indivíduos descendentes de europeus do norte e do nordeste do Velho Continente, assim como populações da África, da Pensínsula Arábica e da Ásia Central que têm o hábito de produzir e consumir leite fresco, continuam a expressar a enzima lactase na idade adulta. As primeiras pesquisas identificaram a origem desse traço nos europeus em uma mutação surgida há mil anos. Com o tempo, outras variantes foram descobertas em diversos grupos étnicos. “Então, resolvemos recolher amostras do maior número de populações possível. Incluímos pastores, agropastores, agricultores e caçadores-coletores para termos representantes dos quatro mais importantes padrões de subsistência. Foi um desafio enorme fazer pesquisa de campo em regiões tão remotas”, observa.

Professor do Departamento de Genética, Evolução e Meio Ambiente da Universidade da Califórnia, Bryony Jones diz que, até agora, as variantes associadas à habilidade de digerir o açúcar do leite haviam sido muito pouco investigadas. “É importante caracterizar e entender melhor a relação entre a adaptação histórica e a suscetibilidade à intolerância à lactose no século 21. Esse estudo mostra que, nos últimos 10 mil anos, muitas mudanças genéticas foram necessárias para que os organismos de um terço da população fosse capaz de produzir a lactase. Provavelmente, ainda existam outras variantes em regiões do genoma que também estão implicadas nesse processo e que estão à espera de serem descobertas”, opina.
Tags:

publicidade

publicidade