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Precisamos falar sobre cyberbullying

Casos de ofensas pela web têm aumentado com o uso frequente de dispositivos eletrônicos pelos estudantes. As marcas do assédio podem acompanhar tanto o agressor quanto a vítima até a vida adulta

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postado em 01/06/2015 10:09 / atualizado em 01/06/2015 10:10

Manoela Alcântara , Thiago Soares


 

 

Na rotina dos estudantes do Distrito Federal existem alguns itens básicos antes de ir à escola: uniforme, sapato, mochila e celular. O último objeto, na verdade, é companheiro inseparável dos adolescentes. Basta olhar para a porta de um colégio no horário de entrada ou de saída para perceber que a maioria dos alunos estará com a cabeça baixa digitando uma mensagem no WhatsApp ou postando fotos em redes sociais. Os instrumentos são de interação, mas agravaram um problema que já preocupava toda a sociedade: o bullying.

Antes restrito a insultos verbais na sala de aula ou na hora do intervalo, a prática ganhou as redes de uma forma severa com o cyberbullying. Fotos, montagens e insultos são disseminados na web em questão de segundos. “Elas me 'batem' nas redes sociais e, depois, fico com medo de ir para a aula. Já fiquei duas semanas sem entrar na sala”, lamenta Amanda*, 16 anos, estudante do 2º ano do ensino médio (leia Depoimento).

As vítimas do cyberbullying muitas vezes são colocadas em situações irreversíveis. São obrigadas a mudar de colégio, se sentem acuadas e, segundo especialistas, podem ter sequelas na vida adulta. Alguns casos chegam à polícia, quando se descobre que os autores, anônimos naquela rede, são, muitas vezes, um colega de sala ou um vizinho, normalmente alguém da mesma idade. Há dois anos, a estudante do 1º ano do ensino médio Letícia*, 15 anos, sofreu as primeiras ofensas em uma rede social. Aos poucos, os comentários ofensivos se tornaram frequentes. “Todo dia alguém ia ao meu Facebook para falar algo da minha aparência. Diziam que meu nariz era muito grande, meus cabelos, feios, e outras coisas”, conta.

Sem saber como reagir aos insultos, Letícia passou a praticar o cutting — uma automutilação comum entre jovens e adolescentes que sofrem pressão psicológica. Ela começou a passar lâminas em partes dos braços. Fazia isso sempre depois de receber algum insulto na web. “Me sentia muito triste. Não queria sair de casa, por vergonha do que as pessoas poderiam falar comigo pessoalmente. Meus pais só souberam o que eu estava vivendo algum tempo depois”, afirma.

Pesquisa feita pela Kaspersky Lab com psicólogos especializados em meios de comunicação da Universidade de Wuerzburg, na Alemanha, chegou à conclusão de que um em cada cinco adolescentes entre 12 e 15 anos sofreu cyberbullying. Em 2013, a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Lis Bastos Silvestre mostrou que 40% dos estudantes entrevistados em aulas de educação física em uma escola pública do DF tinham sofrido o cyberbullying e 95% dos estudantes entrevistados disseram já ter visto situações de violência no contexto midiático.

A tese de doutorado da professora Raquel Gomes Pinto Manzini, do Departamento de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da UnB, também abordou o cyberbullying. “O cyberbullying tem se tornado cada vez mais comum, pois as pessoas se aproveitam do anominato para humilhar o outro”, diz. Segundo a especialista, o objetivo é o mesmo do bullying presencial, mas com disseminação mais rápida. “Dependendo da situação, a ofensa ainda pode ser revertida em agressão física fora da internet”, completa.

As consequências podem chegar à vida adulta. Se não houver intervenção precoce, os adolescentes autores do cyberbullying podem se tornar adultos com o hábito de humilhar os outros e as vítimas têm chances de desenvolver depressão.

