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VIOLÊNCIA »

Uma ocorrência por dia nas escolas do DF

Foram 156 casos, como porte de droga e de arma, registrados em pouco mais de quatro meses e meio de 2014, segundo a PM. Colégio de Ceilândia que começou a semana fechado por causa do tráfico voltou a funcionar com policiamento dobrado

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postado em 20/05/2015 10:19 / atualizado em 20/05/2015 10:29

Roberta Pinheiro

Ana Rayssa
“A minha filha chegou em casa desesperada, dizendo que um cara atirou para cima na porta da escola. Agora, ela não pode ouvir falar sobre isso. Não queria nem vir hoje”, conta a mãe de uma adolescente de 10 anos, aluna do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 4, em Ceilândia. Um dia depois de fechar os portões por medo do controle do tráfico, a instituição reabriu ontem. Na entrada, dois homens do Batalhão Escolar da PM faziam o policiamento durante o período de aulas. O medo da menina surgiu depois que um grupo de traficantes passou a vender drogas dentro do colégio e intimidar funcionários. Na semana passada, um jovem entrou a cavalo no local para ameaçar de morte, pela segunda vez, um servidor.

As passagens integram o registro de ocorrências do Batalhão Escolar no perímetro das escolas do DF e ao redor das instituições. Só este ano, os dados somam 156 casos –– média de 1,1 por dia. Do total, 60 correspondem ao uso, porte e tráfico de entorpecentes e 5 ao porte de arma de fogo (veja O perigo ronda as salas de aula). O governo afirma que há ações a curto, médio e longo prazos para resolver o problema.

As estatísticas colocam no papel o receio sentido por pais, alunos e profissionais da área. No CEF 4 de Ceilândia, uma mãe, que preferiu não se identificar, diz que pensou em tirar a filha de 11 anos da instituição. “Mas tenho medo de não conseguir vaga em outro lugar e ela perder o ano”, comenta. Em casa, a menina relata aos pais o uso de entorpecentes dentro do colégio e também comenta que alguns alunos ficam olhando para os materiais, as roupas e o tênis dos colegas. Para os infratores, não existe distinção de horário. Enquanto a reportagem esteve nas proximidades das instituições, por volta de 13h, um jovem fazia uso de entorpecentes na quadra ao lado.

O problema de segurança se repete em outras instituições de ensino da região. No Centro de Ensino Fundamental 33, alguns pais preferem acompanhar os filhos na chegada e na saída do colégio. “Faço isso pela segurança dela e pela nossa tranquilidade. Não sabemos o que pode acontecer no trajeto até em casa. Já vi policiais fazendo vistoria em jovens aqui perto”, explica o bombeiro civil Marcelo José de Santana, 43 anos. Além da filha de 13 anos que estuda no CEF 33, Marcelo não poupa cuidados com o filho Josué, 7 anos, que estuda no CEF 47. “Mas tenho mais medo aqui (CEF 33) do que lá, porque os alunos são mais velhos”, comenta.

Orientação

O perigo não está apenas fora das salas de aula. “Meus filhos comentam sobre alunos que são levados para a delegacia e de jovens que usam drogas dentro da escola. Esse tipo arrebanha os outros. Orientamos muito em casa, porque se não tem essa aproximação com os pais, quem está lá fora leva os outros para esse caminho”, conta a mãe de três adolescentes. Ela é professora da rede pública e está ciente da realidade das instituições de ensino. A profissional relata que os estudantes infratores são ousados e não temem os professores e funcionários das escolas.

Diante da situação alarmante, professores, coordenadores e diretores se sentem de mãos atadas. “Professor não fez concurso para enfrentar infratores e tirar arma de aluno. Isso deve vir do Estado e dos órgãos competentes para isso”, avalia a diretora da Escola Classe 2 de Ceilândia, Irene Lucena da Silva. Ano passado, ela foi ameaçada por um aluno que portava arma de fogo dentro da instituição. “Esse tipo de acontecimento atinge diretamente a parte psicológica do professor, que fica abalado. Recebo reclamações constantes”, diz.

Na avaliação de Washington Dourado, diretor do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), a violência nas escolas é uma realidade de todas as regiões do DF. “Hoje em dia, as instituições de ensino estão desprotegidas e sofrem um assédio grande das influências externas, como o crime e o tráfico, que agem nos arredores para buscar novos consumidores”, comenta. Além dos pais e dos alunos, os professores são marcados e sofrem todo tipo de ameaça. “Cada vez mais professores têm pedido remoção da escola onde atuam, porque a polícia não está presente”, complementa. Ele afirma ainda que a agressividade foge do alcance do trabalho pedagógico e é importante o envolvimento das forças de segurança, da escola e da família. O diretor do Sinpro ressalta que falta uma política de segurança pública para os arredores da escola, tanto de investigação quanto do registro de ocorrências para mapear as áreas mais afetadas.

 

 

 

Medidas

Segundo a Secretaria de Educação (SEE-DF), as escolas possuem uma parceria com os policiais que trabalham na prevenção, fazendo rondas e visitas educativas aos colégios. Durante a noite, viaturas da PM também garantem a segurança dos estudantes. Mas existe um plano para prevenção, de acordo com o secretário de Segurança Pública do DF, Arthur Trindade.

Algumas medidas foram traçadas para resolver o problema a médio e a longo prazos. “Primeiro, é a aquisição de equipamentos para melhorar a segurança interna de algumas escolas em áreas, como Ceilândia e Planaltina. Segundo, são ações para otimizar o policiamento no perímetro das instituições e a terceira são ações para minimizar os conflitos que acontecem dentro da sala de aula”, explica.

Com relação ao CEF 4, Trindade disse que solicitou à Polícia Civil que intensifique as investigações sobre o tráfico de drogas na área do colégio e determinou reforços para o Batalhão Escolar. O coordenador da Regional de Ensino de Ceilândia, Marco Antônio de Souza, esclareceu que a equipe estuda fazer um remanejamento de porteiros e aguarda o processo de terceirização da vigilância. Por meio de nota, a Secretaria de Educação informou que possui 2.740 porteiros e/ou vigias. Os profissionais estão distribuídos nas 657 escolas da rede pública.

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