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O futuro da ciência brasileira

Jovens fazem bonito na maior feira pré-universitária do mundo nos EUA. País acumulou oito prêmios, duas menções honrosas e 10 diplomas de reconhecimento

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postado em 17/05/2015 13:16 / atualizado em 18/05/2015 11:11

Juliana Espanhol

Luis Eduardo Selbach

A última sexta-feira foi de festa para estudantes que participaram da Intel Isef (International Science and Engineering Fair) — a maior feira pré-universitária do mundo — em Pittsburgh, nos Estados Unidos. O Brasil encerrou a participação no evento com quatro grandes prêmios, quatro prêmios especiais, duas menções honrosas e 10 diplomas de reconhecimento. A soma das premiações em dinheiro concedidas a brasileiros chegou a US$ 16,7 mil. A feira reuniu cerca de 1,7 mil estudantes de todo o mundo entre o último domingo (10) e sexta-feira (15).

As cearenses Maria Vanessa Teodósio e Fátima Natanna de Miranda, ambas de 17 anos, ganharam um prêmio especial de US$ 10 mil oferecido pela United States Agency for International Development (USaid). Elas também ficaram em 4º lugar no grande prêmio na categoria de ciências ambientais. As jovens estudantes desenvolveram e aplicaram um sistema de baixo custo para captação e dessalinização de água na cidade de Bela Cruz, 231km distante de Fortaleza. “Não imaginávamos ganhar um prêmio como esse, mas queremos fazer bom uso desse dinheiro e investir no nosso projeto”, disse Maria Vanessa. Alunas da Escola Estadual de Educação Profissional Júlio França, as jovens instalaram 25 cisternas e 10 dessalinizadores na região semiárida. “Nosso projeto mudou a vida das pessoas porque resolveu um problema. Esse prêmio vem para reforçar o que estávamos fazendo. Queremos continuar na ciência para ajudar mais gente”, comemora Fátima.

Outro jovem cientista cearense teve motivos para comemorar no encerramento do evento. Helyson Lucas Braz, 19 anos, ficou em terceiro lugar no grande prêmio, na categoria de ciências médicas e biomédicas, pelo desenvolvimento de um antigripal natural composto por acerola, caju, romã e goiaba. Ele faz curso técnico em meio ambiente integrado ao ensino médio no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, no câmpus Limoeiro do Norte.

Natural de Iracema, a 282km da capital do estado, a motivação dele para o projeto foi perceber a precariedade dos cuidados em saúde em sua cidade natal. “Quis desenvolver um tratamento alternativo para a gripe, pois muitas pessoas adoecem e acabam morrendo por causa da doença lá”, explicou. “O reconhecimento me faz ter vontade de seguir em frente para patentear e comercializar esse produto”, planeja o estudante, que pretende cursar faculdade nas áreas de farmácia ou biotecnologia. Os estudantes Santiago Novoa, 17, e Diana Sieh, 16, da Escola Americana de Campinas (SP), também foram premiados em terceiro lugar, na categoria de ciências ambientais, por um estudo de reaproveitamento de água utilizada em processos industriais.

 

Luis Eduardo Selbach
 

A dupla gaúcha formada por Gabriela Bronca Lopes, 18 anos, e Vitória Müller Gerst, 17, recebeu da China Association for Science and Technology (Cast) US$ 1,2 mil por um detergente que previne a degradação e a rejeição de órgãos em operações de transplante. As jovens, que fazem curso técnico de química integrado ao ensino médio na Escola Técnica Liberato Salzano da Cunha, em Novo Hamburgo (RS), também ficaram em quarto lugar no grande prêmio em química. “Esse reconhecimento mostra que nosso trabalho não foi em vão e acho que, agora, teremos mais confiança em nós mesmas e no potencial que o Brasil tem para produzir ciência”, observa Gabriela. “Nosso próximo passo é usar o dinheiro para testar o produto e investir em outros projetos”, afirma Vitória.

A estudante Bibiana Davila, 18 anos, ganhou US$ 5 mil por um software que facilita a produção de textos por alunos de ensino fundamental. O prêmio especial foi concedido à aluna de Novo Hamburgo pela Oracle Academy. Pedro Otávio Rocha, 17, Eduardo Campos, 19, e Junior Lucas Moraes, 17, ganharam US$ 500 da American Meteorological Society por um protótipo de miniestação meteorológica para agricultores. Eles são estudantes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.

