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Provocador na sala de aula

Professor de filosofia que chamou a funkeira Valesca Popozuda de "pensadora contemporânea" já foi punido por método inovador, que agrada os estudantes

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postado em 14/04/2014 12:09 / atualizado em 14/04/2014 13:29

Matheus Teixeira

 (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press) 

"Todos aqueles que formam um conceito de repercussão na sociedade podem ser considerados pensadores. Ninguém é obrigado a concordar ou consumir a arte dela, mas ela (Valesca) não passa despercebida, e isso é um fato”
Antônio Kubitschek


Durante a última semana, ele se envolveu em uma polêmica nacional e virou um dos temas mais comentados das redes sociais. Tudo porque formulou uma questão para prova de estudantes do Centro de Ensino Médio 3, de Taguatinga, citando a música da funkeira Valesca Popozuda Beijinho no ombro, considerada um hit do momento. O professor Antônio Kubitschek de Oliveira se referiu à cantora como uma “grande pensadora contemporânea”. Não é a primeira polêmica em que Antônio se envolveu.

Em 2004, ele foi alvo de um processo administrativo e, com outros sete docentes, acabou afastado do Centro de Ensino Médio 5, em Ceilândia. Ele lembra do episódio de 10 anos atrás e diz que a decisão foi fruto de “perseguição política”. “Nós bolávamos exercícios interdisciplinares e fazíamos debates sobre temas diversos. Entrou uma nova direção na escola, que discordava dos nossos conceitos e nos considerava de esquerda, por isso nos tirou de lá”, relata. Antônio critica aqueles que rejeitam métodos de ensino inovadores. “Temos que nos reinventar para prender a atenção dos alunos. A aceitação do nosso método era tão grande que, quando saímos de lá, os alunos ficaram 22 dias de greve como forma de protesto. Essa foi a prova que tínhamos razão”, recorda-se.

No mais recente episódio, ele diz que alcançou o objetivo, que era mesmo causar polêmica.
Extrovertido e benquisto por todos, o mineiro, de 43 anos, é considerado pelos estudantes um dos melhores professores do colégio e defende sua forma de ensinar. Ele acredita que o ambiente escolar é um local em que é necessário suscitar debates sobre temas polêmicos, para que os alunos pensem além do senso comum. “É o papel do professor, ainda mais o de filosofia, estimular os meninos a refletirem sobre a humanidade e sobre o mundo atual”, opina.

Roqueiro desde novo, o funk nunca foi seu ritmo preferido. Antônio, contudo, defende que Valesca é, sim, uma pensadora, como afirmou em prova aplicada para estudantes do 2º e do 3º ano do CEM 3, de Taguatinga, onde leciona há 1 ano e meio. “Todos aqueles que formam um conceito de repercussão na sociedade podem ser considerados pensadores. Ninguém é obrigado a concordar ou consumir a arte dela (Valesca), mas ela não passa despercebida, e isso é um fato”, diz.

Para ele, “o conservadorismo da elite, que acredita ser dona dos valores morais da sociedade, tenta esconder a cantora, assim como outros artistas que não os agradam”. “Eles querem castrar discussões já postas que dizem respeito ao cotidiano da população”, acrescenta. Antônio também questiona o preconceito contra Popozuda. “Ela é discriminada, mas bandas como Mamonas Assasinas e Skank também têm músicas com conteúdo impróprio e são consideradas referências”, compara.

Formação profissional

Formado na Universidade Católica de Brasília (UCB) há 20 anos, Antônio veio de Carmo do Paranaíba (MG) para cursar o ensino superior na capital e morar na casa dos tios. O Kubitschek que tem na identidade não é sobrenome. “Meu pai adorava o ex-presidente Juscelino Kubitschek e decidiu homenageá-lo. É nome composto”, afirma. Os filósofos que tem como referência são Nietzsche, Arthur Schopenhauer e Jean-Paul Sartre. “Aprecio a leitura e o que escreveram esses grandes homens”, diz. Ele também elogia humoristas da nova geração, como Danilo Gentili e Rafinha Bastos, autores de frases polêmicas. “Essas pessoas são necessárias para levantar debates sobre assuntos que muitos têm vergonha ou medo de falar a respeito. Eles criticam a hipocrisia da sociedade, o que poucos têm coragem de fazer”, elogia.

Quando incluiu a questão na prova, Antônio sabia que o caso daria repercussão, mas não achou que seria de tal proporção. “Não paro de receber ligações. A mídia de todo o Brasil me procura”, conta. Os amigos também entraram em contato, mas não se surpreenderam com o fato. “Ele gosta de questionar, fazer os alunos pensarem. E essa foi uma ótima maneira”, defende a colega de profissão Francilma Rodrigues, 46 anos. O professor é casado e tem dois filhos, um de 12 e outro de 15 anos. Antes de aplicar a prova, ele avisou aos garotos do que faria, para evitar que eles sofressem bullying no colégio. “Eles se assustaram com a dimensão que isso tomou, mas entenderam minha intenção e me apoiaram. E nem sofreram na escola”, relata.

Admiração dos alunos

De acordo com Brenna Sanna, 18 anos, que cursa o 3º ano do ensino médio no CEM 3 de Taguatinga, as aulas de Antônio sempre foram descontraídas. “Ele é maravilhoso dentro de sala. É o melhor professor da escola. Nunca teve problema com os alunos. Todo mundo assiste às aulas dele com bastante interesse. Para mim, é um grande filósofo e um excelente professor”, afirma.

O jeito engraçado e irônico de Antônio conquistou os alunos e até quem não gostava do assunto passou a gostar. “Eu nunca fui muito fã das aulas de filosofia, mas aprendi a gostar graças ao Antônio. Ele sempre foi tranquilo e brincalhão e tem um método diferente de passar o conteúdo. É muito querido por todos”, afirma Bruno Oliveira, 16 anos, que também tem aulas semanalmente com o docente.

Os alunos que fizeram a prova aplicada por Antônio acreditam que a repercussão foi “desnecessária” e a questão não passou de uma tentativa de chamar a atenção para o fato de que apenas escritores, músicos e filósofos “clássicos” são citados como exemplo na sala de aula. “Essa polêmica toda aconteceu porque as pessoas veem a Valesca só como uma cantora de funk”, comenta Brenna.
Quanto ao conteúdo dado em sala, ambos concordaram que Antônio leciona de forma satisfatória. “As pessoas estão falando como se só tivesse a questão que cita a Valesca na prova. Mas não foi assim. As outras 11 questões foram sobre liberdade e moral, conteúdo que ele passou durante o primeiro bimestre. E ele sempre sabe explicar muito bem a matéria, de um jeito que todos entendam”, declara Bruno.

Quem é
Antônio Kubitschek de Oliveira

» Tem 43 anos
» Formou-se em filosofia na Universidade Católica, há 20 anos
» É professor da rede pública de ensino há 19 anos
» É casado
» Tem dois filhos homens, um de 12 e outro de 15 anos

 (Carlos Moura/CB/D.A Press - 20/6/09) 


"Eu fiquei muito honrada. Me senti duas vezes homenageada, tanto pela pergunta quanto pelo título de pensadora (mas isso eu vou ter de recusar porque é um título muito forte e não me sinto pronta para isso)”
Valesca Popozuda, em sua página em uma rede social, após a polêmica

A questão que provocou discussão cita parte da música de Valesca (Reprodução/Internet) 
A questão que provocou discussão cita parte da música de Valesca

 

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