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Trauma e medo de voltar à escola

Um dia após um ataque de fúria em uma escola da Estrutural, alunos e professores relatam os momentos de desespero vividos diante de um homem transtornado. O Batalhão Escolar reconhece a falta de efetivo para a segurança dos colégios da capital

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postado em 08/04/2015 13:35 / atualizado em 08/04/2015 13:43

Isa Stacciarini


 (Ed Alves/CB/D.A Press)
 


 (Ed Alves/CB/D.A Press)
 


As imagens das câmeras do CEF 1 da Estrutural mostraram a chegada de Marivaldo ao local às 16h05, quando atacou alunos e professores com uma cadeira, até ser contido por um funcionário da limpeza (Ed Alves/CB/D.A Press)
 
As imagens das câmeras do CEF 1 da Estrutural mostraram a chegada de Marivaldo ao local às 16h05, quando atacou alunos e professores com uma cadeira, até ser contido por um funcionário da limpeza


"Ele dizia que mataria todos que estavam na frente dele. Pensei que aquela cena nunca ia terminar. Passou pela minha cabeça que ficaria ali para sempre.” O relato de Naama Vasconcelos Almeida, 9 anos, é o resumo dos momentos de pânico e desespero vividos durante o ataque de fúria contra estudantes e funcionários do Centro de Ensino Fundamental 1 da Estrutural, na tarde de segunda-feira — o turno da tarde ficou sem aulas. Por causa das agressões cometidas por Marivaldo Teixeira da Silva, 33, a garota sofreu uma lesão na perna. O episódio reforça a insegurança nas escolas do DF.

No total, 11 pessoas ficaram feridas, entre alunos, professoras e vigilante. Marivaldo invadiu o local às 16h05. Toda a ação foi gravada pelas câmeras de segurança. Naama sofreu a pancada quando brincava no pátio do colégio com as amigas. “Ele me deu uma cadeirada. Caí no chão e uma menina que nem conheço me ajudou a levantar. Torci a perna quando tentava fugir dele.” O pai, Abílio da Silva, 41, queixa-se da segurança. “Qualquer pessoa entra no colégio sem identificação. Um vigilante não consegue conter um louco. Isso só mostra o quanto tudo ali é frágil.”

A também estudante do 5º ano Estefane Pereira Santos, 10, foi atingida com violência no tornozelo esquerdo. "Fiquei com muito medo, saí correndo para a quadra (de esportes) e chorei muito. Todos que apareciam, ele lançava a cadeira”, lembra. Para a mãe, Maria Rosilene dos Santos, 42, as consequências poderiam ser maiores. “Fiquei em pânico quando cheguei à escola. Eram muitas ambulâncias. Enquanto não vi a minha filha, imaginei o pior."

Suelen Soares, 12 anos, teme voltar ao local. “Ele veio em cima de mim, mas eu consegui me esconder embaixo da escada. Muita gente também se enfiou lá”, diz. A dona de casa Alzira Soares, 46, mãe da adolescente, relata que a filha chegou transtornada em casa. “Ela estava apavorada e não quer mais ir ao colégio. Imagina se esse homem estivesse armado? Seria uma tragédia igual à que aconteceu em Realengo (leia Memória). Muitas crianças saíram machucadas”, lamentou.

Quem mais se machucou com o ataque de Marivaldo é a professora do 4º ano Jussara Lustosa Arantes Barcelos, 47. Para tentar proteger a cabeça e o rosto, ela ergueu as pernas. Antes de ser agredida, tentou defender uma colega. “Eu só queria que nós tivéssemos uma chance de fugir. Peguei um ventilador e bati nas costas dele”, lembra. “Só podemos contar uns com os outros e com as crianças. A escola era a proteção que os alunos tinham, o lugar seguro que, muitos deles, não encontram em casa, e isso acabou.” Ela levou pontos no joelho e torceu o pé. Está de atestado médico até 21 de abril.

O delegado-chefe da 1ª DP (Asa Sul), Luiz Alexandre Gratão, disse que Marivaldo estava transtornado quando chegou à unidade policial. “Ele deu trabalho. Estava agitado, sob efeito de álcool. Precisou o tempo todo estar algemado, porque tinha um comportamento agressivo”, explica. O acusado responderá por tentativa de homicídio contra o dono da casa que ele tentou invadir antes de entrar na escola e por lesões corporais.

 

 

 
"Todos que apareciam, ele lançava a cadeira" Estefane Pereira Santos (com a mãe, Maria Rosilene), aluna do 5º ano


 
"Torci a perna quando tentava fugir dele" Naama Almeida (com o pai, Abílio), 9 anos


 
"Eu só queria que nós tivéssemos uma chance de fugir" Jussara Lustosa Arantes Barcelos, , professora

 

Perfil
Criminoso
contumaz

Natural de Rondônia, Marivaldo tem passagens pela polícia desde 2004. Cumpre pena em regime domiciliar por roubo qualificado cometido há 11 anos. Em 2005, foi preso por tráfico de drogas e havia sido condenado ao mesmo regime de prisão pela condenação. Três anos depois, Marivaldo praticou um furto. Por último, há dois anos, foi autuado por outro roubo qualificado. Ele mora na Chácara Santa Luzia, na Estrutural. Por causa do crime na escola, Marivaldo pode voltar para o regime fechado.

Memória
Tragédia completa 4 anos

Há exatos quatro anos, Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, matou a tiros 12 alunos de uma escola em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro. O ex-aluno da instituição teria sido vítima de bullying. Armado com dois revólveres, ele entrou no prédio, em 7 de abril de 2011, com o argumento de que daria uma palestra. Do total de mortos, dois eram meninos. Uma carta encontrada com ele, que se suicidou após a chegada da polícia, indicava que o crime havia sido premeditado. Após a barbárie, o 7 de abril se tornou o Dia Nacional de Combate ao Bullying.