 Punição
A Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) analisa somente os casos em que os adolescentes são os autores das ofensas, o que não exclui a possibilidade de punição. Em 2013, um projeto de lei tentava tipificar o crime de bullying virtual. A intenção era alterar o Código Penal e prever detenção de três meses a um ano e multa até para os casos mais simples, mas o PL nº 21 foi arquivado em abril deste ano. Mesmo assim, de acordo com a delegada-chefe da DCA I, Alessandra Lacerda Figueiredo, os autores das mensagens difamatórias podem responder por injúria, ameaça e exposição de imagem de forma inadequada que fira a dignidade da pessoa.

Embora não existam estatísticas sobre esse tipo de ocorrência na DCA, a delegada afirma que não são raros os casos de cyberbullying. Muitas das vítimas são meninas de 13 e 14 anos que tiveram fotos nuas ou seminuas divulgadas na rede. Segundo ela, existe uma investigação direcionada a esse tipo de ocorrência. “Os casos começaram a crescer na mesma medida em que as redes sociais caíram no gosto dos adolescentes. O boom do WhatsApp é quase concomitante com as ocorrências. Na maioria delas, existe um contexto de escola, de alguém que conhece a vítima”, complementa Alessandra. Para ela, a prevenção é uma das maiores aliadas para a sociedade (leia Para saber mais).

*Os nomes são fictícios e foram preservados em respeito ao Estatuto da Criança e do dolescente (ECA)

Depoimento
“Começou dentro da sala de aula, com um grupo de meninas que não deixa eu me entrosar com o restante da turma. Pensei que a implicância seria somente na escola, mas foi parar na internet. Uma pessoa me chamou de animal e, depois, começou uma série de ofensas. Não sei o motivo disso, nunca fiz nada para essas meninas. Avisei a diretoria sobre essa situação. Me pediram provas, mas não fizeram nada. Parece que não levaram em questão meus sentimentos. Eu me sinto mal por isso. Elas me ‘batem’ nas redes sociais, e depois eu fico com medo de ir para aula. Já fiquei duas semanas sem entrar na sala.”
Amanda*, estudante do ensino médio


Para saber mais
Confira algumas dicas para evitar o assédio na internet

» Evite adicionar pessoas fora do círculo de convívio nas redes sociais
» Reduza o número de “amigos” que podem ter acesso à rotina diária e às fotos pessoais
» Não adicione nas redes sociais pessoas que não conhece
» Não compartilhe fotos íntimas via redes sociais ou telefone
» Caso seja vítima, junte provas como prints de telas, gravações, entre outras
» Faça a denúncia na Delegacia de Polícia mais próxima

 

Hierarquia desrespeitada


As agressões que antes eram praticadas entre os colegas de classe, hoje, atingem também docentes. Qualquer ato mal interpretado pode virar motivo para o massacre virtual. O Sindicato dos Professores do DF (Sinpro-DF) confirma o aumento das difamações pela rede. “O dano do bullying na internet é mais potencial e agressivo que aquele dentro dos muros da escola. Há um julgamento sumário e uma condenação imediata quando se é exposto na web, e isso traz consequências graves no rendimento e até mesmo na saúde das pessoas”, explica o diretor da entidade Washington Dourado.

Para ele, a falta de regulamentação propicia os casos. “É um espaço com uma liberdade que pode ser usada para o bem e para o mal. É necessário que se tenha controle e se coíbam os excessos para que essa não se torne uma prática ainda mais recorrente”, afirma.

O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe/DF), Álvaro Domingues, acredita que os casos acompanham o crescimento tecnológico. Ele também relata situações de professores e funcionários que foram alvo dos alunos nas redes sociais. “Muitas vezes, os conflitos dos alunos terminam no Judiciário. Se um grupo não gosta de um professor, também tenta desqualificá-lo nas redes sociais”, lamenta. A ação do sindicato é com treinamento e prevenção. “É preciso que as pessoas aprendam a conviver com todos os pilares da sociedade. Promovermos cursos, falamos sobre uma etiqueta da escola e sobre como agir para prevenir esses casos.”

A Secretaria de Educação do DF elaborou um plano de convivência para que cada escola crie ambientes de mediação de conflitos. Os profissionais são capacitados por meio da Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação (Eape).

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