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Os mestres da criatividade

Em dias de comunicação instantânea e estudantes conectados, ganham respeito e destaque aqueles professores que investem na criatividade e na inovação. São eles que formam alunos questionadores e com perfis críticos

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postado em 21/06/2015 14:04 / atualizado em 21/06/2015 14:07

Manoela Alcântara , Roberta Pinheiro

Uma sala de aula com quadro e giz não atrai mais alunos nem professores. É necessário inovar e criar, sobretudo, em um mundo dinâmico e superconectado. É preciso apostar na relação entre docente e estudante, na troca de experiências e no desenvolvimento de perfis críticos e questionadores. A paixão do profissional também desperta o encantamento do jovem. Esse cenário, no entanto, bate na porta de uma formação rígida e pautada pelo sistema educacional unilateral. Para modificar e adaptar o quadro ao mundo complexo, é preciso investir na qualificação continuada dos mestres e, principalmente, na criatividade.

“Nós, educadores, não temos como assegurar o que a educação deve privilegiar em termos de conhecimento por causa da realidade vivida hoje. Os alunos precisam ter ferramentas para pensar e resolver problemas novos e imprevisíveis”, explica a professora emérita do Instituto de Psicologia da UnB Eunice Soriano de Alencar. Com base nesse desafio que se impõe sobre o sistema educacional, a educadora desenvolveu estudos que comprovam o valor do inusitado.

Tanto aluno como professor precisam desenvolver o potencial criativo. No caso dos estudantes, significa ter ideias e respostas originais, viver de uma forma mais autêntica e questionar. O educador precisa trazer esse universo para a sala de aula e ajudar o aluno a desenvolver o potencial. “É desenvolver um conjunto de habilidades que, usualmente, o colégio não desenvolve na extensão desejada. Os dados empíricos mostram que, em todos os níveis de ensino, predomina o modelo tradicional e unidirecional”, afirma Eunice. Hoje, em uma instituição presa ao convencional, o jovem que se destaca pela produção de novos conceitos e faz perguntas não é aceito.

Uma pesquisa feita pela especialista com quase 100 estudantes de nível superior revelou as características do professor facilitador da criatividade. Em primeiro lugar, os entrevistados destacaram o docente que estimula o aluno a questionar e a refletir diversificando as práticas pedagógicas. Aquele profissional que demonstra interesse pelo aprendizado e que se monstra disponível para elucidar as dúvidas foi o segundo ponto em evidência. Por fim, a qualidade da relação entre professor e aluno é percebida como aspecto facilitador. “O educador tem muito poder. Ele não só pode ajudar o aluno a se desenvolver como também pode minar a autoconfiança desse jovem”, comenta a pesquisadora. Confira três histórias de professores brasilienses que ganharam a admiração dos estudantes por fazerem o diferente.


Caça-talentos

 (Breno Fortes/CB/D.A Press)
 
  • Fernando Alves,  42 anos, professor da Escola Classe 218 de Santa Maria

    O talento do educador Fernando Alves para o desenho garante a diversão dos alunos da Escola Classe 218 de Santa Maria. As capas de avaliações, algumas provas e o quadro-negro ganham caricaturas dos estudantes ou até o avatar que o professor criou para ele mesmo. “A melhor maneira de ensinar a criançada de hoje é desenhar com eles e deixá-los ajudarem a construir o desenho, a definir as características do personagem, onde ele vive, do que gosta e do que não gosta”, explica. “Em vez de criar personagens de fora, faço a caricatura deles mesmos e eles se reconhecem.”

    Além dos alunos do 1º ano do ensino fundamental, os três filhos de Fernando, de 18, 16 e 14 anos, o inspiram na hora de criar. “O mais velho é um excelente desenhista; o caçula gosta de escrever e o do meio é mais nerd e gosta de quadrinhos, como eu”, relata. Uma das histórias mais recentes deles tem relação com o universo jovem dos filhos e ainda mostra a realidade do país. A Tribo e Aline conta a saga de um grupo de super-heróis, como se fossem os X-Men da Marvel, mas vivendo problemas tipicamente brasileiros. “Não é copiando o quadrinho americano”, destaca Nando Alves, nome com o qual ele assina os quadrinhos.

