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Sem destino definido

O reitor Ivan Camargo afirma que não há cronograma para a transferência dos autônomos do Minhocão. Segundo ele, a retirada vai acontecer, embora ainda não haja consenso entre profissionais e alunos sobre o assunto nem negociação com os vendedores

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postado em 13/11/2015 13:34

Mariana Laboissière

Ed Alves

A comunidade da Universidade de Brasília (UnB) vive um dilema. De um lado, a comoção para que o comerciante mais antigo do Câmpus Darcy Ribeiro permaneça no local. De outro, a reitoria entende que o projeto original do arquiteto Oscar Niemeyer precisa ser resgatado e preservado. As concessões do espaço público aos permissionários ao longo dos anos aconteceram sem que houvesse distinção. Em todo o Instituto Central de Ciências (ICC) Norte e Sul, mais conhecido como Minhocão, há entre 20 e 30 comerciantes instalados. O número foi repassado pelo reitor da UnB, Ivan Camargo, que garante não haver, até agora, nenhum cronograma para a retirada dos autônomos do espaço. O professor ressaltou, ainda, que não existe uma negociação com os vendedores.


Em outro período o Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a considerar que o Minhocão não era o local apropriado para atividade comercial. A Vigilância Sanitária também emitiu parecer para que não fosse mais permitida a comercialização de alimentos em razão da proliferação de pombos e ratos no espaço. Os quiosques ao longo do Minhocão têm múltiplas funções e atendem as necessidades dos alunos inclusive para as aulas. Ao longo do Minhocão, existe o serviço das cópias e xérox, da venda de artigos e presentes, alimentos e lanches, além das livrarias. A mais famosa é a de Francisco Joaquim de Carvalho, 56 anos, o Chiquinho. Depois de 40 anos no ICC Norte, a UnB tem insistido para que ele desocupe a área e seja transferido para um dos Módulos de Apoio e Serviços Comunitários (Mascs).


Chiquinho se instalou definitivamente no espaço em 1989, quando Brasília e todo o país vivia a euforia da primeira eleição direta para presidente após duas décadas de ditadura com repressão estudantil. De lá para cá passaram-se 26 anos. Nos 14 anos anteriores,Chiquinho também estava na UnB, mas em uma banca improvisada onde comercializava os livros. Na última terça-feira ele encarou uma das visitas que mais o surpreendeu. Era o próprio reitor que, desta vez, encontrava o livreiro para indagá-lo sobre a saída dele do local.

Abraço na livraria
Segundo o livreiro, foi uma “conversa amistosa e não houve pressão, mas o reitor falou da possibilidade de eu sair daqui. No meu sentimento mais profundo, quero muito permanecer”, lamentou.


Ao descobrirem que o livreiro poderia deixar o espaço, alunos se organizaram para lutar pela permanência dele. A comunidade universitária criou duas páginas na internet como forma de apoio a Chiquinho. O primeiro grupo, “Chico Fica” , tinha até a noite de ontem 3.455 curtidas. A repercussão foi tanta que eles criaram um evento pra um abraço na livraria do Chiquinho. A manifestação ocorrerá  às 12h de 24 de novembro.


Para Marcelo Arruda, 38 anos, a saída dos comerciantes não vai melhorar o espaço. “Esse comércio está aqui há anos, os estudantes já se acostumaram. Tirá-los não me parece ser uma boa”, ressaltou ele, que se formou na universidade em comunicação social. O professor Márcio Lima, 47, compartilha da mesma opinião. “Essas pessoas, assim como o Chiquinho, são parte da história da UnB. Por isso, acredito que o local deve ser mantido como está”, defendeu.

 

Retirada é prioridade

O urbanista Sérgio Costa avalia como improvável a mudança física de qualquer ponto dentro do ICC, já que o local é tombado e não pode ser modificado. “Os comerciantes podem ser retirados e realocados. Mas mudar qualquer espaço físico é proibido, e derrubadas, por exemplo, não podem acontecer”, explicou em entrevista ao Correio, o reitor da UnB Ivan Camargo informou que a retirada dos comércios do ICC Norte e Sul é uma prioridade da administração da instituição. Mas ponderou que não há consenso entre profissionais e alunos universidade sobre o assunto. "Na universidade, tudo se faz com muita conversa e negociação. Continuaremos tentando negociar, mas ainda não tivemos sucesso. Não há como definir um cronograma se não temos negociação", pontuou. "Eu seria o primeiro a assinar o abaixo-assinado pedindo para o Chiquinho ficar, porque ele é meu amigo, mas, a meu ver, a entrada do local mais importante de Brasília, a principal universidade do Brasil, deveria ser preservada e não se transformar em uma feira, cheia de puxadinhos e invasões, como acontece na nossa cidade.”

Preservação
Ainda segundo Camargo, em 2012, três áreas foram construídas para abrigar os comerciantes: uma fica próxima à Faculdade de Medicina, outra está localizada entre o ICC e a Faculdade de Tecnologia e, por último, a terceira está próxima ao Módulo de Apoio e Serviços Comunitários (Masc) Norte, nas imediações dos pavilhões. "Deixo claro que esse processo vai acontecer com muita calma. Mas é importante preservarmos a memória e o projeto de Oscar Niemeyer", completou. Ele acrescentou que há reclamações por parte de professores que não conseguem oferecer atividades acadêmicas no local.


Segundo o assessor da reitoria, professor Ebnezer Nogueira, há três anos a universidade negocia com os comerciantes. “Oferecemos 50% de desconto no aluguel até o fim do ano e demos a oportunidade de escolherem o novo espaço, mas não cumpriram a palavra”, alegou.

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