SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

No cerrado, trilhas para a reeducação

Em contato com o bioma, o projeto desperta nos jovens vocações e habilidades em favor do meio ambiente. O intuito é desviar os alunos, tidos como indisciplinados, dos caminhos que levam à marginalização

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 24/03/2014 11:57 / atualizado em 24/03/2014 12:00

Guilherme Pera

Marcelo Ferreira
Yanka Carolina, 17 anos, quer ser agricultora desde os 11. Aprendeu a plantar quando criança, mas não sabia direito como se formava o adubo, tampouco conhecia particularidades do cerrado. Achava a minhoca um “bicho asqueroso” e pensava que baru era um xingamento. Com a trilha de educação ambiental promovida pelo projeto Semeando o bioma cerrado, a Associação dos Amigos da Floresta e a Escola da Natureza, ela aprendeu um pouco sobre a fauna e a flora de onde vive.

O programa, feito pela Rede de Sementes do Cerrado e patrocinado pela Petrobras, visa promover o desenvolvimento sustentável da vegetação nativa do Planalto Central. Além de Brasília, estão incluídos os municípios goianos de Ipameri, Alto Paraíso, Cavalcante, Barro Alto, Pirenópolis e Goiânia, e Sinop, em Mato Grosso. Isso implica demarcar 60 áreas de 10 hectares cada como espaço de preservação, catalogar 3,6 mil árvores daqui, capacitar 635 pessoas diretamente e 2.480, indiretamente.

É, aí, onde entra Yanka. A moradora de Valparaíso (GO) está entre os 60 alunos da Promoção Educativa do Menor (Proem), programa para estudantes com dificuldade de aprendizado e  problemas disciplinares, que participaram de oficinas nas quais a importância do cerrado foi debatida. “Aprendi a importância do adubo”, resumiu a garota, que integra a instituição há três meses por “não fugir da briga”, como ela define, entre risos.

As meninas e os meninos do Proem têm dificuldade de se adaptar em colégios tradicionais. Indisciplinados, não conseguem se concentrar nas atividades curriculares. Mas sonham. Não há um que não tenha uma resposta para a pergunta “o que você quer ser quando crescer?”. O garoto Francisco Maciel, 16 anos, é bom de forró e de rap, e pensa em ser cantor. Seu amigo e colega de classe Bryan Martins, 14, diz ser um atacante de primeira :“Faço gol de letra, de calcanhar, de tudo”, garante — apesar dos protestos de Francisco (“Mentiroso!”) — e se imagina todos os dias como artilheiro do time de coração, o Flamengo.

O problema é que a vida nem sempre toma o caminho desejado. Alguns chegam a roubar e se envolver com drogas ilícitas no começo da adolescência. Daí, a importância do projeto. Ao aproximá-los da natureza, com uma trilha didática e jogos cooperativos, fora das salas de aula, os tutores despertam o interesse dos jovens alunos. “A não valorização do cerrado vem pelo não conhecimento. Trabalhamos a percepção do meio ambiente para que eles reflitam sobre o espaço que têm como seres humanos”, diz Lêda Bhadra, diretora da Escola da Natureza.

A manhã desses alunos, que geralmente ficam das 7h30 às 17h30 na 909 Sul, nas instalações do Centro de Ensino da Secretaria de Educação do DF, foi toda de aprendizado na prática. Colocaram as mãos na enxada e no rastelo, viram como as minhocas são usadas para melhorar a terra para o cultivo, tiveram uma aula sobre as árvores e os frutos do cerrado e modelaram com argila. E gostaram. “Me dá mais uma aí, moço” foi a frase mais ouvida na hora em que castanhas-de-baru foram distribuídas.

Lições de vida
Entre todas as atividades acima descritas, a que mais cativou garotas e garotos foi o minhocário. A maioria ficava com nojo em um primeiro momento. Com a sensibilidade do professor Adolpho Fiuca, vice-diretor da Escola da Natureza, porém, entenderam a importância do bichinho. “Eles viram que a minhoca não têm cheiro e a terra vermelha que os vermes produzem. Com isso, queremos dizer a eles que a vida se transforma. Se estiver ruim, pode mudar”, diz Fiuca.

As aulas de educação ambiental foram a segunda etapa do projeto, que já passou por escolas rurais de Alto Paraíso e Pirenópolis e incluiu 1.469 crianças. “A intenção é aproximar alunos do cerrado e, quem sabe, daí, criar novos engenheiros ambientais, guias de turismo do Parque da Cidade, entre outros”, diz o coordenador do projeto, Rozalvo Andrigueto.

Ainda não se sabe se ontem foi o início de uma etapa para a formação de novos profissionais, mas os envolvidos no projeto podem ter certeza que os espevitados alunos do Proem iniciaram uma nova fase.
Tags:

publicidade

publicidade