O perigo no caminho até a escola

Estudantes contam as agressões sofridas em torno da instituição de ensino. Há escola que fez até abaixo-assinado para ter mais segurança no local

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postado em 01/04/2014 15:00 / atualizado em 01/04/2014 15:20

Breno Fortes

Ir e vir é um direito tão fundamental do cidadão que está assegurado na Constituição Federal. Mas, para estudantes das redes pública e privada, tem sido difícil vê-lo sair do papel. O caminho para as escolas do Distrito Federal é inseguro. Em uma instituição particular de Taguatinga, a média é de um aluno assaltado por dia desde o início das aulas, em 20 de janeiro. No Guará, de um grupo de 10 alunos consultados pela reportagem, oito relataram os assaltos sofridos. Alguns deles, mais de uma vez este ano. As histórias se repetem no Plano Piloto, em Ceilândia e no Paranoá. A insegurança a caminho da escola é o tema da segunda reportagem da série “O bê-á-bá da violência”, publicada pelo Correio.


Sentados em frente a uma escola no Guará, os adolescentes reagem com indignação quando o assunto é a violência. O inconformismo é tão intenso que eles começam a falar ao mesmo tempo. “Fui assaltada três vezes pela mesma menina!”, diz Maria*, 15 anos. “No mesmo dia, tentaram me roubar duas vezes, na entrada e na saída da escola”, conta João*, 14. “Uma vez, reagi e até briguei com o pivete que tentou pegar meu celular”, relata Cátia*,17. Entre eles, somente duas disseram não terem sido vítimas do crime. Elas moram na Estrutural e vão de ônibus escolar fornecido pelo governo. “Acho que isso contribui para estarmos mais segura”, acredita Joana*, 15 anos.

No ano passado, o Batalhão Escolar registrou 25 casos de roubo, 19 detenções por porte de arma branca, 31 por porte de arma de fogo e 50 lesões corporais. Mas os números reais são maiores. Nem todas as ocorrências são atendidas pela unidade especializada da PM e acabam registradas direto na Polícia Civil. Outras não fazem parte das estatísticas porque as vítimas não prestam queixa. Já a Secretaria de Segurança Pública não faz levantamento específico das vítimas de violência a caminho do colégio.

Nem os conselhos de pais para que os jovens evitem becos ou lugares afastados surtem efeito (leia Fique alerta). Os assaltantes agem à luz do dia e em avenidas movimentadas. O objeto preferido é o celular. Mas eles levam também tênis, tablets, mochilas e até calças jeans. “Um amigo meu foi assaltado duas vezes este ano. Em uma delas, o deixaram só de cueca”, relata Ana*, 16 anos, moradora de Ceilândia.

Na mesma cidade, uma estudante de 18 anos teve o celular roubado por dois criminosos há cerca de 800 metros do Centro Educacional 15. Eles a ameaçaram com uma arma branca — ela não soube dizer se faca, canivete ou estilete. Enquanto um vasculhava a mochila, o outro pressionava o objeto contra a barriga dela. “Ela estava apavorada (quando chegou à escola). A barriga dela ficou machucada e saiu um pouco de sangue”, aponta uma amiga da jovem. O diretor da instituição, Anderson Pereira, levou a aluna até um posto de saúde e, em seguida, ela foi liberada. “Essas áreas da QNQ, da QNL e da Expansão do Setor O são violentas. Todas as escolas localizadas nessas regiões vivem a rotina de alunos serem assaltados e agredidos a caminho da instituição. É um problema não só dos alunos, mas da comunidade toda”, afirma.

Abaixo-assinado

Em 43 dias de aula, o diretor de uma escola particular de Taguatinga recebeu cerca de 50 alunos vítimas de assaltos. Revoltado, ele decidiu organizar um abaixo-assinado. “Conseguimos 10 mil assinaturas. Precisamos de mais rondas policiais, de mais atenção por parte da segurança pública”, defende Carlos Henrique Martinez. Segundo ele, não existe problema de violência dentro da escola. Mas o que acontece ao redor afeta o emocional e prejudica o aprendizado. “São quatro ou cinco casos por semana. Não posso me preocupar com o bem-estar dos estudantes só aqui dentro”, alerta Martinez.

A servidora pública Eloísa Margareth de Andrade, 42 anos, tem esperança de que a iniciativa do diretor de pedir reforço na segurança dê certo. O filho dela, de 15 anos, foi assaltado duas vezes quando seguia para a escola. “Na primeira, ele reagiu. Chegou em casa todo ensanguentado, com o nariz e os olhos roxos. Na segunda, seguiu meu conselho e não reagiu. Levaram o celular, mas ele chegou bem”, diz Eloísa.

A servidora estuda a possibilidade de contratar o serviço de uma van escolar. Também pensa em matriculá-lo em uma instituição mais perto de casa. Mas a conversa com outros pais é desanimadora. “Na escola perto da minha residência, os meninos também têm sofrido com assaltos. Registrei todas as ocorrências na 17ª DP, mas, até agora, viraram estatística. Espero que as denúncias sirvam para a elaboração de alguma política pública” conclui Eloísa.

 


* Nomes fictícios em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente

Depoimento

“Entreguei o celular”

 

“Saio da escola por volta das 13h. Espero na parada de ônibus ao lado dela, mas os coletivos demoram muito. Então, algumas vezes, decido atravessar a (avenida) comercial para pegar outra linha. Na primeira vez em que tentaram me assaltar, saíram três meninos de um beco e pediram meu celular. Disse que não ia dar. Eu bati neles e eles bateram em mim. Consegui fugir. Minha blusa está manchada de sangue até hoje. Na segunda, veio um cara de bicicleta e outro a pé. Disseram que iam meter bala. Acho que estavam armados. Entreguei o celular. Eu me sinto inseguro. Vou tentar mudar a linha de ônibus, esperar o ônibus na parada perto da escola, mesmo que demore um pouco mais. Já tentamos andar em grupo, mas não adianta”

Eduardo*, 15 anos, estudante de uma escola privada em Taguatinga

 

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