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Como valorizar o ensino médio

Os dados do DF nos principais indicadores do Enem por Escolas 2014 são melhores do que a média nacional. No entanto, essa etapa educacional ainda representa um dos maiores desafios da capital, como mostra a primeira reportagem da série que aborda o tema

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postado em 07/09/2015 12:09 / atualizado em 09/09/2015 10:41

Mariana Niederauer

Rodrigo Nunes

Alcançar resultados melhores no ensino médio é um dos maiores desafios da educação brasileira hoje, e o cenário não é diferente no Distrito Federal. A divulgação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2014 por Escolas traz vários dados que ajudam a entender, para além do ranqueamento por notas, os fatores que pesam no fracasso dessa etapa do ensino. Na série de reportagens que começa hoje, o Correio mostrará o papel de gestores, professores, família e alunos para que o ensino médio cumpra a função de preparar os jovens ao caminho que eles escolherem seguir na vida adulta.

No DF, a discrepância entre o desempenho da rede pública e o da rede privada é uma das menores do país, de 14%, segundo levantamento do Instituto Ayrton Senna (veja quadro). No entanto, apesar de contar com bons índices em comparação a outras unidades da Federação — 58% das escolas obtiveram notas maiores que a média nacional no Enem 2014 —, o DF nem sequer conseguiu alcançar a meta do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para 2013, que era de 4,1. O resultado foi 4. Para este ano, o objetivo é chegar a 4,5 e, em 2021, a 5,4.

Outro fator que pesa no desempenho das escolas no Enem é o Indicador de Nível Socioeconômico (Inse), que leva em consideração o nível de escolaridade dos pais e a posse de bens e contratação de serviços pela família dos estudantes. Quanto mais baixo o índice, pior é o desempenho do estudante, independentemente da rede em que ele está matriculado. “O fator socioeconômico, sendo muito importante, acaba nivelando (os estudantes) em termo de aprendizagem”, avalia Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. Em Brasília, a maioria das escolas foi classificada nas faixas média a muito alta. Mesmo assim, é possível perceber a influência do fator socioeconômico. A média das escolas com Inse muito alto é de 588 pontos no Enem, enquanto as de Inse médio ficaram com nota 489.

O Centro de Ensino Médio Setor Oeste está entre as escolas públicas com indicador socioeconômico alto e foi uma das mais bem colocadas no Enem 2014 no DF, com média de quase 540 pontos. A diretora, Ana Maria Gusmão, e a vice, Danielle Galvarros, acreditam que um dos fatores que levam ao bom desempenho é o fato de o projeto político pedagógico ser flexível e sempre discutido com a comunidade, os professores e os alunos. “Quando começamos com o projeto, em 2008, o foco dos alunos era passar na UnB. Hoje em dia, eles buscam também outras federais, os cursos tecnológicos e as particulares, que têm corrido atrás e aberto um leque de possibilidades, que, há alguns anos, eles não tinham”, detalha Ana Maria.

Ela lembra ainda que o fato de estar no Plano Piloto diferencia a escola de outras que ficam mais afastadas do centro. Também destaca a dedicação do corpo docente. “A maioria dos profissionais que temos aqui já está há muitos anos na Secretaria de Educação. Vários deles passaram pelo ensino particular e trazem outras experiências educacionais”, afirma. O maior desafio da gestão, na opinião dela, é convencer os estudantes da importância da tarefa desempenhada na escola e dar as melhores condições para os professores atuarem. “O trabalho do gestor fica camuflado no processo todo”, avalia.

Criatividade
Os cortes de gastos que o Governo do Distrito Federal vem anunciando desde o início do ano não pouparam a educação. A volta às aulas da rede pública atrasou três semanas este ano, duas delas devido a reparos que a Secretaria de Educação do DF (SEDF) precisou fazer nas escolas para receber os alunos. “É inegável que os problemas estruturais constituem fatores limitantes, mas não são motivo para que não avancemos”, avalia o secretário de Educação do DF, Júlio Gregório. “Nós temos que usar a criatividade. O bom gestor é forjado não no momento de bonança, mas nos de dificuldades, como os que nós estamos vivendo”, completa Gregório.

A secretaria lançou, a última sexta-feira, o programa Por dentro dos exames do ensino médio, justamente com o objetivo de preparar estudantes da rede pública para provas como o Enem e o Programa de Avaliação Seriada, da Universidade de Brasília (PAS/UnB). Esse é um exemplo, segundo o secretário, de projeto feito praticamente sem custo nenhum. Como parte da iniciativa, professores de língua portuguesa da SEDF participarão de oficinas de redação sobre o Enem e, ainda este mês, estudantes do 3º ano do ensino médio regular farão um simulado com o objetivo de se preparar para os exames oficiais.

Para Álvaro Moreira Domingues Júnior, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares do Distrito Federal (Sinepe-DF), a autonomia é o principal fator que diferencia a gestão da escola pública da escola privada. “Acredito que, quanto mais descentralizada é a educação e quanto mais autonomia se conceder às instituições educacionais, mais êxito teremos na aprendizagem. A escola privada consegue esses resultados porque tem autonomia, é uma gestão voltada para metas e resultados”, afirma.

Um dos dados que chama a atenção em relação às escolas privadas é o Indicador de Permanência na Escola (IPE), que mostra o percentual de participantes que cursaram as três séries do ensino médio na mesma instituição. Todas as escolas do DF com índice inferior a 20% são particulares — 12, num total de 183 ranqueadas no Enem por Escolas 2014. “O que ocorre, na maioria das vezes, é que os alunos buscam, nos últimos anos do ensino médio, escolas com histórico de bom desempenho no Enem”, justifica Álvaro. Ele destaca que o índice é importante para que se tenha uma medida real de quanto a escola influenciou no desempenho do aluno. Ele acredita que outra possível solução para essa distorção seria a implantação do Enem de maneira seriada, nos moldes do PAS, da UnB. “Você poderia ver exatamente qual escola consegue agregar ao aluno mais formação cognitiva ao longo de três anos”, conclui.

Ponto crítico
“O ensino médio é o nosso ponto crítico, principalmente o público, porque está absolutamente desestruturado e sem planejamento”, avalia a professora Maria Márcia Sigrist Malavasi, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ela, existem diversos fatores que contribuem para esse quadro: a formação deficitária dos professores nos cursos de licenciatura e a falta de formação continuada; a desmotivação dos estudantes; a estrutura ruim dos colégios; e pais que não acompanham a vida escolar dos filhos nem se sentem acolhidos pela escola. “Como não há planejamento nacional para o ensino médio, temos uma escola desestruturada e com professores que não desejam estar lá”, resume.



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a formação e os desafios do
professor do ensino médio


"É inegável que os problemas estruturais constituem fatores limitantes, mas não são motivo para que não avancemos"
Júlio Gregório, secretário de Educação do DF

"O ensino médio é o nosso ponto crítico, principalmente o público, porque está desestruturado e sem planejamento"
Maria Márcia Sigrist Malavasi, professora da Unicamp

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