Cardápio Saudável na hora do intervalo

Após dois anos da implantação da lei que proíbe a venda de alimentos pouco nutritivos nas escolas do DF, a maioria das instituições já se adaptou. No entanto, falta de regulamentação ainda impede a fiscalização e a punição de cantinas que descumprem a norma

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postado em 02/07/2015 10:34 / atualizado em 02/07/2015 10:37

Mariana Niederauer


Alunos do Jardim de Infância da 304 Norte plantam, colhem e comem as hortaliças do canteiro do colégio (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 

 

Alunos do Jardim de Infância da 304 Norte plantam, colhem e comem as hortaliças do canteiro do colégio


Gabriel e Luísa ganharam certificados de nutricionistas-mirins. No colégio deles, evita-se até brigadeiro nas festas de aniversário (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 
Gabriel e Luísa ganharam certificados de nutricionistas-mirins. No colégio deles, evita-se até brigadeiro nas festas de aniversário

O estudante do 2º ano do ensino médio Antonio concorda com a restrição da venda de alimentos nas escolas (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 

 

O estudante do 2º ano do ensino médio Antonio concorda com a restrição da venda de alimentos nas escolas



No próximo mês, a lei que proíbe a venda de alimentos pouco nutritivos em escolas do Distrito Federal completará dois anos. Apesar de ainda não haver uma regulamentação da norma — o que impede a fiscalização e a punição para os que não cumprem as determinações — os colégios públicos e particulares fizeram, nesse período, adequações nas merendas e no cardápio oferecido nas cantinas. Algumas já tinham começado as mudanças antes mesmo da legislação, que acabou por reforçar práticas pedagógicas de incentivo à alimentação saudável.

No Petit Galois, que recebe estudantes do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, a orientação é de que nem brigadeiro ou bolo de chocolate entre nas festas de aniversário celebradas no colégio. A direção orienta os pais a substituírem esses doces mais calóricos pelo bolo de cenoura, por exemplo, e até ensinou uma receita de calda de cacau em pó, para evitar o excesso de açúcar. “A lei veio reforçar o que nós já fazíamos e acreditávamos”, explica a coordenadora pedagógica Cátia Aguiar. Na cantina, são servidos sucos naturais, sanduíches e frutas.

O incentivo aos hábitos saudáveis não se restringe apenas às festas e à hora do intervalo. Na sala de aula, o tema também é tratado. Este ano, os alunos do 4º ano até ganharam certificados de nutricionistas-mirins. Luísa Coser, 9 anos, ganhou o dela e compartilhou o conhecimento em casa. “Eu falo que se não deve consumir produtos industrializados em excesso. Você deve consumir mais proteínas, sais minerais e vitaminas”, conta.

O colega dela Gabriel da Silva, 9, nem sempre resiste à tentação dos doces e gosta quando os pais compram guloseimas, mas também aprendeu que o excesso de carboidratos faz mal à saúde e não bebe refrigerantes. “O projeto deste ano fala do consumo consciente, e vale tanto para a alimentação quanto para outros tipos de consumo”, explica a professora deles, Kamila Fernandes. Os assuntos ligados à alimentação são mais abordados na aula de ciências, como a digestão demorada de alguns alimentos e o valor nutritivo de cada um deles.

Na rede pública, o processo de adequação à nova legislação ainda está em curso, e a regulamentação da lei é necessária para garantir a fiscalização e a punição (leia O que diz a lei). Alguns cantineiros ainda insistem em vender refrigerantes. O trabalho de conscientização é feito pelos próprios diretores, que dão orientações sobre o que pode e o que não pode ser vendido aos alunos, conforme destaca Kelen Pedroso, coordenadora de Alimentação Escolar da Secretaria de Educação do DF. A atual gestão já começou a trabalhar na elaboração do decreto que vai regulamentar a lei e depois disso ele precisa ser sancionado pelo governador Rodrigo Rollemberg.

No caso da educação infantil, Kelen afirma que a secretaria cumpre a oferta mínima de 200g de frutas e verduras por aluno por semana, mas que, em razão de problemas de logística, não é possível ofertar esses produtos todos os dias. “O objetivo é aumentar a oferta, mas será preciso repensar a logística de entrega”, ressalta. Hoje, grande parte dos alimentos servidos na rede pública — como frutas, legumes, arroz e até macarrão — é comprado de produtores locais, como forma de incentivar a agricultura familiar.

Em algumas escolas, como o Jardim de Infância da 304 Norte, os próprios alunos colocam a mão na massa e colhem parte dos produtos que consomem. Eles plantam hortaliças e legumes no quintal da escola como parte de um projeto que teve início em 2003. “Uma vez por mês, trabalhamos em sala de aula para identificar os alimentos e falar dos nutrientes que cada um tem”, complementa a coordenadora pedagógica, Gislene Siqueira. Uma vez ao ano, o colégio também recebe o programa Sesi Cozinha Brasil, que prepara cardápios alternativos, tudo com alimentos saudáveis. O trabalho se estende até a casa dos alunos. “Isso se reflete no hábito da família toda. Os próprios pais já se autorregulam”, afirma a vice-diretora, Fernanda Machado.

