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Correio Braziliense

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A melhor forma para aprender

Pesquisa espanhola indica que grandes quantidades de dever de casa não garantem bom rendimento escolar. O aspecto mais importante é que as tarefas extras sejam sistemáticas e, sobretudo, que os alunos conquistem autonomia para estudar por conta própria

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postado em 05/05/2015 11:28 / atualizado em 05/05/2015 11:38

Paula Rafiza
O ingresso em uma boa universidade é um desafio cada vez mais difícil para os jovens. Assim, é comum que adolescentes adotem rotinas de estudo que incluem horas de dedicação diárias. A exigência fica cada vez maior à medida que os alunos avançam nos ensinos fundamental e médio, chegando ao ápice na época de preparação para o vestibular e o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). No entanto, dúvidas sobre qual é a melhor estratégia para fixar o conhecimento são comuns entre professores, alunos e pais. Muito dever de casa significa melhor ou pior desempenho?

Especialistas da Universidade de Oviedo, na Espanha, buscaram responder essa pergunta com uma pesquisa que acompanhou cerca de 7.700 estudantes de escolas públicas e particulares do país europeu. O trabalho, recentemente publicado no Journal of Educational Psychology, concluiu que, mais importante que a quantidade, é a regularidade do dever de casa que importa. Além disso, os alunos que são estimulados a estudarem sozinhos, ganhando desde cedo autonomia acadêmica, costumam atingir resultados ainda melhores.

Coautor do trabalho, Javier Suarez-Alvarez explica que foi analisado o desempenho dos jovens no aprendizado de ciências e matemática. Segundo a análise, aqueles cujos professores passavam tarefas de casa sistematicamente tinham o desempenhado aumentado significativamente, não sendo necessárias muitas horas de dedicação por dia. Na verdade, uma hora em frente aos livros era suficiente para notas acima da média. Mas foi mesmo a habilidade de estudar sozinho, sem depender de ajuda de outra pessoa, que se mostrou realmente eficaz. “Permitir que o aluno realize um trabalho autônomo, aspecto-chave da aprendizagem autorregulada, está claramente conectado ao rendimento acadêmico”, assegura Suarez-Alvarez.

Estudo independente é o caso de Júlia Cabral, 11 anos, aluna do 6º ano do ensino fundamental. A mãe, Fabiana Cabral, 40, afirma que a filha é bastante autônoma e não precisa ser cobrada constantemente para que estude. “Ser mais autônomo é melhor. A dependência é ruim tanto para os pais quanto para a criança, porque vai chegar uma hora em que ela vai ter de andar sozinha”, avalia. A adolescente conta que costuma se dedicar de uma a duas horas por dia, e que, nas semanas de provas, acaba ocupando uma tarde inteira.

Fabiana diz que só estimulou essa independência com a caçula. A irmã mais velha, Ana Clara Cabral, 21, recebia um acompanhamento mais de perto. A jovem se lembra de que sentia dificuldades em matemática durante o ensino médio. Hoje, quando compara sua rotina de estudos com a da irmã mais nova, percebe uma cobrança maior atualmente. “Eles são mais cobrados agora do que eu era. Até por causa do mundo atual. É muita competitividade, então eles têm que se adaptar”, analisa.

Sacrifícios
Tanta competitividade tem tornado uma carga reduzida de dever de casa um sonho cada vez mais distante. Nas séries do ensino fundamental, o comedimento ainda é possível, mas, na hora de ingressar no ensino superior, os jovens se veem obrigados a sacrificar momentos de lazer. É comum, por exemplo, que adolescentes tenham de trocar uma tarde de sábado livre por provas e simulados. Segundo a psicóloga Teresa Campos, a principal reclamação dos adolescentes com relação ao dever de casa é a falta de tempo para sair com os amigos e família, enfim, ter uma vida social. “Na minha opinião, é um problema grande, porque a adolescência é exatamente o momento de compreensão das sutilezas da vida social”, considera.

Quem abdicou de muitos momentos de relaxamento para conseguir uma vaga no curso desejado foi Guilherme Félix, 19 anos, aluno de engenharia de redes de comunicação na Universidade de Brasília (UnB). “Eu, que no colégio fazia teatro e música, precisei cortar essa parte para me dedicar ao vestibular”, lembra. Além das atividades extras, o rapaz também reduziu o tempo que passava com amigos à noite.

Segundo ele, no último ano do ensino médio, passava as manhãs no cursinho pré-vestibular, as tardes na escola e as noites em casa. A solução para manter contato com os amigos foi montar grupos de estudos onde todos se encontravam para tirar dúvidas. Mas Guilherme afirma que não se arrepende. “Valeu a pena. Se precisasse, faria de novo.” O irmão de Guilherme, Felipe, 14, segue o mesmo caminho. Em uma ocasião, sua mãe perguntou se ele podia ficar em casa para ajudar com um problema que surgira. Mas o menino, que está no nono ano do ensino fundamental, argumentou que não seria bom perder as aulas de física e química que teria naquele dia.

Segundo Teresa Campos, o modelo escolar brasileiro obriga que os estudantes sacrifiquem a vida social pela vaga em uma universidade e que, para tanto, são necessárias várias horas de estudo. “Menos tempo significaria, talvez, não passar numa prova dessas.” Os pais criticam o modo como é feita a cobrança dos alunos. Para o pai de Guilherme, Henrique Ribeiro, 42 anos, as escolas cobram um conhecimento inteiramente voltado para o vestibular. “Não conheço uma escola voltada para a educação cidadã. Hoje, a loucura é o vestibular.”

Teresa concorda: “Não se espera a aprendizagem, mas o desempenho em provas”. Para a psicóloga, uma forma de o adolescente manter uma vida social equilibrada com a rotina de estudos é aconselhar os pais a procurarem escolas que permitam esse equilíbrio, sem exigir do aluno dedicação exclusiva aos estudos.

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