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Correio Braziliense

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Família e professores, uma virada radical

A parceria entre escola e pais transformou a realidade do Centro Educacional 7 de Ceilândia, antes refém das drogas e do vandalismo dos estudantes. Estratégia semelhante mudou o Centro de Ensino Fundamental 3 em Planaltina

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postado em 04/04/2014 15:00 / atualizado em 04/04/2014 17:50

Manoela Alcântara , Adriana Bernardes

Breno Fortes

os poucos, as janelas com chapas de ferro voltaram a ser de vidro. Nos muros, a camada de tinta branca com detalhes verdes se mantém sem pichações. No lugar do tráfico, a prática esportiva. Os alunos, antes sinônimos de problemas, agora, são líderes de boas iniciativas. O que parecia impossível se  tornou realidade no Centro Educacional 7, em Ceilândia. Lá, diretores, estudantes e pais escrevem juntos uma nova história, pautada no respeito, na confiança, na autoestima e no sonho de transformação. Nas edições de hoje e de amanhã, a série “O bê-á-bá da violência” revela histórias em Ceilândia, em Samambaia, em Planaltina e no Paranoá, de vencedores da guerra contra a violência.


Localizado em uma área de risco, o Centro Educacional 7 de Ceilândia é um oásis para a comunidade escolar. Mas, em 2008, quando Firmino Neto assumiu a direção, encontrou uma realidade assustadora. Naquele ano, o Batalhão Escolar apreendeu 20 tabletes de maconha, 30 comprimidos de roupinol e cocaína dentro da escola. Por ano, 180 janelas e 700 cadeiras eram destruídas por atos de vandalismo. “Decidimos abrir a escola, sair do casulo. Por estar inserida em um espaço onde o tráfico é muito forte, havia influência do ambiente externo e nenhuma reação”, disse Firmino.

O primeiro passo foi fazer um diagnóstico do problema. A equipe pedagógica montou uma sala de apoio ao educando. Um professor readaptado organizou todas as ocorrências. No início, 50 estudantes indisciplinados lotavam a sala para atendimento. “Separamos quem tinha problemas graves de comportamento. Chamamos a família. Diagnosticamos transtornos, doenças e problemas familiares”, contou o diretor. O esporte, a música e uma rádio, entraram no currículo escolar. A educação integral foi uma aliada. “Conseguimos colocar 150 alunos para estudar o dia inteiro. Filhos de pais com ficha criminal, crianças que tinham tudo para dar errado, começaram a mostrar resultados surpreendentes”, constata o diretor.

A descoberta do xadrez mudou a vida de José Carlos Vargas, 17 anos. Ele ganhou vários torneios e se orgulha dos troféus e medalhas na prateleira de casa. “Eu matava muita aula. Gostar mais da escola mudou meu pensamento. Parei de ficar na rua”, diz o adolescente. “Menino de futuro”, segundo o diretor. “Ele tem liderança, é muito inteligente, um parceiro. Será um homem de sucesso”, orgulha-se o docente. Com ele, Luís Fernandes, 16 anos, agradece às inovações. “O diretor fez a diferença na escola. Hoje, jogo tênis de mesa, estudo, gosto de praticar esportes. Não tenho por que pensar em coisas ruins.”

O investimento foi além do diálogo. A escola tem ainda um estúdio que oferece a maior parte dos instrumentos musicais a e criou o projeto Sete Bandas. O investimento de R$ 11 mil ajuda os estudantes a concretizarem o sonho de tocar e gravar as próprias composições e a de outros autores. “Comecei a tocar guitarra. Agora, quero montar a minha banda. Temos boas oportunidades aqui”, completa Wendel Nogueira, 13 anos, estudante do 8º ano.

Controle
No Centro de Ensino Fundamental 3 em Planaltina, a mudança começou pelo rigor no controle de entrada por meio de carteirinhas e com a instalação de 44 câmeras de segurança, que permitem ao pai monitorar toda a movimentação dentro do colégio em tempo real. Assim como o investimento em prática esportiva. O ex-atleta da Seleção Brasileira José Carlos de Oliveira faz um trabalho voluntário com os alunos todas as terças e quintas-feiras.

