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PATRIMÔNIO »

Conservação na sala de aula

Projeto Preservartepatrimônio, criado e desenvolvido por uma educadora brasiliense na Escola Parque da 308 Sul, une artes visuais, teatro e música para contar a história cultural e urbanística de Brasília. Professores se surpreendem com a reação e a participação dos alunos

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postado em 28/12/2015 19:07 / atualizado em 28/12/2015 19:21

Maryna Lacerda

Helio Montferre
A conservação do patrimônio cultural e urbanístico de Brasília depende da formação de novas gerações conscientes de que essa é uma missão tão vital quanto rotineira. Assim, uma vez conhecedores da história dos prédios que frequentam, das quadras em que brincam, as crianças se tornam poderosos agentes da preservação. Transformar essa premissa em um compromisso lúdico é uma das propostas do projeto Preservartepatrimônio, na Escola Parque da 308 Sul. Em vigor desde 2010, a iniciativa prevê a interação das diversas disciplinas — artes visuais, teatro, música —, com os conceitos de memória e os fundamentos em que se baseia a cidade, como as escalas e o conceito de unidade de vizinhança. Dessa forma, os estudantes se aproximam do espaço em que vivem e dele se apropriam.

A iniciativa surgiu da experiência da professora Maria da Glória Bomfim Yung, 49 anos, no processo de tombamento do Centro de Ensino Fundamental Metropolitana, no Núcleo Bandeirante. Lá, ela atuou na equipe que produziu o relatório para classificação da instituição de ensino, uma das edificações remanescentes do acampamento pioneiro da Vila Metropolitana. O contato com as origens da capital a instigou a investir na educação patrimonial.
 
Helio Montferre
Brasiliense nascida, de raízes nordestinas, ela aprendeu em casa a importância de valorizar as culturas tradicionais e trouxe para a sala de aula a proposta. “O meu projeto é fazer as pessoas terem projeto de memória”, explica. Por isso, nas primeiras atividades do ano letivo, ela apresenta a definição constitucional de patrimônio e mostra como o conceito se aplica ao cotidiano. Da trajetória familiar à fundação da Escola Parque (leia Para saber mais), as noções de cultura, memória e cidadania são aplicadas aos estudantes por meio de desenhos, leituras, músicas e textos de teatro.

Brincadeira
Conforme o projeto avança pelos bimestres, a história de Brasília fica delineada. Entram em cena Athos Bulcão, Alfredo Volpi, Francisco Galeno, Lucio Costa. Os alunos descobrem, de forma tão natural quanto marcante, que os idealizadores da capital modernista estão bastante próximos da vida deles. Nessa etapa, as 16 turmas que frequentam a Escola Parque da 308 Sul fazem aulas-passeio pelas quadras 107/108/307/308 Sul. Participam cerca de 3 mil estudantes, do 1º ao 5º ano, de 10 escolas.

Em uma das trilhas, visitam a Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, no mesmo lote. No trajeto curto, mas de muita informação, eles observam a unidade de vizinhança, os cobogós e aprendem sobre o Princípio do Homem Livre e os pilotis. Descobrem as placas que sinalizam o local. Uma vez dentro da Igrejinha, são instigados a observar as paredes pintadas por Francisco Galeno, em 2008. A referência às brincadeiras infantis reverbera nos turistas-aprendizes. “Gostei muito dos desenhos. São alegres, divertidos. Foi muito interessante quando a tia contou a história dos homens que construíram a Igrejinha”, conta Bianca Santos Souza, 8 anos, aluna do 3º ano.

O passeio pode parecer trivial, mas revela um objetivo refinado: sensibilizar o olhar dos pequenos cidadãos para os significados de viver em uma cidade tombada. “Patrimônio só o é, de fato, quando é reconhecido e cuidado pelas pessoas”, ensina Maria da Glória. Se a valorização é estimulada nas primeiras idades, mais facilmente ela se transforma em apropriação. “Procuro passar a ideia de que o melhor lugar para a gente ficar é o da gente. E, por isso, temos que cuidar do nosso espaço”, acrescenta a professora.

A lição fica registrada. “Aprendi que tenho de cuidar da natureza, de Brasília. Eu aprendi a imaginar como eram as coisas e que posso juntar com o que vejo agora. Vira tudo uma brincadeira dentro da minha cabeça”, relata Rosa Noelia Nicasio e Rosário, 9, do 3º ano. Natural da República Dominicana, a garota explica que a cidade, aqui, é mais bem cuidada que a terra natal. “É emocionante. Aqui, posso andar de ônibus, e nunca tinha feito um passeio como esse. Quando crescer, quero ser professora”, conta.

Para saber mais

A Escola Parque
 
 
É um sistema educacional com proposta de atividades que trabalhem a cultura de forma ampla. Por isso, nela, aprendem-se as artes e os esportes, além do conteúdo básico estabelecido. Anísio Teixeira (foto) é o fundador da abordagem e a instalou, primeiramente, em Salvador, no Centro Educacional Carneiro Ribeiro. O conceito norteou o plano de sistema escolar de Brasília, elaborado pelo educador, em 1957. Estavam previstas 28 Escolas Parque, como parte das Unidades de Vizinhança. Hoje, no entanto, o Distrito Federal tem apenas seis unidades: cinco no Plano Piloto e uma em Ceilândia.
 
Aventura e criatividade


Colocar em prática um projeto tão amplo quanto o Preservartepatrimônio exige colaboração. Assim, além do conteúdo formal sobre o tema e as aulas-passeio, música e teatro integram as atividades. Canções que falam de Brasília e de artistas locais são parte do conteúdo, detalha o professor Betto Tutu, 49 anos. “Começamos com as canções mineiras, como Peixe-vivo, de que o Juscelino Kubitschek gostava, e passamos pelas do Clube da Esquina. Em seguida, trabalhamos Oswaldo Montenegro, Cássia Eller e Legião Urbana”, revela.

Tutu também destaca a tomada de consciência da importância da música para a vida e para a cultura da cidade como objetivo do trabalho. “Não pretendemos formar músicos e sim mostrar que este é um lado importante da vida e da criatividade”, diz.

Além disso, durante as aulas, as músicas que compõem a trilha sonora da apresentação final de teatro são preparadas. A peça teatral é a atividade de encerramento do ano letivo e das atividades do Preservartepatrimônio. A cada edição, cria-se uma história com personagens reais e ambientada nas proximidades da Escola Parque. “Colocamos, dentro da parte de teatro, a música e o conteúdo histórico”, explica a professora de teatro Marilin Lasneaux, 49.

Para isso, ela criou duas peças: O mistério do azulejo azul e O dia que a Escola Parque ficou cinza. Em ambas, o patrimônio é o pano de fundo para as aventuras. Marilin conta que o engajamento à proposta do projeto se deu de forma arrebatadora. “O amor da Glorinha por esse trabalho conseguiu envolver a gente. É como paixão por futebol, coisa de sangue”, descreve.
 

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