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Trilhas para a vida adulta

A última reportagem da série sobre o ensino médio retrata as causas do abandono escolar. Especialistas defendem que a oferta de diferentes trajetórias para o jovem seguir após a educação básica pode motivá-lo a permanecer na escola

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postado em 10/09/2015 11:05 / atualizado em 10/09/2015 13:10

Mariana Niederauer

Rodrigo Nunes

Às 4h da manhã, Dalcilene Lopes Lima acorda e sai de casa, em Planaltina (GO), para chegar à escola, no Plano Piloto, às 7h30. Por volta dos 8 anos de idade, passou a morar em um orfanato e, hoje, aos 18, se sustenta sozinha. Apesar de todas as dificuldades, decidiu dar uma nova chance à escola. Ela cursa o 2º ano do ensino médio no Centro Educacional Gisno, colégio público localizado na Asa Norte. A jovem faz parte do grupo de 25,9% de estudantes do Distrito Federal que não cursa a série adequada para a idade. Outros 6,9% abandonam os estudos já no 1º ano. Esses são dois dos principais desafios enfrentados pela educação atualmente e que o Correio aborda na última reportagem da série sobre o ensino médio.

Uma das barreiras que leva ao abandono e à repetência é a necessidade que muitos têm de trabalhar para se sustentar. No caso de Dalcilene, o orçamento é apertado e ela sobrevive da bolsa de Aprendiz Legal que ganha pelo trabalho de auxiliar no Setor de Clubes Sul. “Eu acho que estudo com trabalho não rola, mas a gente não tem escolha, ou você estuda e trabalha ou você não é ninguém”, afirma ela, que agora procura um emprego e um local para morar mais perto do colégio. Depois de reprovar diversas vezes na escola quando era criança, Dalcilene resolveu tentar de novo e encontrou no apoio de professores e colegas a motivação para continuar a estudar. “Desafios eu tenho, mas, antes, eu me sentia sozinha. Agora, os professores estão me ajudando e me dão chances todos os dias. Eu acho isso muito importante para o aluno”, conta.

Barreiras
A professora Wivian Weller, vice-diretora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB), explica que existem dois gargalos na educação brasileira. O primeiro é no final do ensino fundamental, onde um número grande de alunos com mais de 14 anos fica retido. No DF, apenas 64,6% da população de 15 a 17 anos está matriculada no ensino médio, segundo dados de 2014 (veja o quadro). O restante ou está retido no ensino fundamental ou abandonou a escola. O outro ponto crítico é na transição entre o primeiro e segundo anos do ensino médio, que registram altas taxas de reprovação. A dificuldade não está nem em entrar no ensino médio, avalia Wivian, e sim em continuar os estudos após o 1º ano. Em 2014, 20,3% dos alunos do DF reprovaram nessa série. “Dessa maneira, um número grande estudantes acaba desistindo”, afirma a professora.

Entre as possíveis razões que levam à desistência, a especialista elenca a falta de significação e necessidade ou a vontade de se inserir no mercado de trabalho. “Para muitos, o ensino médio não tem sentido, porque está muito focado em exames preparatórios para a universidade”, observa. “Começa a aparecer com mais força a questão do trabalho não apenas para ajudar a família, mas para ter uma renda e se sentir jovem de fato”, completa.

Reformulação
Para o secretário de Educação do DF, Júlio Gregório, o grande desafio do ensino médio é a reformulação do currículo, discussão que está em andamento no Congresso Nacional e que deve ser impulsionada com a aprovação, até 2016, da Base Curricular Nacional Comum, pelo Ministério da Educação (MEC). “A nossa grande meta é trabalhar aspectos curriculares e formas de desenvolvimento do currículo que busquem, cada vez mais, fomentar aptidões dos alunos no ensino médio e abrir portas para que eles também identifiquem essas habilidades”, detalha.

A proposta do diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, também é que a escola ofereça mais de uma opção ao aluno que sai da educação básica, e não apenas o caminho do ensino superior. “Precisamos pensar um ensino médio que dê mais possibilidades para os alunos, e não apenas uma trilha, como é hoje”, defende. Para ele, o 9º ano do ensino fundamental e o 1º do ensino médio deveriam seguir uma base curricular comum e as demais séries do ensino médio poderiam ser voltadas para a área de interesse aluno, com a possibilidade, inclusive, de um percurso profissionalizante em vez do acadêmico apenas.

Mozart acredita que o Enem, apesar de precisar de melhorias, pode impulsionar essas mudanças, pois pretende promover a articulação dos conhecimentos no lugar da simples memorização dos conteúdos. “O Enem não pode ser o único instrumento de avaliação de qualidade do ensino médio, mas ele é parte do mosaico que avalia essa etapa do ensino, e uma parte que, na minha opinião, é muito melhor que o vestibular”, relata.

O grande número de disciplinas, aliado a todos os fatores mostrados nas reportagens anteriores da série — que envolvem a gestão das escolas, a família e os professores — resultam na falta de vontade dos estudantes em permanecerem na escola e nos índices alarmantes de jovens que saem da educação básica sem dominar conteúdos elementares. Só no DF, mais de 80% não alcançam desempenho satisfatório em matemática e 60% não aprendem o necessário em português. Para alterar esse quadro, é preciso começar a mudança logo e garantir que outros jovens tenham a mesma certeza que motiva Dalcilene: “É dos estudos que vai sair o meu futuro”.

 

Todos pedem mudanças


Pesquisa divulgada pela Fundação Lemann e pelo movimento Todos pela Educação em julho deste ano mostrou como o aprendizado e as experiências vividas na escola contribuíram para o ingresso na universidade ou no mercado de trabalho após o ensino médio. Foram ouvidos jovens de 20 a 21 anos que concluíram o ensino médio na idade certa e que obtiveram nota acima da média das escolas públicas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A conclusão foi que, mesmo entre esse grupo de estudantes mais bem preparados de acordo com a avaliação nacional, existe uma grande desconexão entre os conhecimentos e as habilidades exigidos na vida adulta e o que é ensinado na escola.

“Ao longo desse trabalho, ouvimos histórias chocantes, que evidenciam como nossos jovens chegam ao fim do ensino básico sem ter acesso a alguns dos conteúdos mais elementares para a vida, incluindo as dimensões do trabalho e do exercício da cidadania”, observa Haroldo Torres, do Todos pela Educação, um dos coordenadores do estudo. Além dos jovens, foram entrevistados professores, empregadores e organizações não governamentais.

Falta orientação
O levantamento mostrou que esses jovens se sentem desorientados e têm dificuldade de  se comunicar no ambiente de trabalho e na universidade. “Tanto os jovens quanto os profissionais que os recebem posteriormente demandam da escola mais do que o aprendizado formal em língua portuguesa e matemática, que, evidentemente, são essenciais. Demandam também o aprendizado relacionado ao desenvolvimento de competências socioemocionais, como capacidade de trabalhar em grupo, foco, proatividade e resiliência”, acrescenta Haroldo Torres.

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