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Opinião:O professor e a funkeira

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postado em 14/04/2014 14:00

Marcelo Agner /

Quem são os maiores pensadores brasileiros da atualidade? Cada um de nós teria uma lista com intelectuais, atores, escritores e músicos. Divergiríamos em muitas escolhas. Mas concordaríamos em um ponto: Valesca Popozuda não estaria nessa relação. O professor Antônio Kubitschek, do CEM 13 de Taguatinga, tem consciência disso. A própria cantora sabe que não merece a honra. Então, por que tanta gente se indignou com a provocação feita numa prova de ensino médio? Fácil responder. O tema educação só acende debates quando há polêmicas.

Não tenho conhecimento suficiente para dizer se o método utilizado por Kubitschek é certo ou errado — há nítida divergência até entre especialistas —, mas achei que o professor foi corajoso em se expor à sociedade dessa forma. Os motivos que o levaram a incluir a letra de funk no teste devem estar ligados a questões internas do colégio e cabe a ele explicar de forma mais clara. Provavelmente, Kubitschek também não imaginou o tamanho da repercussão.

Mas a internet é implacável. As redes sociais foram tomadas por comentários de todo tipo, desde o apoio ao docente a afirmações repletas de preconceito contra Valesca. A artista, que faz sucesso entre os funkeiros, tem como marca registrada roupas apertadas, shorts e saias pequenas. E acreditem: uma semana após a polêmica que levou mulheres à campanha #eunaomerecoserestuprada, o estilo e a atitude da cantora foram duramente criticados pelo mesmo público que se indignou com a pesquisa do Ipea. Dá pra entender?

Nesse caos de ideias e opiniões, partiu da Popozuda a declaração de maior bom senso. Ao invés de se indignar e ficar magoada com as críticas e ironias, ela preferiu defender o funk como cultura popular, a música que diverte os jovens da periferia e das favelas. E tocou num assunto indigesto para a maioria dos políticos, que diz muito sobre a realidade do país e, principalmente, dos fãs dela: a qualidade da escola pública e o baixo salário dos professores no Brasil.

Como todas as discussões na internet, a “grande pensadora” Valesca já é coisa do passado. Praticamente sumiu das redes. Muito se falou sobre o professor Antônio Kubitschek e sobre o CEM 13, mas pouco será feito por eles. Governantes e políticos fazem questão de defender em discursos a prioridade para a educação, mas quase nenhum leva o tema a sério. Até a próxima polêmica, o ensino ficará em segundo plano.
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