    Além de não usar uniformes, os heróis enfrentam problemas familiares e sociais, como a dependência em álcool. “Não é preciso supervilões. Nós temos muitos problemas daqui.” Neste ano, um de seus quadrinhos foi publicado na Polônia e em Portugal.

 

 (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
 

  • Ana Lúcia Marques de Paula Moura, 46 anos , diretora do Centro de Ensino Médio Setor Leste

    A capacitação e a inovação andam juntas no Setor Leste, na Asa Sul. Com um mundo cada vez mais conectado e alunos conhecedores das novas tecnologias, uma das primeiras ações da diretora Ana Lúcia Moura foi mudar a perspectiva de dar aula. No cargo, ela investiu na capacitação e na união do corpo docente. O espírito inovador foi aliado à preparação dos professores e, desde 2008, o colégio coleciona avanços. Ganhou o Prêmio Gestão Escola , ficou entre as seis melhores instituições de ensino públicas do país e chegou ao primeiro lugar no Enem, entre as públicas, em 2010. Dois anos antes, era a 12ª.

    O sucesso é tanto que está difícil conseguir uma vaga no Setor Leste. São 1,7 mil estudantes, em 42 turmas, e, mesmo assim, há uma fila de espera por vagas no ensino médio. “No tempo em que vivemos, as aulas naquele modelo tradicional geram desinteresse. Ela dava conforto porque só o professor transmitia o conhecimento”, ressalta a gestora.

    Lá, as aulas vão além das salas. São 22 projetos inovadores para a fixação do conteúdo. Os alunos fazem vídeos e participam de feiras. Para chegar a esse modelo, além dos 28 anos de experiência, a participação em fóruns e na formação continuada fizeram a diferença na carreira de Ana Lúcia. “É preciso sempre separar um tempo para ler, estudar e conhecer outras realidades. Além de aprender no dia a dia, fiz o curso de pró-gestão pela Secretaria de Educação na época em que era coordenadora”, afirma.

 

 (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
 

  • Neide Rodrigues de Sousa, 49 anos, diretora da Escola Parque Anísio Teixeira, em Ceilândia

    Depois de 19 anos na Secretaria de Educação, Neide de Sousa assumiu a gestão de um projeto inovador em Ceilândia. Foi eleita diretora da Escola Parque Anísio Teixeira, inaugurada em julho do ano passado. O principal desafio: fazer os alunos preferirem a escola à rua. Com a liberdade como fundamento principal, os estudantes trabalham no contraturno das aulas em oficinas de artes plásticas e cênicas e de dança, além de praticarem esportes e atividades interdisciplinares.

    Cada um faz a opção que preferir duas vezes na semana. “A gente percebe que eles estão aprendendo a lidar com essa questão da liberdade de escolha. Na escola, os alunos têm uma grade fechada, estudo, prova. Aqui, eles vêm porque querem experimentar algo novo. É um desafio que tem dado certo”, afirma Neide.

    Com um estudo em andamento sobre o efeito das atividades no período contrário ao do colégio, alguns resultados podem ser vistos com clareza. “Mantemos um diálogo constante com as orientadoras educacionais de Ceilândia. Muitas pedem para vir à Escola Parque, pois gostam de estar na escola”, disse.

    Lidar com a autoestima de uma comunidade carente, com problemas sociais, e conseguir instigar os estudantes do 6º ao 9º ano precisou de experiência, criatividade, vontade e inovação. Neide entrou na Secretaria de Educação como professora de magistério nível 1. Depois, concluiu a licenciatura, deu aula de matemática e realizou o sonho de uma faculdade de educação física.

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