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Colegas ainda tentam entender o crime

Durante o sepultamento do jovem assassinado por colega dentro da sala de aula, alunos e professores relembraram os momentos de terror. Aulas retomam hoje

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postado em 17/09/2015 12:05 / atualizado em 17/09/2015 12:08

Otávio Augusto

Minervino Junior
Dois dias após o assassinato de um estudante de 17 anos nas dependências do Centro de Ensino Médio (CEM) 2, em Ceilândia, as aulas serão retomadas hoje. Durante todo o dia de ontem, a movimentação intensa na Capela 3 do Cemitério de Taguatinga chamava atenção. No velório de Danilo Roger Silva de Sousa, amigos e familiares ainda tentavam entender o real motivo do crime. Na noite de segunda-feira, o agressor, de 16 anos, usou um canivete para matar o colega de classe com 16 golpes — três no pescoço. Os estudantes do 2º ano contam que havia um desentendimento entre os dois desde o início do ano letivo. Um áudio, que circula nas redes sociais, revela um desentendimento entre os dois no fim de semana. Para atenuar as marcas na turma onde aconteceu a tragédia, a escola trocará os alunos de sala.

Parentes da vítima estavam desolados. A mãe do jovem, Luzia da Silva Mourão, não quis falar com a imprensa, mas lamentou aos familiares: “Esta é a maior dor da minha vida. Nunca imaginei enterrar um filho dessa maneira. Não há causa que justifique matar uma pessoa assim.” Durante todo o tempo em que esteve no local, a mulher foi amparada pelos outros três filhos.

A segunda-feira, 14 de setembro, custará a sair da memória da comunidade. O professor que estava em sala no momento do crime ainda tenta se refazer do trauma. Ele contou ao Correio o que viu. “Não tinha percebido que o Danilo havia saído da sala. Quando o outro jovem me pediu para sair, eu deixei. Alguns colegas se deram conta do início da confusão com os berros no corredor”, revela o professor de matemática Hugo Silva, que trabalha na instituição há menos de um ano (leia Depoimento).

Um rapaz de 17 anos, colega do agressor, lembra com detalhes a sequência da tragédia. “Quando ele (agressor) voltou (para a sala de aula), ainda furou um monte de vezes o Danilo. Ele remexia o canivete dentro dos cortes. A gente gritava para ele parar, mas ele não obedecia. Quando parou, deu três chutes na cabeça dele. Tinha muito sangue por toda parte”, conta o rapaz, que cursa o 2º ano do ensino médio.

Fora da sala
Um áudio divulgado nas redes sociais por colegas dos adolescentes revelam um desentendimento entre os adolescentes no fim de semana, no Setor O. Na gravação, um amigo da vítima descreve o acontecimento: “Ele (vítima) tinha me dado a ideia que passou na quebrada do bicho (agressor). E ele foi falar com ele, pagar sapo. Falou: ‘oche, o que você está fazendo na minha quebrada?’. No primeiro horário, o Danilo veio falar comigo, contar que o bicho tinha folgado com ele”.

Durante o sepultamento, o diretor do CEM 2, Wilson Venâncio, rebateu as declarações do menor agressor de que sofria bullying e que era ameaçado na escola — informações repassadas pelo rapaz à polícia e à Justiça. “Se houve, a direção não foi comunicada. Sempre que algo do tipo acontece, os professores levam o caso até nós. A cultura na escola é de paz e respeito. Se houve um desafeto, foi fora da instituição”, reafirmou o docente.

O jovem agressor cumprirá 45 dias de medida socioeducativa, até que seja definido o tempo total da sentença. Depois da ação, professores impediram o linchamento do acusado. Por se tratar de um crime que envolve menores de 18 anos, a Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) II, em Taguatinga, que apura o caso, e a Justiça não divulgaram detalhes da investigação.

Depoimento

“O desespero era generalizado”

“A aula estava normal até quando ele (o agressor) chegou. Eu até me espantei, porque fazia muito tempo que ele não frequentava a escola. Colocou a mochila na cadeira e ficou observando seriamente, como era de costume. A confusão foi por volta das 20h40, quando houve a gritaria no corredor e o Danilo voltou para a sala ensanguentado. Logo depois, ele voltou e furou mais vezes. Saí correndo para chamar o guarda para intervir. Não houve tempo de impedir a ação. Quando retornei, o desespero era generalizado. Havia algumas meninas nervosas e desmaiadas. Essa é uma marca profissional que faz a gente se questionar se vale a pena continuar lecionando.”

Hugo Silva é professor de matemática e estava em sala de aula no momento do assassinato.

 

Assalto e facada em frente à escola


 

Um estudante de 16 anos foi esfaqueado a caminho do Centro Educacional (CED) 104, próximo à Quadra 300, no Recanto das Emas, na manhã de ontem. Um assaltante em uma moto o abordou e pediu o tênis. Mesmo após entregar o objeto, o bandido o golpeou nas nádegas. O adolescente foi socorrido por professores e levado ao Hospital Regional de Samambaia (HRSAM), onde recebeu alguns pontos no ferimento. A comunidade escolar reclama da insegurança no local. Também ontem, outra estudante teve as sandálias roubadas. Na segunda-feira, um menino ficou sem o celular.

Até 2013 a escola contava com o policiamento permanente do Batalhão Escolar. Agora, eles só vão ao local quando acionados. “Depois que tiraram, ficou pior. A gente teve que adotar novas condutas, por causa do risco que os alunos correm. Nunca havia acontecido uma agressão, mas casos de assaltos são corriqueiros”, afirma Dilce da Silva Borges Eça, diretora da instituição.

Na tarde de ontem, familiares ainda se recuperavam do susto. “Graças a deus o corte foi pequeno. Mas isso tem que servir de alerta para o governo fazer alguma coisa”, desabafou a auxiliar de limpeza Ivoneide Mendes, 42, sogra do rapaz esfaqueado.

A dona de casa Rita Pereira, 50, tem três filhos matriculados no CED 104. Para ela, o medo é constante. “Eles são deficientes e, por isso, demandam mais tempo para entrar e sair do carro. Tenho medo de alguém nos abordar e o desfecho ser trágico. Aqui, o policiamento é muito fraco”, reclama a moradora da Quadra 300. O Batalhão Escolar não comentou o caso.