As iniciativas começaram em 2009 capitaneadas pela diretora, Rita Cirlene Martins de Godoi. Com os recursos do Programa de Descentralização Administrativa e Financeira (Pdaf), ela instalou todo o sistema de monitoramento e conseguiu reduzir os casos de roubos de celular, de material e, de quebra, fortaleceu a parceria com a família. “Muitas vezes, os pais não acreditam quando relatamos o mau comportamento do filho e querem ver as gravações Com as câmeras, ficou muito mais fácil trabalhar em conjunto”, relata. “O ensino integral para 100 alunos também está entre as medidas tomadas que deram certo”, completa a diretora.

A escola fica em Buritis 2, região conhecida como Pombal, marcada pelas brigas de gangues, pelo tráfico e pelo alto índice de homicídios. Lá, o endereço de um jovem pode se tornar um problema incontornável a ponto de impedi-lo de frequentar as aulas. “O problema aqui é no caminho da escola. Muitas vezes, os alunos de regiões rivais só conseguem matrícula aqui e somos obrigados a fazer a transferência”, relatou uma das funcionárias da instituição.

Três perguntas para

Zuleika de Souza
 

 

Márcia Pereira da Rocha, titular da Promotoria de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc)

O que pode ser feito para reduzir a violência nas escolas?
Algumas coisas podem parecer uma redundância, mas estar na escola é o primeiro passo. Hoje, o aluno chega e não tem professor. A escola não está com uma atividade no horário programado. Qual a motivação que ele tem para permanecer ali? Existem ferramentas para fazer os estudantes gostarem da escola. Atividades no contraturno, esporte e outras tantas nas áreas das artes. As comunidades que investiram nisso obtiveram sucesso. Quando os professores percebem os alunos e os talentos deles, é possível fazer um bom trabalho.

Por que a violência acontece?
A escola é um reflexo da sociedade. Não vai ter um jovem do lado de fora que usa substância entorpecente e que deixa de usar porque entra na escola. Vai continuar sendo a mesma pessoa, não existe milagre. Existe uma sociedade que precisa ser construída. A educação é um dos fóruns para essa reconstrução. Se não houver uma mudança na sociedade, vamos retroalimentar a violência.

Qual é o papel dos professores para concretizar melhorias?
Precisamos de um enfrentamento imediato. O DF tem professores capacitados para atuar na elaboração de políticas públicas. Eles recebem treinamento da Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação (Eape), mas não atuam nas áreas para as quais têm o conhecimento. O que existe hoje são ações isoladas, de diretores engajados. É preciso também instituir uma política que venha da Secretaria de Educação, que determine diretrizes claras.

Táticas de enfrentamento


 

Marcelo Aguiar: monitores ficarão ligados à Secretaria de Segurança (Janine Moraes/CB/D.A Press - 8/3/13) 
Marcelo Aguiar: monitores ficarão ligados à Secretaria de Segurança
Diante do quadro de violência encontrado nas escolas, o secretário de Educação, Marcelo Aguiar, anunciou um plano elaborado em conjunto com a Secretaria de Segurança para diminuir as ocorrências. Algumas medidas já estão em andamento, como a contratação de um sistema de monitoramento por câmeras para ser instalado nas instituições de ensino que apresentam os índices mais preocupantes. O chefe da pasta pretende reforçar o papel do Batalhão Escolar e contratar profissionais para preencher lacunas no quadro de servidores da secretaria.

Escolas de Planaltina, Santa Maria, Ceilândia e Samambaia serão as primeiras a receber o sistema de monitoramento. Segundo o secretário, os equipamentos serão colocados na área comum das instituições e ao redor do prédio, pontos críticos de tráfico de drogas. “O diferencial é que o sistema vai estar ligado ao monitoramento da Secretaria de Segurança”, completou o secretário.

Aguiar adiantou que serão criados conselhos de segurança na escola e nas regionais de ensino para envolver toda a comunidade na discussão de melhorias. Os professores e funcionários também receberão cursos de capacitação. “Eles (docentes) precisam saber como tratar uma ocorrência, como mediar conflitos e toda essa questão que envolve as relações internas nas escolas”, explicou. O secretário pretende integrar ainda mais o Batalhão Escolar às escolas e aumentar os polos de policiamento, além de abrir licitação para contratar porteiros.

 

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