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Escola, negócio para grandes

Repetindo tendência recente na capital, um dos mais tradicionais colégios de Brasília passa a ser administrado por gigante do ensino nacional. Especialistas divergem quanto aos benefícios da mudança, e alguns pais temem alterações na metodologia

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postado em 25/09/2014 11:52

Manoela Alcântara

O Candanguinho tem, hoje, alunos desde a creche até o ensino médio: entre os planos da SEB, está o de ter uma educação bilíngue (Antonio Cunha/CB/D.A Press) 
O Candanguinho tem, hoje, alunos desde a creche até o ensino médio: entre os planos da SEB, está o de ter uma educação bilíngue


O Centro de Ensino Candanguinho (Cecan), uma das escolas mais tradicionais de Brasília, se rendeu a uma tendência nacional: foi vendido para o maior grupo especializado em ensino básico do país, o Sistema Educacional Brasileiro (SEB). O colégio passou dois anos em negociação com o conglomerado até fechar a escolha da nova mantenedora. O SEB também é dono do Dínatos COC, o antigo Inei, localizado na Asa Sul. O movimento tem se tornado comum na capital do país. No ano passado, o Sigma passou a pertencer à Abril Educação, um braço do Grupo Abril.

A transação do Sigma envolveu R$ 130 milhões. Como o SEB não é um grupo de capital aberto, não é obrigado a divulgar os valores do negócio. O presidente da instituição, Chain Zaher, afirmou que a compra faz parte de uma estratégia de ampliar os alunos atendidos até 2020. Hoje com 40 mil estudantes em instituições espalhadas por todo o Brasil, o SEB pretende chegar a 100 mil alunos. “Estamos em 33 cidades brasileiras, e Brasília não poderia ficar de fora. É um grande mercado, tem uma população com poder aquisitivo muito alto. Teremos na capital o melhor exemplo de escola para o Brasil”, disse Zaher.

Diante do anúncio da compra, alguns dos pais dos 1.280 alunos matriculados no Cecan ficaram apreensivos. A maior dúvida é quanto a possíveis mudanças na metodologia de ensino. A advogada Georgia Aciole, 36 anos, tem um filho no 1º ano do ensino fundamental. Ela afirmou ter sido pega de surpresa quando recebeu a circular da escola informando a venda. Mas disse que vai esperar todas as explicações para ter certeza do que fazer. “Tenho outro filho no Sigma. Lá, as mudanças foram poucas, mas o colégio tem outro perfil, mais voltado para o vestibular. No Candanguinho, busco uma educação familiar. Vou aguardar para ver como ficará”, disse.

Ontem, duas reuniões foram realizadas com os pais. O presidente do grupo fez esclarecimentos: “Manteremos a coordenação, o corpo docente e o material didático. Viemos para agregar e não para mudar o que já achamos bom”, garantiu. A proposta, segundo ele, é diferente da instituída no Dínatos. O Candanguinho será uma unidade premium. “ Não estamos preocupados com quantidade de alunos, mas com a qualidade do ensino”, completou o presidente do SEB.
Como mantenedora, promete melhorias na ampliação do espaço, investimento em tecnologia e na adoção de um modelo similar ao do Pueri Domus, de São Paulo, hoje com 2,2 mil estudantes. “Vamos ter uma educação bilíngue, sem excluir o modelo tradicional. Para o ensino médio, pretendemos ser uma high school (ensino médio nos moldes norte-americanos)”, diz.

Controvérsia

As mudanças recentes nas escolas de Brasília dividem opiniões de especialistas do setor. A presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), Fátima de Mello Franco, vê com normalidade a mudança da gestão familiar para a de grandes conglomerados. “É uma tendência do mercado brasileiro, não só de Brasília. Na medida em que a empresa familiar se profissionaliza, atrai os olhares de grandes grupos”, ressaltou.

O professor aposentado da UnB, especialista na área de políticas para a educação e integrante do Conselho Nacional de Educação, Erasto Fortes, faz ressalvas sobre a tendência nacional das fusões. “Essas empresas vêm com verdadeiros pacotes. Têm materiais pedagógicos que servem para todas as escolas, quando, na verdade, observamos práticas bem-sucedidas em projetos individuais de cada instituição”, afirmou. Para Fortes, as vendas constantes demonstram um desânimo dos donos das escolas em manter o projeto inicial. “São latifúndios pedagógicos que não podem fazer bem para a educação”, lamentou.

O presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa-DF), Luis Claudio Megorin, acredita que a movimentação tem dois lados. “É interessante porque um grupo como a Abril ou o que administra o COC tem experiência no assunto. Se a escola está com uma gestão fraca, pode melhorar. Por outro lado, fico preocupado com a concentração. Será que a diferenciação dos preços será mantida? Ou haverá uma padronização?”, ponderou.

Para saber mais

46 anos de tradição

Fundado em 1968, o Centro de Ensino Candanguinho já teve sede na Asa Sul. Hoje, a unidade funciona no Sudoeste. Atende estudantes da creche ao ensino médio. O Grupo SEB, que assumiu a administração da escola, tem unidades em Brasília, São Paulo, Ribeirão Preto (SP), São José do Rio Preto (SP), Araçatuba (SP), Belo Horizonte, Vitória, Vila Velha (ES), Maceió, Salvador e João Pessoa.
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