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VIOLÊNCIA »

Depois da tragédia, a ação

Governo adotará três medidas até o fim do ano para que a segurança volte às escolas do DF. Uma delas havia sido recomendada pelo Ministério Público. Em Taguatinga, violência ocorrida no mês passado ainda assusta alunos e funcionários

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postado em 13/04/2015 12:16 / atualizado em 13/04/2015 12:20

Camila Costa , Isa Stacciarini

Você pode passar 24 horas aqui e nunca ver a polícia. Fico com medo, principalmente depois do caso da Estrutural. Aqui entra gente que nem é estudante ou funcionário” Ronaldo Rocha Siqueira, pai de aluno do CEF Carlos Mota, no  Lago Oeste (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

Você pode passar 24 horas aqui e nunca ver a polícia. Fico com medo, principalmente depois do caso da Estrutural. Aqui entra gente que nem é estudante ou funcionário” Ronaldo Rocha Siqueira, pai de aluno do CEF Carlos Mota, no Lago Oeste


Até o fim do ano, pelo menos três medidas serão implantadas pelo Executivo para evitar novos episódios de violência dentro das escolas do DF. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), inclusive, já havia recomendado uma das ações: a mediação. As outras duas tratam  da contratação de mais profissionais para a área e da reestruturação curricular de estudantes da rede pública do DF.


Com o episódio da Cidade Estrutural — em que um homem entrou no Centro de Ensino Fundamental 1 e feriu 11 pessoas —, o secretário da Segurança Pública e da Paz Social, Arthur Trindade, determinou a elaboração de um estudo sobre violência nas escolas. O trabalho servirá para orientar as ações do Batalhão Escolar. Um mapa com as áreas mais problemáticas do DF será traçado. A promessa do secretário é reforçar o policiamento nessas localidades. “O mesmo trabalho terá como destino a Secretaria de Educação, com o objetivo de subsidiar estratégias de resolução de conflitos ou até mesmo promover mudanças na distribuição dos vigilantes”, explicou o chefe da segurança pública.


Segundo a promotora de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc), Márcia da Rocha, a mediação será um mecanismo para criar segurança entre as pessoas. No formato de grupo de encontro, alunos, professores, servidores e pais seriam, com a institucionalização da medida, capacitados a ouvir o outro de forma a entender as atitudes de todos. Uma espécie de mesa redonda para aprender a respeitar as opiniões diversas. “É uma medida primária para evitar que as pessoas transformem um simples desentendimento em conflito, na reprodução da violência. E que, juntos, possam começar a trabalhar o entendimento do que o outro está dizendo”, explicou a promotora.

 

Temos uma atenção com a segurança para que os alunos não sintam receio em estar aqui. O que nos preocupa é a `drogadição´ que gera violência. Depois do ocorrido, muitos falaram em deixar de estudar no colégio, pelo impacto do susto” Rodrigo de Franco Filgueira, diretor do CED 6 de Taguatinga (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

Temos uma atenção com a segurança para que os alunos não sintam receio em estar aqui. O que nos preocupa é a `drogadição´ que gera violência. Depois do ocorrido, muitos falaram em deixar de estudar no colégio, pelo impacto do susto” Rodrigo de Franco Filgueira, diretor do CED 6 de Taguatinga


Ato egoísta
Atualmente, algumas escolas do DF já trabalham com o método, mas o número é baixo. Das 627 escolas públicas do DF, menos de 10 usam a mediação. “A violência é um ato egoísta. Quem pratica não está pensando no outro. A pessoa pode até se vitimizar, dizer que foi para se defender, mas é incapaz de estabelecer um diálogo. E a mediação é uma das formas de mudar isso. Não é a única, mas já surte grandes resultados", ponderou Márcia.


A Secretaria de Educação também estuda a contratação de profissionais para o posto de inspetor: um profissional que fará o monitoramento dos intervalos, do horário de entrada e saída da escola e das salas de aula e vigiará o comportamento dos estudantes. A licitação, segundo o secretário Júlio Gregório, está encaminhada. “Ainda não temos definição da quantidade de profissionais, mas será algo que atenda às escolas maiores do DF, onde existem os conflitos de violência”, adiantou. A longo prazo, o plano do governo é alterar a estrutura curricular e criar atividades estimulantes, que mantenham os alunos mais conectados com o estudo e menos dispersos. “Eles precisam estar ocupados com coisas mais interessantes para não terem tempo de outras coisas”, justificou o secretário.

