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Distorções no ensino noturno

Estudantes do período têm pior desempenho escolar, segundo pesquisa. Disparidade entre idade e série e menor tempo de aula são alguns dos fatores que contribuem para esse cenário

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postado em 23/07/2015 11:10 / atualizado em 24/07/2015 10:27

Letícia Leal

Um terço dos 7,2 milhões de alunos de ensino médio matriculados no ensino regular da rede pública estadual do Brasil estuda à noite. Apesar de o número de matrículas vir caindo cerca de 2% ao ano desde 2010, o número de 2,3 milhões de inscritos nesse turno é muito expressivo -- ainda mais quando o desempenho dessa parcela de estudantes, cuja realidade é permeada de particularidades complexas, é comparado ao das turmas do dia. O Instituto Ayrton Senna realizou, este ano, um estudo que levanta estatísticas do ensino médio com foco na comparação entre os períodos diurno e noturno, com o objetivo de entender melhor essa realidade e apontar eventuais diferenças que possam orientar políticas públicas. 


As principiais disparidades entre os períodos são: perfil do aluno, taxas de evasão e tempo de aula. À noite, os jovens são cerca de três anos mais velhos (o que configura alta distorção idade-série), com média de 18,8 anos no 1º ano do ensino médio. No 3º ano, 51% deles trabalham, mais que o dobro do percentual diurno, segundo dados de 2013 do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). As turmas têm uma hora a menos de aula, em decorrência dos limitados horários de funcionamento do transporte público, e a taxa de abandono é maior -- 14,5% à noite, contra apenas 4,7% nos demais turnos somados, sendo que, no Distrito Federal, a evasão do noturno chega a 21%.

Entre as várias conclusões da pesquisa, atestou-se que os índices de rendimento apresentados pelos jovens da noite em comparação aos do diurno são baixos. A análise dos resultados da Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb), aplicada em 2013 pelo Saeb, mostra que apesar de, em geral, os alunos secundaristas no Brasil não terem atingido a pontuação mínima considerada adequada para o ensino médio -- de 300 pontos em matemática e 350 em português --, a média obtida pelos estudantes da noite foi 25 pontos menor do que a do diurno. No DF, a disparidade é maior: foram 35 pontos de diferença em matemática e 28 pontos em português.

O estudo não avaliou o desempenho de alunos que cursam a Educação de Jovens e Adultos (EJA), modelo que compacta o conteúdo de ensino médio para atender as demandas dos que não completaram a educação básica em idade apropriada e para o qual muitos estudantes do ensino médio regular migram ao completarem 18 anos.

 

 

 

Perspectivas de solução
Para o diretor do Instituto Ayrton Senna, responsável pela pesquisa, Mozart Neves Ramos, esses resultados expõem lacunas existentes no plano mais discutido nos debates eleitorais do ano passado: investir totalmente na implementação do ensino integral nas escolas brasileiras. Segundo ele, esse modelo não leva em conta o perfil diferenciado do aluno da noite. "Ver o ensino integral como a bola de prata da educação não resolve as coisas e, se o Brasil não tem uma política clara para o diurno, para o noturno é pior ainda", destaca.

Na opinião dele, a solução seria uma reformulação do sistema atual, que aproveitasse as singularidades dos estudantes do período, que têm mais maturidade e compromisso. "São alunos diferentes em termos de responsabilidade social, então, eles deveriam ter um atendimento especializado. O grande aliado seria o ensino a distância, que deveria ocorrer juntamente a aulas presenciais. Deveríamos também incorporar o ensino profissionalizante. Enfim, dar maior flexibilidade de escolha de percursos para o aluno", conclui.

Já a diretora-executiva do movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz, considera que há oferta excessiva de turmas noturnas para suprir as altas demandas, que aumentam devido à escassez de vagas e à falta de verba para construir novas escolas. "Dezoito por cento dos jovens com idade de ensino médio ainda estão fora da escola, o que leva a uma corrida das secretarias estaduais para incluir esses potenciais alunos. O ensino médio noturno deveria ser direcionado apenas aos que realmente necessitam dele, que não é o que ocorre."

