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Bullying, tortura com máscaras

Às vezes, as diferentes expressões de violência se confundem com brincadeiras. Mas os danos psicológicos e físicos são graves. Se as agressões não forem identificadas a tempo, podem perdurar por toda a vida

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postado em 03/04/2014 15:00 / atualizado em 03/04/2014 16:17

Manoela Alcântara , Adriana Bernardes

Iano Andrade
A violência no ambiente escolar nem sempre é explícita. Está mascarada em forma de brincadeiras de criança. Um apelido aqui, um empurrão ali, uma ofensa acolá. Até o dia em que a vítima adoece ou extravasa a raiva por meio de socos e pontapés. Na reportagem de hoje, da série “O bê-a-bá da violência”, uma criança de 10 anos, o pai de uma menina de 3, e uma jovem de 22 relatam o drama e as consequências de terem sido alvo dessa agressão, muitas vezes invisível. É comum as vítimas não conseguirem denunciar. Pais e professores precisam ficar atentos aos sinais para tentar enfrentar o problema.

A mudança de comportamento do filho despertou a desconfiança da funcionária pública Carolina Castro do Vale Ferreira, 35 anos. Gustavo era um menino alegre, extrovertido. Logo após mudar de escola, tornou-se retraído, ficou acuado. “Eram sinais de tristeza evidentes. Perguntava a ele o que estava acontecendo e ele não dizia. Indagava na escola e eles não sabiam de nada”, conta a mãe.

Profissional da área de educação, ela começou a analisar todos os acontecimentos recentes que justificariam as reações do filho. A escola era a única novidade. “Tirei-o da instituição. No novo colégio, ele voltou a ser o menino de antes. Só, então, me contou o que tinha acontecido”. Gustavo era alvo frequente de bullying. Os colegas escondiam a chuteira, pegavam o lanche dele, chegavam a segurá-lo para jogar objetos e xingá-lo. “Contando comigo, eram 11 meninos na sala, nove faziam essas coisas. Falei com a professora e com a diretora. Elas só diziam que iria passar. Não passou”, relata o menino.

Além da mudança de comportamento, Gustavo começou a ter problemas físicos. “Ele desenvolveu alguns tiques, espasmos. Foi horrível”, diz a mãe. As humilhações duraram dois meses. Tempo suficiente para a família ter um aprendizado para toda vida. “É uma sensação de impotência muito grande. A gente tem vontade de denunciar o caso ao Conselho Tutelar, à imprensa, mas aí pensamos em resguardar nosso filho. É uma coisa muito complicada”, completa Carolina. Com as forças restabelecidas depois de anos de sofrimento, ela decidiu falar ao Correio para levantar uma bandeira. “Ouvimos falar sobre bullying, mas não vejo a divulgação de casos concretos. Não quero que isso aconteça com outras mães”, diz.

Uma das indignações de Carolina e do filho foi o despreparo da escola particular em tratar o caso. A mensalidade acima de R$ 1 mil não foi o suficiente para pedagogos, psicopedagogos e psicólogos atuarem. “Só melhorou quando mudei de colégio. Lá, fui muito bem acolhido. Hoje, tenho diversos amigos e gosto de ir estudar”, conta Gustavo.

Doutora em psicologia e integrante do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, Angela Uchôa Branco ressalta que as práticas de bullying têm sido recorrentes e as ações devem ser no sentido de prevenir. “O professor deve tomar a iniciativa de promover relações cooperativas entre as crianças; de respeito às diversidades; ações de resolução dos conflitos sem agressão e, principalmente, a desconstrução do preconceito”, defende.

Se é do educador a responsabilidade de detectar o bullying, ele precisa contar com o apoio irrestrito da direção da escola e dos pais das crianças e jovens, sejam eles agressores, sejam vítimas. “Quanto mais tempo se leva para intervir em uma situação de bullying, mais difícil fica resolver a situação porque vira uma cultura em que todo mundo implica com o outro e há menos assertividade”, explica Angela.

