SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

EDUCAÇÃO »

Diversidade na hora de avaliar

Especialistas defendem a adoção de instrumentos complementares à prova no momento de determinar o desempenho dos estudantes

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 12/02/2015 10:41 / atualizado em 12/02/2015 10:47

Mariana Niederauer

André Violatti
Para evitar a ansiedade de aguardar o dia da prova e os momentos de tensão a cada exercício que precisa ser resolvido, muitas escolas adotam instrumentos de avaliação alternativos, como trabalhos em grupo e montagem de portfólio. Especialistas destacam que essa é a melhor forma de garantir o aprendizado e esses instrumentos devem ser aliados ao modelo tradicional, que prepara o estudante para os processos seletivos a serem enfrentados na vida adulta.

“As provas e os exames são procedimentos atrelados a uma perspectiva mais tradicional, conservadora e autoritária. É preciso achar formas (de avaliação) que superem essa visão, que é mais passadista”, defende o professor Odilon Carlos Nunes, do Departamento de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Segundo ele, essa maneira de medir os conhecimentos adquiridos pelo aluno favorece a memorização e é mais burocrática. Por isso, deve ser usada em conjunto com uma avaliação processual, que privilegie o desenvolvimento do aluno ao longo do tempo.

Entre os benefícios dessa combinação, ele lista a autonomia, a habilidade de enfrentar problemas e o fomento de uma posição menos individualista. Também é um modelo mais justo, segundo ele, que categoriza menos o aluno, além de estimulá-lo. “Provas e exames, quando existirem, devem ser encarados como medidas numéricas, e não mais do que isso”, destaca.

Álvaro Domingues, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe/DF), lembra que é importante levar em consideração também a função de cada avaliação. Se o intuito é que o estudante adquira habilidades e competências dentro de um contexto que não é eliminatório, é opcional que se dê uma nota para o desempenho dele. Se o objetivo é prepará-lo para um concurso ou para o vestibular, torna-se necessária uma avaliação quantitativa.  “Sempre vai existir a competição, pois é preciso selecionar as pessoas”, avalia.

Ensino diferente
No Colégio Arvense, que recebe alunos até o 5º ano do ensino fundamental, as avaliações são variadas, incluem trabalhos em grupo e a montagem de portfólios, prova oral e o registro individual do aluno, que reúne comentários do professor sobre cada um dos estudantes. “Cada indivíduo tem uma forma única de aprendizagem, e o professor não pode delimitar o que o aluno vai aprender”, explica a diretora Educacional do colégio, Margareth Nogueira.

As provas não são tratadas da maneira tradicional, ganham até outro nome: momento privilegiado de estudo (MPE). Os alunos resolvem os exercícios em grupo e podem consultar o material. Todas tratam um tema único para, a partir dele, abordar os conteúdos ensinados em sala de aula. A professora do 5º ano Kaelly Ornelas afirma que o método é diferente dos demais, mas muito eficiente. “Desperta na criança a habilidade crítica e ela se torna mais autônoma”, observa.

Os alunos Ana Sofia Brandão Souza, 10 anos, e Lucca Schoen, 9,   relatam que não sentem muita ansiedade na hora de fazer a avaliação. “Se for uma matéria que eu não entendo bem, eu fico só um pouquinho nervoso”, revela Lucca. Ana Sofia lembra que as autoavaliações, feitas a cada três meses, também contribuem para o desenvolvimento escolar. “A gente pensa no que já fez de bom e no que pode melhorar. Ajuda bastante no próximo ano”, diz.

A mãe de Lucca, a servidora pública Tábatha Schoen, 37 anos, gosta do método de ensino que foge do tradicional, pois acredita que o filho é muito novo para enfrentar esse tipo de pressão. “Acho que o mais importante para ele agora é a formação como cidadão. Se você está preparado para a vida, o resto — Enem, Sisu, vestibular — vai tirar de letra”, afirma. “E isso não quer dizer que tenha menos conteúdo, às vezes, numa simples brincadeira, ele está aprendendo valores muito mais importantes”, completa.

Qualidade
A legislação brasileira já determina que a avaliação qualitativa se sobreponha à quantitativa, como uma forma de evitar o rigor aritmético na hora de avaliar o estudante (leia O que diz a lei). “Mas essa avaliação processual, mais individualizada, que respeita a capacidade do aluno, requer um trabalho muito mais especializado e capacitação dos professores”, destaca o presidente do Sinepe/DF, Álvaro Domingues. Ele diz que o processo de formação de professores no Brasil deixa a desejar em muitos aspectos e um deles é a forma de avaliação.

A pesquisadora Cacia Rehem, professora do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), explica que, além dessa lacuna na formação dos professores, eles acabam por reproduzir em sala de aula a forma como foram avaliados durante a própria vida escolar e acadêmica, que é a prova.

Cacia desenvolveu um modelo de avaliação processual e o implantou nas séries iniciais do ensino fundamental de uma escola particular da Bahia, em 2011. Os resultados já podem ser percebidos. “A autoestima das mães e dos alunos aumenta. Elas vão buscar o relatório (do professor) para saber o que está sendo discutido, e a criança não é mais tratada como incapaz, mas sempre como um aluno que está crescendo.”

No Instituto Natural de Desenvolvimento Infantil (Indi), as formas de mensurar o aprendizado do aluno incluem seminário, assembleia, discussão em grupo, provas surpresa e oral, avaliação do professor e autoavaliação. A diretora geral e Pedagógica, Júlia Passarinho, explica que são usados pelo menos cinco instrumentos avaliativos até o 5º ano do ensino fundamental e três a partir do 6º ano. Além disso, nos anos iniciais dessa etapa do ensino, não são aplicadas provas, apenas exercícios.

Segundo a diretora, a metodologia de avaliação adotada preza também pelos conteúdos de formação do sujeito, como ética e respeito, o que contribui, na opinião dela, para que o aluno saiba buscar soluções e se torne mais perspicaz, características que ajudam em avaliações futuras. “O aluno se sai muito melhor numa redação, porque tem mais capacidade argumentativa”, detalha.

A Escola Politeia, de São Paulo, adota um modelo mais radical e não aplica provas aos alunos. Lá, pratica-se a educação democrática, com foco na autonomia e na emancipação dos estudantes. Do 1º ao 9º ano do ensino fundamental, os alunos desenvolvem pesquisas com grupos de estudo que se reúnem, durante dois meses, baseados em um tema de interesse — não se segue um formato de aula. De acordo com o educador Osvaldo Souza, a intenção é que cada um aprenda no próprio tempo. “Não faria sentido trabalhar com o conceito de prova, pois ela equaliza os estudantes”, afirma.

publicidade

publicidade