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Um riacho no meio do caminho

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postado em 19/05/2015 12:43 / atualizado em 19/05/2015 12:48

Roberta Pinheiro , Breno Fortes

Kombi deixa os estudantes próximo à passarela instalada onde antes havia uma ponte: ônibus, só do outro lado  (Breno Fortes/CB/D.A Press)
 

 

Kombi deixa os estudantes próximo à passarela instalada onde antes havia uma ponte: ônibus, só do outro lado


No Núcleo Rural do Paranoá, os obstáculos para o estudo são maiores do que eventuais problemas de estrutura das escolas, greves de professores ou falta de material didático. Os estudantes sofrem para chegar ao colégio. Quando conseguem, levam o dobro do tempo habitual. O motivo: a ponte que dá acesso à DF-270 e faz a ligação até quatro unidades — Escola Classe Sussuarana, Escola Classe Itapeti, Centro de Ensino Fundamental Buriti Vermelho e CEF PADF — foi desativada em março e, até agora, não teve reparos. Pior: não há prazo, segundo o Departamento de Estradas de Rodagem, para que uma nova passagem seja construída. Barro, lama, poeira e sufoco fazem parte da rotina diária de cerca de 50 alunos.

As crianças e os adolescentes prejudicados moram em vilas e fazendas da região. Até dois meses atrás, o transporte oferecido pela Secretaria de Educação os buscava em casa. Mas, desde que uma parte da ponte sobre o Ribeirão Cariru cedeu, os pais e os responsáveis precisam encontrar maneiras para levar os filhos à escola. O Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER-DF) instalou, de maneira provisória, uma passarela de metal para facilitar o trajeto. Até o improviso ficar pronto, no entanto, os estudantes ficaram ilhados e sem estudar.

Os alunos precisam atravessar a passagem todos os dias para ir à escola (Breno Fortes/CB/D.A Press)
 

 

Os alunos precisam atravessar a passagem todos os dias para ir à escola


20km a mais
“A gente tem duas opções: traz os meninos de carro e atravessa com eles a passarela para esperar o ônibus do outro lado, ou leva direto para a escola pelo Barro Alto, mas esse trajeto tem uns 20 quilômetros a mais”, explicou Salete Marques, 32 anos. Ela é mãe de Jhonatas Basso, 7, e Rogério Basso Júnior, 12. Todos os dias, às 11h, ela leva os filhos de carro até a passarela e fica com eles, aguardando por cerca de 40 minutos, até o transporte chegar. “Atravesso com eles porque tenho muito medo. No primeiro dia em que viemos, várias crianças ficavam se debruçando nas proteções para ver o rio. É muito perigoso”, comentou Salete.

Perigo
Além disso, Jhonatas e Rogério frequentam escolas diferentes, com horários distintos. O mais novo é o primeiro a embarcar. Então, Salete e o filho mais velho continuam esperando. Na volta, a rotina se repete. A mãe tem que ir duas vezes buscar os filhos. “Às vezes, eu fico no carro com as portas trancadas, porque aqui é muito deserto. Na semana passada mesmo, teve um assalto. Prefiro dar a volta e percorrer os quilômetros a mais do que ficar aqui, mesmo gastando um tanque de gasolina por semana”, conta.

Mas nem todas as famílias têm um carro à disposição. Roberto Henrique Santos, 37 anos, leva os dois filhos de moto até a passagem ou pede ajuda aos vizinhos. “A gente não tem recursos para trazer as crianças de carro. É muito difícil. Ainda temos que parar o serviço para vir aqui com eles”, relata Roberto. A filha mais velha, Érica Silva, 15 anos, também já percorreu sozinha o trajeto de, aproximadamente, quatro quilômetros até a passarela. Mas tem medo. Não apenas pelo perigo, mas também pela chuva. Nos dias de tempo fechado, Rogério e Érica contam que o ônibus não chega a descer até a ponte, por conta da lama.
 
Excesso de faltas


A ponte sobre o Ribeirão Cariru, próximo à DF-270 e distante cerca de 100 quilômetros do centro de Brasília, é de jurisprudência do Departamento de Estradas de Rodagem (DER). Procurado, o órgão se limitou a responder, por meio da Assessoria de Comunicação, que busca, na Companhia do Metropolitano do Distrito Federal, o remanejamento do material — chapas metálicas maciças de trilho — para construir uma nova passagem. Caso não consiga, o DER buscará encaixar a ação no orçamento deste ano.

As dificuldades enfrentadas pelos alunos da área rural do Paranoá não estão apenas no caminho para chegar à escola. Como ficaram mais de 10 dias sem estudar, as crianças e os adolescentes levaram faltas e estão com o conteúdo atrasado. “Na escola, eles cobram que ela tem muita falta, mas também não têm compreensão”, reclama Roberto Henrique Santos. A filha dele, Érica Silva, está com notas baixas pela primeira vez. “Falaram que teria reforço, mas, até agora, nada. Nunca tive preocupação com notas, esta é a primeira vez”, disse a adolescente. Os pequenos, como Jhonatas Basso e o filho mais novo de Roberto, Erick Silva, tiveram que fazer atividades extras em casa, durante um mês, para compensar as ausências.

Reposição
Por meio de nota, a Assessoria de Comunicação da Secretaria de Educação (SEDF) informou que os dias letivos não cumpridos serão repostos e os conteúdos, contemplados. Também afirmou que, a partir de hoje, serão disponibilizados dois ônibus. “Um veículo conduzirá os alunos até o local da ponte e, chegando ao limite possível, eles caminharão, acompanhados da monitora. O outro ônibus aguardará do outro lado para finalizar o trajeto”, explicou a pasta.
 

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