Sem exageros


Na hora de montar a lancheira do filho (veja o quadro), vale o bom senso, e é sempre bom lembrar que a alimentação da criança e a do adulto são diferentes, como ressalta a nutricionista infantil Fernando Monteiro. “Eu percebo que as mães estão muito ligadas nas redes sociais e, por elas serem tão informadas e ter esse modismo da nutrição sem lactose e sem glúten, passam isso para as crianças também”, avalia. Fernanda alerta, no entanto, que as crianças precisam desses alimentos. O leite, por exemplo, é uma importante fonte de cálcio. Esse tipo de dieta só deve ser recomendada para a criança depois de um diagnóstico definido por um nutricionista e por um gastroenterologista.

Para os mais velhos, que já têm a opção de comprar o próprio lanche e enfrentam as tentações dos carrinhos de churros e de pipoca na porta da escola, a dica da nutricionista é escolher um dia como opção de lanche livre. Os outros dias da semana devem ficar reservados para alimentos saudáveis e, de preferência, trazidos de casa. Fernanda lembra que essa é uma ótima maneira, inclusive, de economizar a mesada. “Se não tiver alternativa e precisar comprar o lanche na cantina, escolha opções sem fritura, de preferência assadas. Evite também embutidos, como enroladinhos de salsicha e peito de peru”, sugere.

A transição para a alimentação saudável na cantina do Marista não encontrou muita resistência entre os estudantes do ensino médio, segundo a assistente psicopedagógica Andréa Carvalho. O processo começou cinco anos atrás, quando a escola deixou de servir frituras. As reclamações só aumentaram quando o refrigerante foi cortado do cardápio, assim que a lei foi aprovada. A mudança também não agradou aos professores, que consomem os mesmos produtos servidos aos alunos. “A mudança foi geral, da escola como um todo e em todas as unidades”, destaca Andréa.

Agora, as cantinas de todos os alunos, da educação infantil ao ensino médio, seguem o mesmo padrão e os mais velhos também dão o exemplo. Segundo Andréa, os próprios estudantes do ensino médio já percebem a importância da alimentação saudável, até mesmo como forma de manter o padrão de beleza, e seguem orientações de nutricionistas para comer de três em três horas, por exemplo. “Eles têm feito essa escolha mais saudável, que é perceptível, e é algo trabalhado desde o ensino infantil”, afirma. O estudante do 2º ano Antonio Tabajara, 17 anos, é um dos que defende a restrição da oferta de alimentos pouco nutritivos nas cantinas. “A comida afeta a saúde das pessoas, e é preciso ensinar isso desde cedo. Acho que é necessário ter um controle mesmo, mas a produção de alimentos saudáveis é mais cara, por isso, é preciso ter incentivos por parte do governo”, observa.

Como montar a lancheira

É importante incluir na lanche um alimento de cada grupo. Confira as opções mais saudáveis e as dicas de como usá-las

Carboidratos

» Dê preferência a pães e massas integrais. O bolo caseiro pode ser feito com farinha integral, por exemplo, e incluir na receita aveia ou quinoa em flocos. Se comprar produtos na padaria, escolha aqueles com validade menor, como os brioches caseiros, que levam menos conservantes. Evite os produtos industrializados.

Proteínas


» Queijo branco, iogurte, requeijão, coalhada, leite fermentado com sabor natural e leite com achocolatado são algumas das alternativas. Várias marcas oferecem opções desse último produto com menos açúcar. Também é possível fazer em casa mesmo um patê de frango com ricota para acompanhar o pão.

Vitaminas e minerais

» Frutas, salada de frutas, geleias, água de coco, cenoura baby, batata doce assada e chips de beterraba e de batata baroa podem entrar no cardápio diário. Os sucos caseiros são a melhor opção de bebida. Para conservá-los, a dica é fazer cubinhos de gelo e jogar dentro da garrafa térmica com um pouco de água. Outra opção é adicionar três gotas de limão a cada 200ml de suco.

Fonte: Fernanda Monteiro


O que diz a lei

A Lei 5.146, de 2013, determina a promoção da alimentação saudável nas escolas de educação infantil e de ensino fundamental e médio das redes pública e privada do Distrito Federal. A norma proíbe as cantinas escolares e qualquer outro comércio de alimentos dentro do ambiente de vender balas, pirulitos, gomas de mascar, biscoitos recheados, refrigerantes e sucos artificiais, salgadinhos industrializados, frituras em geral, pipoca industrializada e alimentos industrializados cujo percentual de calorias provenientes de gordura saturada ultrapasse 10% das calorias totais. Exige ainda que a cantina ofereça pelo menos uma variedade de fruta da estação in natura — inteira, em pedaços ou na forma de suco.