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Caics, sonho que virou sucata

Os centros de Atenção Integral à Criança, implantados há duas décadas, abandonaram a proposta pedagógica de Darcy Ribeiro. Os alunos não ficam mais o dia inteiro nas escolas, que padecem pela falta de manutenção

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postado em 22/04/2014 10:33 / atualizado em 22/04/2014 10:35

Thaís Paranhos

Caic do Paranoá: no carnaval, parte da estrutura do ginásio caiu e ainda não foi recuperada (Gustavo Moreno/CB/D.A Press) 
Caic do Paranoá: no carnaval, parte da estrutura do ginásio caiu e ainda não foi recuperada

Criados há mais de 20 anos para ser um modelo de ensino no país, idealizado pelo educador Darcy Ribeiro, os centros de Atenção Integral à Criança (Caics) do Distrito Federal amargam o abandono. As oficinas de arte, as aulas de educação física e o atendimento médico e odontológico deram lugar às aulas regulares. São poucos os alunos que conseguem ficar o dia inteiro na escola, mas as atividades não se aproximam do que já foram um dia. Além da renúncia à ideia original, os Caics sofrem com a falta de manutenção nos prédios.

A decadência desse modelo de educação pode ser observada nos 14 Caics que existem no DF. O primeiro do país, o Santa Paulina, abandonou esse modelo ainda nos anos 1990. Hoje, somente 150 crianças dos 1,1 mil alunos têm a oportunidade de passar o dia na escola, fazer as refeições e participar de aulas complementares. Mas, mesmo assim, as atividades extras não são as mesmas daquela época. Em vez de música, teatro e educação física, os estudantes têm reforço de matemática e português, informática e recreação. “Não temos espaço físico nem funcionário para atender todos os estudantes”, lamentou a vice-diretora, Jaqueline Barreto de Oliveira.

Recentemente, os funcionários do Caic do Paranoá ainda passaram por um susto. Parte da estrutura do ginásio de esportes caiu durante o carnaval e, até hoje, não foi recolocada. Quando chove, as crianças ficam impedidas de ter aulas de educação física. Outra queixa da vice-diretora é a caixa d’água. “Ela está condenada pela Defesa Civil e não funciona há cinco anos. Nos períodos de seca, ficamos sem água. Desde a inauguração, nunca passamos por uma reforma total”, disse.

A pequena Isadora Carolina Alves dos Santos, 3 anos, faz parte do seleto grupo que tem a oportunidade de passar o dia no Caic do Paranoá. O pai, o auxiliar de manutenção elétrica Ozéias Santos Lima, 26 anos, deixa a filha na escola às 7h e só a pega no fim do dia. “Trabalho das 7h às 19h. É muito bom deixá-la na escola o dia inteiro. Os professores são a segunda mãe dela”, disse. No entanto, Ozéias se preocupa com o futuro da filha. No próximo ano, ela não poderá mais estudar em período integral. Sem contar o filho caçula, de 1 ano, que vai começar a frequentar o colégio. “Já estamos com nome na lista, não podemos pagar uma creche ou escola particular. É uma pena que, a cada governo, tudo mude”, lamentou.

Ozéias, com a filha, Isadora, lamenta que ela não poderá ficar no horário integral em 2015 (Gustavo Moreno/CB/D.A Press) 
Ozéias, com a filha, Isadora, lamenta que ela não poderá ficar no horário integral em 2015

Obra
O Caic Juscelino Kubitschek, no Núcleo Bandeirante, vive também uma situação complicada. Há dois anos, recebeu todos os alunos da Escola Classe 1 do Riacho Fundo I. “Tínhamos estrutura para creche, lavanderia, sala de dentista. Mas tivemos que adequar os espaços para uma sala de aula normal. Hoje, é um centro de ensino que atende 800 alunos”, explicou a diretora Jane Helena Borges Lopes de Carvalho. O regime integral ficou restrito a 100 alunos, com muito esforço dos funcionários. “Dependemos de verba para lanche e, como não queríamos perder as atividades, contratamos monitores para ensinar judô, basquete e informática”, contou. Jane acredita que, se o projeto tivesse vingado no DF, a realidade da educação seria outra. “Se tivesse continuidade, não teríamos tantas crianças fora da escola, reprovados ou sem alfabetização adequada”, completou.

No Caic de Santa Maria, funcionários, alunos e pais vivem outro drama. Desde o início do ano, o centro funciona em horário reduzido devido ao mau cheiro que vem do esgoto. As aulas chegam a ser suspensas quando o odor fica mais forte. “Quando é assim, a gente tem que se virar, pagar alguém para olhar nossos filhos enquanto trabalha. Meu irmão já viu ratazanas lá e disse que a estrutura do ginásio está quebrada. Se funcionasse conforme foi criado, ia trabalhar mais tranquila”, reclamou a operadora de telemarketing Maiara Moreira, 22 anos, moradora de Santa Maria, mãe de um aluno do Caic.

Existem 14 centros em Brasília:

Brazlândia

Caic Professor Benedito Carlos de Oliveira
Área Especial 5, Setor Tradicional

Ceilândia

Caic Bernardo Sayão
QNN 28, Área Especial H a K, Guariroba

Caic Professor Anísio Teixeira
QNO 10, Área Especial A, Setor O

Gama

Caic Carlos Castello Branco
EQ 20/23, Setor Oeste

Núcleo Bandeirante

Caic Juscelino Kubitschek
SMPW Quadra 6, Área Especial 2 Jane

Paranoá

Caic Santa Paulina
Quadra 5, Conjunto C

Planaltina

Caic Assis Chateaubriand
Área Especial 3, Setor Leste 1

Samambaia

Caic Ayrton Senna
QR 117, Setor Urbano

Caic Helena Reis
QR 409, Área Especial 1

Santa Maria

Caic Albert Sabin
EQ 304/307, Lote E

Caic Santa Maria
EQ 215/315, Lote B

São Sebastião

Caic Unesco
Quadra 5, Conjunto A, Área Especial

Sobradinho 2

Caic Júlia Kubitschek
AR 13, Conjunto 3, Área Especial 1

Taguatinga

Caic Professor Walter José de Moura
QS 7, Área Especial 2
Unidades serão reorganizadas


O subsecretário de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação Educacional da Secretaria de Educação, Fábio Pereira de Sousa, reconhece que não houve atenção à educação integral nos Caics nos últimos anos, mas garante que há um esforço do atual governo para mudar essa realidade. “Em algumas regiões, a demanda de alunos aumentou muito e a rede não teve uma expansão adequada. Estamos retomando o objetivo-base dos Caics. Hoje, dos 14, oito já estão com educação integral e nos outros estamos nos reorganizando”, afirmou.

Sousa adiantou que estão sendo feitas vistorias em todos os Caics e as obras necessárias já estão incluídas no plano de 2014/2015. “Estamos prevendo atendimento integral com refeitórios, banheiros adaptados para higiene pessoal e cozinha para oferecer as cinco refeições. Quanto ao atendimento médico, fizemos uma parceria com a Secretaria de Saúde e não há a necessidade de um profissional dentro da escola. Eles vão a todas as escolas da rede para prevenção todo ano”, finalizou.
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