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O DIFÍCIL RETORNO »

Adolescentes trocam o ensino regular pelo acelerado

Estudantes com histórico de repetência têm buscado a Educação de Jovens e Adultos como forma de recuperar o tempo perdido, muitas vezes orientados pelas escolas de origem. Medida é controversa e não significa melhora no desempenho. Apenas em uma unidade na Asa Sul, 40% dos alunos devem repetir o semestre por excesso de faltas

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postado em 19/05/2014 12:00 / atualizado em 20/05/2014 10:27

Oswaldo Reis

Depois de o filho repetir duas vezes a 7ª série, o cabeleireiro Sílvio Francisco de Brito, 48 anos, avaliou que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) seria o lugar certo para o garoto de 16 anos compensar o atraso na escola. Além de Ismael Sílvio Rodrigues, outros 500 adolescentes se matricularam no Centro Educação de Jovens e Adultos da Asa Sul (Cesas) neste ano. No entanto, o filho de Silvio será um dos poucos alunos dessa faixa etária a cumprir o objetivo de acelerar os estudos. Segundo levantamento da escola, cerca de 200 meninos e meninas (40% do total) estão prestes a repetir o semestre por causa do excesso de faltas.

A situação encontrada na unidade do Distrito Federal tem se repetido em todo o Brasil. Criada para receber jovens e adultos trabalhadores, a EJA está se tornando cada vez mais o destino de adolescentes com histórico de repetência. Na segunda matéria da série “O difícil retorno”, o Correio trata da controversa medida que está permitindo a migração de meninos e meninas do ensino regular para o sistema especial de educação.

Segundo dados do Censo Escolar de 2013, divulgados pelo Instituto Nacional de Educação e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), alunos de 15 e de 17 anos já são a maioria entre os matriculados no segundo segmento da EJA, o que corresponde aos anos finais do ensino fundamental. No ano passado, foram 466.196 adolescentes nessa fase, cerca de 30% do total de 1.551.438 de matrículas.

Com base nos dados do Censo Escolar 2012, o Inep emitiu um parecer técnico sobre o assunto. “Considerando as idades dos alunos nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio de EJA, há evidências de que essa modalidade está recebendo alunos provenientes do ensino regular, por iniciativa do aluno ou da escola”, informa o texto.

A transição de adolescentes para a EJA está ocorrendo desde junho de 2010, a partir da resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE). O documento definiu 15 anos como a idade mínima para a inscrição nas séries no nível fundamental e 18 para o ensino médio. Especialistas, professores e pais alegam, no entanto, que a EJA é o espaço inadequado para a retomada dos estudos desses meninos.

Entre os adolescentes, existe um grupo daqueles que apenas estudam, há alunos que também trabalham, e outros que, como Ismael, estudam no turno da noite para colaborar nas tarefas de casa. “Se não ensinar as coisas certas em casa, o mundo ensina tudo de errado lá fora”, comenta Sílvio. Para os professores da EJA, a história de Ismael é uma exceção. Uma das principais críticas é a falta de maturidade para adaptação ao sistema mais flexível da modalidade.

No Centro de Ensino Fundamental (CEF) 04 em Sobradinho, há sete turmas de jovens e adultos, no período noturno. Na quarta-feira passada, o Correio esteve na escola e viu uma dezena de alunos fora do portão só conversando, durante o período de aula. “Me deixa entrar, por favor? Só quero usar o wi-fi”, disse um adolescente para o vigilante. Ele pensou em repreender o menino, mas abriu o portão porque contou à reportagem ser impedido de interferir na liberdade dos alunos da noite.

Nas turmas da EJA do colégio, os alunos, em sua maioria, são adolescentes que vieram dos turnos da manhã ou da tarde. “A gente não quis vir para a noite. A escola que nos mandou, por causa da defasagem de idade”, relatou Flávio Santos de Oliveira, 18 anos, ao lado de dois colegas que passaram pela mesma situação. O adolescente, que diz ter sido diagnosticado com hiperatividade, repetiu quatro vezes a mesma série. “Por isso, eu quero fazer psicologia. Eu repeti de ano por indisciplina, não conseguia ficar quieto, e os professores não entendiam o que eu tinha”, justificou.

Evasão

No Cesas, a direção da escola decidiu, pela primeira vez, este ano, alertar os pais dos adolescentes sobre a ausência recorrente dos filhos na sala de aula. Em 16 de abril, foram postadas 280 cartas para os endereços indicados nas matrículas. “Pedimos, no texto, para que os pais comparecessem à escola, para conversar sobre as faltas”, contou a orientadora pedagógica, Marta Rodrigues. Um mês depois da iniciativa, apenas 8% dos responsáveis responderam ao chamado e foram até a escola.

A manicure Tatiane Pereira de Oliveira Nascimento, 34 anos, foi uma das mães que atendeu a convocação. “Eu fiquei assustada ao saber disso. Ele todo dia sai de manhã para ir à escola”, comentou. O filho, de 16 anos, assumiu que não ia para o colégio, mas não entrava na sala de aula. “Só agora que fui entender que lá não tem boletim nem dever de casa. Eu acho que eles dão muita liberdade para os meninos”.

Diante dessas dificuldades dos adolescentes na EJA, Analise da Silva, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), defende que a mudança comece no ensino regular, a fim de impedir a defasagem de idade. “Nós temos uma dificuldade enorme, pela própria formação dos professores, de lidar com os adolescentes, ligados à questão de interesse, disciplina, vontade de estar na escola”, avalia. Para ela, a decisão de encaminhar os alunos para a EJA só gera um novo problema. “O adolescente vai para a EJA e não se adapta. E o processo só aumenta a evasão escolar deles, e de jovens e adultos incomodados com a presença dos adolescentes”.

Recorte por idade

Dados do Censo Escolar de 2013 mostram um grande número de adolescentes cursando as séries finais do ensino fundamental no sistema indicado para trabalhadores

Faixa etária    Anos iniciais do Ensino Fundamental    Anos Finais do Ensino Fundamental    Ensino Médio

            
Até 14 anos                11.179                15.225                25
De 15 a 17 anos             83.871          466.196         15.129
18 e 19 anos                  41.341           282.418       232.881
De 20 a 24 anos            58.716            233.182       442.199
De 25 a 29 anos            69.462             127.780       186.950
De 30 a 34 anos           95.808             121.511         136.316
De 35 a 39 anos          102.113             110.441         105.411
Mais de 39 anos           370.264            194.685         164.698

Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)

“Considerando as idades dos alunos nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio de EJA, há evidências de que essa modalidade está recebendo alunos provenientes do ensino regular, por iniciativa do aluno ou da escola”

Parecer técnico do Inep sobre o perfil dos alunos matriculados na Educação de Jovens e Adultos

“O adolescente vai para a EJA e não se adapta. E o processo só aumenta a evasão escolar deles e de jovens e adultos incomodados com a presença dos adolescentes”
Analise da Silva, professora da Faculdade de Educação da UFMG

15 anos
Idade mínima para o ingresso na EJA no ensino fundamental

18 anos
Idade mínima para o ingresso na EJA no ensino médio

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