O papel dos pais é manter o diálogo e ficar atento às mudanças de comportamento dos filhos. Se a criança ou adolescente perde o prazer de ir para a escola, algo errado está acontecendo. Os alvos dos agressores dificilmente pedem ajuda aos professores e aos pais por acreditarem que o silêncio evitará novos episódios de “zoação”. Já os autores não apresentam mudança na rotina. Muitos agem dessa forma por falta de limites na educação ou porque buscam, nesse tipo de comportamento, conseguir poder e status.

Depoimento

Preconceito socioeconômico

“Eu estudava em escola pública e ganhei uma bolsa integral para ingressar em um colégio top de Brasília. Escola de elite. Quando cheguei lá, vi claramente a distinção feita por alunos e professores. Não eram todos, mas a maioria. Quando tinha trabalho em grupo, os bolsistas sempre sentavam mais afastados e éramos excluídos pelos outros alunos. Os professores, muitas vezes, nem sequer olhavam para a gente. Eles faziam piadas sobre uma colega que morava em Ceilândia. Moro no Núcleo Bandeirante e alguns nem sabiam onde fica. Quando acordava de manhã e pensava que tinha de ir para a escola, começava a passar mal. Sentia enjoo, às vezes, vomitava, me dava dor de barriga. Desenvolvi uma gastrite nervosa. Demorei para contar aos meus pais. Eles estavam tão orgulhosos de mim. Eu era bolsista de uma das melhores escolas de Brasília. A mensalidade era R$ 1,6 mil. Eles nunca teriam condições de pagar. Fiquei lá no 2º ano e no primeiro semestre do 3º ano do ensino médio. Depois, conversei com eles. Disse: ‘Não aguento mais ficar nesta escola’. Pedi para sair e voltei para a escola pública. Se ficasse lá, ia piorar. Meus pais entenderam, me deram muito apoio. Minha mãe chegou a me buscar algumas vezes para me levar ao hospital. Não me arrependo de ter saído.”

Maria (nome fictício), 22 anos, estudante

Três perguntas para

Valéria Martirena, chefe da Delegacia de Proteção a Criança e ao Adolescente (DPCA)

Como é o trabalho da DPCA nos casos de bullying?
Muitos pais procuram a delegacia com a intenção de responsabilizar o adolescente envolvido na história, mas também de condenar o colégio. O professor responde na condição de garante —aquele que tem a tutela dos alunos enquanto eles estão dentro dela —, e a direção por omissão. Recebemos uma quantidade considerável de denúncias de bullying nas escolas. As DCAs também recebem muito.

Quando o bullying vira caso de polícia?
Quando alguma conduta análoga ao ato infracional é praticada. Geralmente, o bullying começa com uma rejeição à imagem do outro. Essa rejeição, às vezes, não é manifestada por palavras, mas pelo comportamento. Muitas vezes, eles impedem o coleguinha de ter acesso àquela criança, não falam com ela. É um bullying que pode ser resolvido na escola, não avança para a prática de ato infracional, que seria o caso de conduta análoga ao crime de ameaça, ao de injúria, de calúnia, de difamação.

E na internet?
Eles também fazem esse tipo de ação via redes sociais. Pode ser até um instrumento de investigação dos pais. Orientamos os adolescentes a não tirarem fotos sem roupas, nem fazerem vídeos que registrem o ato sexual. Muitas vezes, os meninos pedem uma prova de amor e usam esse material para denegrir a imagem da pessoa. É muito sério. Temos casos de famílias que se mudaram de Brasília. Acredito que, na fase relacionada ao comportamento, a escola tem como resolver, administrar isso. É preciso contar com o apoio da família. Quem tem o filho que pratica o bullying menospreza. Considera isso “coisa de criança”. Na verdade, é muito fácil dizer que é coisa de criança quando seu filho não está na posição de vítima.

 

 

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