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250 estudantes ainda sem aula

Por causa da falta de professores, o ano letivo nem sequer começou em algumas escolas de Ceilândia, Taguatinga, Estrutural e Planaltina

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postado em 24/03/2015 10:29 / atualizado em 24/03/2015 10:32

Manoela Alcântara

Ana Rayssa
As aulas na rede pública de ensino do Distrito Federal iniciaram oficialmente há um mês, mas pelo menos 250 alunos matriculados no ensino fundamental não começaram a estudar. Faltam professores em instituições de ensino de Ceilândia, Taguatinga, Estrutural e Planaltina. Eles estão de licença médica ou simplesmente não foram lotados para turmas do 1º ao 5º anos. A Secretaria de Educação pretende resolver o problema dessas turmas até o fim da semana, mas o Sindicato dos Professores estima que haja carências em torno de 70% dos 654 colégios da capital. Além das ausências nas turmas com um só professor, faltam docentes de português, matemática, biologia, química.

Em 23 de fevereiro, quando deveria voltar ao Centro de Ensino Fundamental 2, na Cidade Estrutural, Jamile Soares Leite, 11 anos, arrumou a mochila nova e ficou ansiosa para encontrar os amigos. Porém, o caderno comprado com esforço pela mãe, Grace Kelly Soares Pinto, 26, ainda está em branco. “Todo mundo voltou a estudar, menos eu. Gosto muito de ler. Pego os livros dos anos anteriores e revejo a matéria. Meu maior medo é ficar com o conteúdo defasado”, lamenta a menina. Ela e a mãe já foram ao colégio diversas vezes para obterem respostas, mas, até ontem, o que a diretoria respondia era o repassado pela Regional de Ensino. “Eles dizem que estão aguardando. É difícil até para eu me programar e conseguir um emprego, pois com quem meus filhos vão ficar?”, questionou Grace.

O irmão de Jamile, Joseph Arcanjo Soares, 8, também estuda no CEF 2. Ontem, ele foi liberado por falta de docentes. “Eles me ligaram para buscá-lo na escola. Como eu faria se estivesse com um emprego no Plano, por exemplo?”, questiona a mãe. Na sala de Jamile, são 35 alunos sem aula. Ontem, a professora de Joseph passou mal. Na escola, a Classe de Distorção Idade Série (Cedis) — para estudantes com algum tipo de dificuldade — também está sem aulas. São mais 30 crianças fora da escola devido a uma licença médica.

A situação se repete na Escola Classe 62 de Ceilândia. Lá, são 85 crianças do 2º e do 5º anos que não começaram os estudos em 2015. Ontem, a defasagem era de três professores. Hoje, são dois. A Secretaria de Educação conseguiu contratar um temporário para suprir uma carência. “Minha filha sente saudades de ler. Ela é uma aluna excepcional. Todos os dias arrumava a mochila para ir à escola. Ficou toda animada com a notícia de que teria professor. É um descaso muito grande. Espero que agora a situação se resolva”, afirmou a copeira Gisele Sousa Santa, 36 anos, mãe da estudante do 2º ano do ensino fundamental Sophia Sousa Santana, 7.

De acordo com Secretaria de Educação todos os dias abrem e fecham carências nas unidades escolares. Por semana, são cerca de 900 afastamentos por motivos diversos. “Nem sempre os temporários aceitam as licenças curtas. Não querem entrar para as de 15 ou 60 dias, só querem as maiores. Eles acreditam que, se acabar uma licença, não entrarão em outra, mas precisam saber que sempre há necessidade e eles serão chamados”, esclareceu o subsecretário de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação Educacional da SEDF, Fábio Pereira de Sousa.

Outro problema é que cada regional de ensino recebe o número de horas que podem contratar para suprir a falta de docentes. E muitas extrapolaram o limite. “No Guará, por exemplo, são 300 horas. Quando os professores vão sendo chamados, vai abatendo. A nossa luta agora é para renovar as horas e poder contratar”, completa o subsecretário. No início do mês, a carência no DF era de 3,5 mil professores. Agora é de cerca de 1,5 mil.

O assunto será tema de debate em reunião a ser realizada hoje, às 11h, entre o Sindicato dos Professores (Sinpro) e o secretário de Educação, Júlio Gregório. “Precisamos resolver o problema, pois o prejuízo pedagógico é profundo. Os alunos não perdem só conteúdo, mas se sentem desprestigiados. Veem os colegas estudando e se perguntam por que eles estão sem aula”, disse o diretor da entidade Washington Dourado.

Entenda o caso
Demora sem-fim

O calendário letivo para 2015 estava marcado para começar em 9 de fevereiro. Devido à situação crítica das escolas e à falta de professores, a Secretaria de Educação adiou o início das aulas para 23 de fevereiro. Uma paralisação dos docentes, para reivindicar o pagamento de benefícios atrasados sem parcelamento, ainda adiou o começo do ano letivo por mais uma semana. Quando a categoria conseguiu um acordo com o governo, voltou às salas. No entanto, ainda havia uma defasagem de 3,5 mil professores devido a atestados e licenças médicas. A pasta iniciou um processo para contratar, mas foi barrada porque o governo atingiu o limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Somente após autorização do Tribunal de Contas do DF, em 5 de março, foi possível iniciar a ligação para professores no banco de temporários. Até o momento, 1,8 mil profissionais foram contratados para repor alguma baixa.

 

Ameaça de greve


Em meio à crise da segurança, a Universidade de Brasília (UnB) enfrenta o risco de ver seus colaboradores de braços cruzados. A falta de condições de trabalho e a defasagem salarial são líderes das queixas. A possibilidade de demissão amedronta funcionários. A equipe de porteiros e seguranças, por exemplo, terá baixa de 10%, segundo o Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub). “O local vai ficar ainda mais vulnerável. Se nada for feito, a instituição vai passar por momentos ruins”, considera Mauro Mendes, coordenador geral do Sintfub. O líder promete greve para o mês de maio.

A lista de materiais que estão em falta não para de crescer. Desde papel até mesmo anestésico no Hospital Veterinário estão na lista de carência. A UnB justifica que as dificuldades não são motivadas pelo corte de orçamento, mas sim pelo erro no cálculo no momento da compra. O Sintfub critica a negociação que a instituição tem com o governo federal. “Tem que realizar concurso, tem que buscar mais repasse para que a universidade funcione como deveria”, argumenta Mauro.

Em janeiro, o governo federal publicou decreto que corta um terço do orçamento de R$ 1,5 bilhão da universidade. 

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