Carlos Mota
Há seis anos, o diretor Carlos Mota dá nome ao Centro de Ensino Fundamental do Lago Oeste. A homenagem, infelizmente, veio após ele ser assassinado por alunos e ex-estudantes, em casa. O motivo: ele atuava fortemente no combate às drogas na instituição de ensino. Em 20 de junho de 2008, quatro rapazes foram flagrados tentando entrar no colégio com entorpecentes, mas o educador os impediu. Criminosos foram até a chácara onde o professor morava com a mulher e dois dos três filhos, e atiraram contra Carlos. A viúva, Rita Pereira, 45 anos, socorreu o marido até o hospital, mas era tarde. O professor trabalhava em projetos para implementar o ensino de tempo integral na escola, criar uma biblioteca virtual, levar o cinema à instituição e estimular atividades culturais.


Mesmo pais de alunos recém-chegados conhecem a história do professor. O jardineiro Ronaldo Rocha Siqueira, 30 anos, busca o filho Erick Feitosa Siqueira, 7, todos os dias no colégio. A escola fica a cerca de 100m de um posto da Polícia Militar — que não funciona. Ronaldo tem medo da insegurança. “Você pode passar 24 horas aqui e nunca ver a polícia. Fico com medo, principalmente depois do caso da Estrutural. Aqui entra gente que nem é estudante ou funcionário. À noite, a venda de droga na porta da instituição ocorre sem ninguém fazer nada. Entrego meu filho na sala de aula e o busco com a professora”, destacou.

 

Vulnerabilidade no CED 6


 

Quase um mês depois da morte de Diego Henrique Vicente Silva, 20 anos, assassinado com três tiros no Centro Educacional 6 de Taguatinga (CED 6), as recordações violentas imperam. Na última quinta-feira, a reportagem visitou o colégio. Em um painel logo na entrada da instituição, uma pomba da paz recebe alunos, professores e funcionários. Com ela, a frase: “Tem tanta coisa errada que não cabe no cartaz”. O desabafo é dos alunos e expõe a realidade do colégio.


O CED 6 atende, entre outros, a adolescentes e jovens que cumprem medidas socioeducativas em unidades de internação. Desde a morte de Diego, policiais do Batalhão Escolar estão no local, mas a presença não inibe os mal-intencionados. No dia em que o Correio esteve no colégio, um aluno foi flagrado com droga. Em 2013, professores encontraram um revólver dentro de um vaso sanitário masculino.


Aluna do 3ª ano, Rosângela Carolina dos Santos, 20, reclamou da insegurança. “Aqui nunca teve policiamento. Estão aqui esses dias por causa do que aconteceu. Vejo constantemente gente entrando na escola com o que não pode. Eu fico com medo, porque é um risco que a gente corre”, lamentou. A amiga Keylla Alves, 19, também aluna do 3ª ano, tem a mesma sensação. “O colégio era para ser um lugar seguro, mas viemos para cá apreensivos. Tenho receio, inclusive, de ser confundida com alguém e sofrer algum tipo de violência.” O diretor do CED 6, Rodrigo de Franco Filgueira, reconhece que o colégio ainda está em fase de recuperação. “Temos uma atenção com a segurança para que os alunos não sintam receio em estar aqui. O que nos preocupa é a `drogadição´ que gera violência. Depois do ocorrido, muitos falaram em deixar de estudar no colégio, pelo impacto do susto”, revelou.

 

Depoimento


“Reflexo da sociedade”
“A violência na escola é reflexo de uma sociedade violenta. Faltam estrutura nos colégios e valorização do professor. E sobra uma série de situações que faz com que a onda de insegurança no ambiente de ensino seja evidenciada. Faltam policiamento do Batalhão Escolar e vigilância nas escolas. Transformar uma pátria em educadora é difícil”
Rita Pereira, viúva do diretor Carlos Mota

 

 

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