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Escola protege kalungas

Desde que o colégio da comunidade de Engenho ganhou o ensino médio, meninas deixaram de viver como escravas sexuais a 27km dali, em Cavalcante. Antes disso, elas trabalhavam em casas de famílias da cidade e sofriam abusos e humilhações

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postado em 13/04/2015 11:49 / atualizado em 13/04/2015 12:07

Renato Alves

Marcelo Ferreira
Cavalcante (GO) — “Fiz uma promessa: as minhas filhas nunca vão sair da comunidade para estudar ou trabalhar”, conta Lourença dos Santos Rocha, 45 anos. Nascida em uma comunidade de descendentes de escravos, então isolada dos grandes centros, ela, como todas as crianças do povoado em sua época, teve de sair de casa aos 11 anos para estudar. Os pais a entregaram a uma família de Cavalcante, município mais próximo, no nordeste de Goiás, a 310km de Brasília.


Em troca de abrigo, comida e acesso à escola, no entanto, a menina era submetida a uma jornada de trabalho doméstico que chegava a 12 horas diárias. Ainda era sujeita a todos os tipos de humilhação, os quais prefere não detalhar. Adulta e de volta ao lugarejo, ela fez o pacto consigo mesma de nunca deixar as três filhas passarem pelo que ela passou na cidade.


Como mostrou o Correio ontem, ainda hoje, meninas de até 10 anos, bisnetas e tataranetas de escravos, sofrem abusos, inclusive estupros, em casas de famílias para as quais são levadas, em Cavalcante. Devido à falta do ensino médio nas comunidades quilombolas onde nasceram, na região da Chapada dos Veadeiros, os pais delas enxergam o município goiano de 10 mil habitantes como única esperança de um futuro promissor. Mas os crimes, que vinham sendo tratados como mera questão cultural e acobertados pela omissão e pelo medo, agora são investigados pela Polícia Civil de Goiás.


Desde dezembro, agentes e escrivães concluíram oito inquéritos de estupro de vulnerável, em que a vítima tem menos de 13 anos. Todas as crianças violentadas são negras. Entre os acusados estão o vice-presidente da Câmara Municipal, marido da vice-prefeita, um dentista e o dono de um mercado, ex-vereador. Outro ex-vereador, condenado e preso, espera o julgamento de recurso, enquanto exerce a função de assessor na Câmara.
Os ataques sexuais são os casos mais comuns em Cavalcante, segundo o Ministério Público de Goiás (MPGO) e a Polícia Civil goiana. A Corregedoria do MPGO apura denúncia contra o trabalho da única promotora do município, no cargo há 18 anos e casada com um primo do vice-presidente da Câmara.
 
Realidades

 A maior prova de como a falta de acesso à educação nas comunidades quilombolas da Chapada dos Veadeiros expõe crianças e adolescentes descendentes de escravos a todo tipo de violência nas cidades vem da comunidade de Engenho, a 27km de Cavalcante, onde nasceu e mora Lourença Rocha. Nenhuma das filhas dela precisou deixar o povoado porque, além da promessa da mãe, a escola municipal do Engenho ganhou o ensino médio há sete anos.


Dessa forma, Lourença trabalha tranquilamente como guia turística — a comunidade abriga duas das mais belas cachoeiras da Chapada —, com as filhas por perto, além dos outros quatro filhos. Apesar de o Engenho não ter faculdade, uma delas estuda pedagogia por meio do serviço de curso a distância da Universidade de Brasília (UnB).


Irmã de Lourença, Dorotéia dos Santos Rocha, 44 anos, foi entregue pelos pais a uma família de Cavalcante ainda mais nova, aos 10. Também sem citar detalhes, diz ter “sofrido bastante humilhação” nas residências onde tinha que trabalhar como doméstica para ter o que comer e uma cama para descansar. “Nunca recebi salário. As únicas roupas, pouquinhas, eram levadas, por nosso pai, que viajava horas a cavalo até chegar à cidade. Não sabia de nada do que a gente passava na casa do povo que, acreditava, estar cuidando bem das filhas dele”, lembra. De volta ao Engenho, apenas com o ensino básico, ela aproveitou um programa do governo estadual e concluiu o magistério. Há 13 anos, leciona no primeiro ano da escola municipal do povoado.


Também confiada pelos pais a uma família de desconhecidos moradores da cidade, Divina Francisca Vieira, hoje com 35 anos e trabalhando como atendente do Centro de Antendimento ao Turista (CAT) do Engenho, deixou a comunidade aos 11 anos. “Passei por todo tipo de situação de humilhação e vergonha que você pode imaginar. E sempre fiquei calada, por medo”, ressalta. Para se livrar dos patrões brancos, ela se casou aos 16 anos e retornou ao seu povoado, decidida a impedir que as irmãs mais novas passassem pelas mesmas situações vexaminosas. “Quando uma mulher da cidade veio buscar as minhas irmãs para trabalhar na casa dela, falei aos meus pais que não deixaria. Eles responderam não ter opção, pois não tinham como alimentá-las. Então, disse que elas morariam comigo e com o meu marido, na minha casa, e que daria comida a elas. E assim foi.” As irmãs, segundo Divina, “são gratas até hoje”.

Cenários distintos
A prosperidade do Engenho é a exceção. Com cerca de 700 moradores, é a comunidade do Sítio Histórico e Patrimonial Kalunga da Chapada dos Veadeiros (leia Para saber mais) mais próxima de um núcleo urbano e a única com energia elétrica, ensino fundamental, posto de saúde e toda a infraestrutura para o turismo, que incluiu um CAT e uma loja com produtos artesanais feitos por quilombolas.


Os demais povoados da região, onde residem mais 3,3 mil descendentes de escravos, não contam com nada disso. Na maioria, distante até 100km de uma cidade, isolada por serras e rios, só se chega a cavalo ou em lombo de burro. Crianças caminham até quatro horas, em trilhas arriscadas, para chegar a escolas onde há apenas o ensino básico.


Diante desse cenário, morando em terras improdutivas e sem oferta de emprego, os pais dessas crianças costumam entregá-las a moradores das cidades mais perto com o intuito de vê-las alimentadas e com o ensino médio concluídos. E, com mais sorte, empregadas, ainda na adolescência, para não terem de retornar ao lugar de origem. São justamente as crianças dessas localidades as principais vítimas de estupro em Cavalcante. E a maioria das vítimas, admitem os policiais e os conselheiros tutelares do município, nem sequer denunciam os crimes. Nem para os pais ou qualquer outro parente. Por desinformação ou medo.

 

Para saber mais

Isolados por 200 anos

Calunga ou kalunga é o nome atribuído a descendentes de escravos fugidos e libertos das minas de ouro do Brasil Central que formaram comunidades autossuficientes e viveram mais de 200 anos isolados em regiões remotas, próximas à Chapada dos Veadeiros. São três comunidades, nos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás.
A mais populosa fica em Cavalcante, com pouco mais de 2 mil pessoas, distribuídas nas localidades de Engenho, Prata, Vão do Moleque e Vão das Almas, sendo a última a mais recente a se integrar no seio do município (há cerca de 30 anos). Alguns estudos têm indicado a presença de calungas também em regiões do Tocantins, nos arredores de Natividade e em regiões isoladas do Jalapão.


Durante todo esse período, houve miscigenações com índios, posseiros e fazendeiros brancos, além de forte influência de padres católicos, dando lugar a uma cultura hibridizada, característica que se manifesta na alimentação e no forte sincretismo religioso da mistura do catolicismo e de ritos africanos.

 

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