Reconhecimento

A Organização dos Estados Americanos (OEA) distribuiu diplomas de reconhecimento a 50 projetos das Américas, classificados como de grande potencial para promover desenvolvimento na região. O Brasil conquistou 10 certificados na premiação, sendo dois de destaque. A organização internacional analisou 1,1 mil projetos para chegar a 50 finalistas e, finalmente, seis destaques. Os dois projetos brasileiros destacados foram elaborados pelas baianas Beatriz Pereira, 17 anos, e Thayná Almeida, 16, e pelo sul-mato-grossense Luiz Fernando Borges, 16. Ele desenvolveu um termociclador — aparelho de “xerox” de DNA — de baixo custo. A máquina serve para auxiliar procedimentos clínicos como exame de paternidade, teste de HIV e perícias forenses.  O jovem faz curso técnico de informática integrado ao ensino médio no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul, no câmpus Aquidauana. Na quarta-feira (13), dia em que os competidores apresentaram os projetos para juízes e professores, ele teve a oportunidade de conversar com o ganhador do prêmio Nobel de química em 1996, Harold Kroto. “Convidei-o para conhecer mais meu projeto e ele disse que achou muito interessante, pois a máquina poderia resolver problemas relevantes em todo o mundo”, conta.

 

 

Luis Eduardo Selbach

As alunas baianas Beatriz e Thayná fizeram um trabalho de reforço da identidade negra na cidade de Antônio Cardoso, por meio de pesquisa na escola onde estudam, o Colégio Estadual Antônio Carlos Magalhães e visitas a comunidades quilombolas locais. Elas são estudantes de 3º ano de ensino médio. “Começamos o trabalho a partir de um dado do Censo de 2010, que mostrava nosso município como o local no Brasil com maior número declarado de negros no Brasil. No entanto, na nossa escola, muitos alunos não se identificavam como tal”, conta Thayná. Com as entrevistas — Beatriz relembra a visita a um senhor quilombola de 104 anos, ex-escravo —, elas desenvolveram mais autoconhecimento na comunidade. “Ainda não terminamos o levantamento, mas constatamos que mais alunos se identificam como negros agora”, conta Beatriz. As jovens, que visitam os Estados Unidos pela primeira vez por causa da feira, contam que mais estudantes estão animados para fazer ciência ao ver a oportunidade que elas estão vivenciando.

Outros dois brasileiros receberam menções honrosas no evento. Alessandro Hippler Roque, 18, desenvolveu produtos alimentares especiais para pessoas com doença celíaca. Ele estuda no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, no câmpus Osório. Lucas Cendes, da Escola Americana de Campinas, recebeu o reconhecimento por um projeto de detecção de variações em genomas.

Grandes vencedores
No total, instituições parceiras da Intel Isef distribuíram mais de US$ 4 milhões em dinheiro, viagens e bolsas de estudo aos participantes. O vencedor da premiação mais alta, de US$ 75 mil, foi o canadense Raymond Wang, 17 anos. O estudante desenvolveu um sistema que melhora a qualidade do ar que circula em aviões, reduzindo a chance de transmissão de doenças por via aérea e, por isso, foi premiado com o troféu Gordon E.Moore — cientista e cofundador da Intel. A estudante canadense Nicole Ticea, 16, ganhou US$ 50 mil por construir um aparelho de detecção de HIV de baixo custo. O sistema de testagem mostra o resultado em uma hora e custa menos de US$ 5 para ser produzido. O norte-americano KaranJerath, 18, recebeu o mesmo valor por uma máquina que permite melhor manejo de vazamentos de óleo no mar. Ambos receberam o prêmio da Fundação Intel para Jovens Cientistas. A Intel Isef é organizada desde 1950 pela organização sem fins lucrativos Society for Science & the Public.

* A jornalista viajou a convite da Intel


Participe da próxima
O estudante precisa participar de uma das feiras afiliadas à Intel Isef para estar qualificado à exposição nela. A Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) é a responsável pela seleção dos projetos que fazem parte da Delegação Brasileira participante. A próxima edição da Febrace será em março de 2016 e está com inscrições abertas até 30 de outubro pelo site febrace.org.br. Já a Mostra Brasileira de Ciência e Tecnologia (Mostratec) será realizada de 26 a 30 de outubro em Novo Hamburgo (RS). O período de inscrição de projetos vai até 4 de agosto, pelo site www.mostratec.com.br.