Para ela, o ensino médio noturno é um desenho de etapa equivocado, que não respeita vocações nem diferentes projetos de vida e é muito pautado pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e pelos demais processos seletivos conteudistas. Considerando que apenas 12% dos jovens que cursam ensino médio ingressam numa graduação, essa maneira de pensar a educação, segundo ela, é desconexa com a realidade. "Há um engessamento sistêmico que não condiz com a trajetória plural do futuro do adolescente."
 
O que diz a comunidade escolar
No Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab) de Taguatinga, as demandas na estrutura física são recorrentes. "No terceiro turno, são menos seguranças, a iluminação é precária, e o horário contribui para o uso de drogas, apesar de termos minimizado esse problema aqui", disse a diretora da unidade, Suzane Margarida.

"Para esse público que trabalha o dia todo, o terceiro turno precisa ser adaptado. Essa adaptação precisa ser feita, porém, na medida do possível: a gente não pode tirar do aluno do noturno o direito de ter o mesmo conteúdo do diurno.Até porque, na hora de prestar uma prova, eles competem com todos os outros", observa o professor de sociologia Marcelo Resende, que leciona há 19 anos. Para ele, o noturno é composto por um público que está mais focado, com objetivo de estudar e não ficar brincando muito.

"De noite, é mais tranquilo, mais calmo, há menos turmas. É como se fosse uma aula relax. Também é mais fresco, é melhor de estudar. Na minha opinião, é melhor do que de tarde e de manhã", relatou o estudante do 3º ano João Ricardo Aragão, 18 anos, que migrou para o noturno no início desse ano, quando começou a trabalhar para ajudar em casa. Tanto ele quanto a colega de turma Vanessa Gomes, 20, repetiram o 1º ano do ensino médio enquanto ainda estudavam pela manhã, e ambos planejam fazer faculdade quando se formarem. "Prefiro estudar à noite porque o horário me possibilita trabalhar, o que é uma opção boa para mim", observa Vanessa, que já foi babá e hoje trabalha em uma farmácia.



Letícia Leal
Quanto ao tempo mais curto para se dedicar aos estudos e o desempenho inferior dos alunos do período na Avaliação Nacional da Educação Básica, tanto João quanto Vanessa são categóricos. "Quem realmente quer estudar vai atrás. A gente sempre tira um tempo, às vezes, sai mais cedo, corre atrás no fim de semana", diz o jovem. "O tempo não é o mesmo que eu teria se estudasse de manhã, mas tiro um tempinho a mais e dou conta", completa Vanessa.

 

 
Investimento em educação
Para o futuro, a opinião de especialistas e professores converge: é preciso que haja uma atualização e uma personalização do sistema noturno para torná-lo mais dinâmico e envolvente, trazendo inclusive a juventude para participar do debate. As tecnologias e a internet podem ser grandes aliadas nesse contexto, se inseridas de maneira planejada e encaradas como facilitadoras do aprendizado, em vez de vilanizadas.

Se nada for feito, a previsão é que essa diferença de 25 pontos entre o desempenho de alunos do ensino médio noturno e o do diurno na Avaliação Nacional da Educação Básica resulte numa grande parcela de pessoas de 15 a 25 anos que não tem emprego nem estuda, o chamado "exército dos nem-nem", de acordo com a avaliação de Mozart. "No instituto, temos a frase simbólica 'educação do futuro agora': não dá mais para esperar pelo futuro, o futuro está batendo à nossa porta agora", finaliza.
 
Palavra de especialista

 

Pespectiva sociológica
É preciso fazer uma digressão histórica para explicar essa situação. O maior desafio é a dualidade estrutural que acompanha o ensino médio a partir de sua criação. Desde a industrialização, durante e depois da Era Vargas, o ensino era secundário. A
formação buscava uma perspectiva de trabalho, continuar os estudos estava ligado a uma burguesia emergente, e isso se estende aos dias de hoje.


A evasão é, na verdade, uma expulsão, porque o sistema não cria condições favoráveis para a permanência do estudante na escola; já que o currículo exigido é desvinculado da vida e do trabalho dele. Também há situação precária para o professor -- cujo salário insatisfatório, muitas vezes, o obriga a trabalhar por 60 horas e enfraquece seu rendimento -- e problemas de segurança e mobilidade urbana.


Erlando da Silva Rêses, doutor em sociologia do trabalho e educação e professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB)

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