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Correio Braziliense

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A falta que faz a educação

Ao mesmo tempo que diminui o número de crianças e adolescentes no país, devido à queda da fecundidade, aumenta a evasão escolar. País corre o risco de ver a sua mão de obra despreparada para enfrentar um mercado de trabalho competitivo e um mundo inovador

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postado em 05/01/2016 20:15

Antonio Temóteo

Leonardo Santos da Silva está prestes a completar quatro anos sem nunca ter frequentado uma sala de aula. O pai dele, Fábio, morreu de infarto no ano passado, aos 40 anos, deixando a família numa situação bastante difícil. A mãe do menino, Gislene, 39, foi obrigada a abandonar a casa onde os três moravam por não ter condições de pagar o aluguel. Sem alternativa, acabou se empregando como doméstica, com direito a moradia para ela e o filho. O salário de R$ 1 mil que passou a receber, no entanto, não é suficiente para bancar uma escola particular para o garoto. Pior, ela perdeu o prazo para tentar uma vaga no sistema público.

Com isso, Leonardo engrossará o pelotão de pelo menos 700 mil meninos e meninas de até 5 anos que ficarão fora da sala de aula neste ano. Quanto mais um indivíduo atrasa a entrada na escola, maiores são as dificuldades que ele enfrenta, no futuro, ao disputar um posto no mercado de trabalho. “Sei que Leonardo já deveria estar tirando proveito do que a escola pode dar a ele. Mas a vida foi ingrata conosco neste momento”, afirma Gislene. Ela se diz convencida de que ainda há tempo de o garoto deslanchar. “Não há a menor chance de eu hipotecar o futuro do meu filho, privando-o de uma boa educação”, garante. Para Gislene, Leonardo realizará o sonho do pai, que morreu tão jovem: ostentar um diploma que lhe abra todas as portas que desejar. “Meu menino irá longe”, prevê.

Em um mundo cada vez mais competitivo e conectado, a educação faz a diferença. É vital para um país produzir riqueza e inovação. E não há dúvidas de que o Brasil ampliou muito o acesso às escolas. Mas a universalização do ensino não significou a universalização do conhecimento. Mesmo com a maior parte da garotada nas escolas, o modelo adotado está longe de garantir a Leonardo e a milhões de crianças um aprendizado de qualidade. “O Brasil ainda não se deu conta dá urgência de tornar a educação uma prioridade. Essa agenda não pode mais ser adiada. Os problemas já estão mapeados. Decisões precisam ser tomadas”, alerta Mozart Neves Ramos, professor e diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna.

Distorções

Atualmente, 87,9% dos meninos e meninas de quatro a cinco anos e 97,1% dos garotos de seis a 14 anos estão matriculados. Dados da Avaliação Nacional da Alfabetização apontam, porém, que uma em cada cinco crianças com até 8 anos não sabe ler; duas em cada cinco não conseguem escrever; e três em cada cinco não entendem matemática. Tais deficiências têm levado parte desses alunos a abandonarem as salas de aula. Entre os que completam o ensino médio, a maioria deixa os cursos superiores de exatas de lado por dificuldades com cálculos. Resultado: sobram no mercado profissionais com formação em humanas e faltam químicos, físicos, engenheiros e matemáticos.

“Trata-se de um quadro inadmissível”, ressalta Mozart Ramos. Para ele, o problema do Brasil na educação não é de escassez de dinheiro — os gastos públicos correspondem a 6,2% do Produto Interno Bruto (PIB) por ano —, mas, sim, de gestão. No entender dele, o primeiro passo para não comprometer ainda mais o futuro do país é formar bons professores. Se hoje a necessidade de educadores capacitados já é enorme, se agigantará nas próximas décadas. Com a mudança de perfil da população e a queda da fecundidade entre as famílias de renda mais elevada, grande parcela das crianças que nascerão nos próximos anos virá de lares pobres, cujos pais tiveram uma formação deficiente, quando tiveram.

A situação se torna mais dramática quando o foco passa a ser as meninas. Se nascidas nas camadas de menor renda, normalmente, elas têm dificuldade para concluir os estudos. Várias delas se deparam com a gravidez muito cedo. Das que interrompem os estudos para ter os filhos, a maioria não retorna às escolas. Estima-se que hoje, no Brasil, quase 1 milhão de garotas entre 15 e 17 estão fora das salas de aula. Além das dificuldades para lidar com as responsabilidades da gravidez, elas não encontram nas escolas um ambiente receptivo. Muito pelo contrário.

“Temos que formar bons alfabetizadores e, ao mesmo tempo, criar um sistema adequado para a compra e a entrega de materiais didáticos nas escolas”, ressalta o diretor do Instituto Ayrton Senna. Ele defende, com veemência, que o país incentive que os meninos que terminam o ensino médio sigam no magistério. “Só assim, a qualidade dos educadores melhorará, assim como a formação dos alunos”, assinala. Na avaliação dele, a deficiência é tamanha que, até nas universidades mais conceituadas, os professores estão aquém do que os estudantes realmente precisam.

Repetências

Se nada for feito rapidamente para mudar a realidade do ensino, o país corre o risco de ver a sua futura mão de obra incapacitada para enfrentar os desafios que vão se impôr. A cada ano, diminui o número de crianças e adolescentes de até 14 anos. Em 2004, eles eram 27,1% da população. Dez anos depois, passaram a representar 21,6% do total. O problema é que, ao mesmo tempo em que se reduz essa parcela de habitantes, aumentam os índices de evasão escolar. Das crianças de seis a 10 anos, 91,3% estão nas salas de aula. Entre os que têm de 11 a 14 anos, o índice de frequência cai para 78,3% e, entre os de 15 a 17 anos, desaba para 58,6%, devido, sobretudo, ao acúmulo de repetências, informa o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Não podemos correr o risco de ver esses meninos fora da escola. Temos que garantir, principalmente, que aqueles que chegam ao ensino médio concluam os cursos”, afirma Marcos Lisboa, presidente da escola de negócios Insper. Para ele, o Brasil não pode perder tempo, pois os países que entenderam a importância da educação estão na vanguarda, se renovando, crescendo e distribuindo riqueza. O nosso atraso é tamanho que, apesar dos avanços nos últimos anos, somente em 2004 atingimos o nível de escolaridade que o Chile, nosso vizinho, tinha em 1980: 6,4 anos. Agora, a nossa média está em 7,8 anos, ainda menos do que os nove anos exigidos para a conclusão dos ensinos fundamental e médio.


Tesoura afiada

O governo elegeu a educação como prioridade, sob o lema “Pátria educadora”. Mas, apenas em 2015, cortou R$ 10,5 bilhões do orçamento destinado à melhoria do ensino. A situação, segundo os especialistas, se torna mais dramática devido à falta de coordenação entre a União, os estados e os municípios. A fatura do descaso cai no colo da população, sobretudo a mais pobre, que não tem condições de recorrer a escolas particulares.

 

Analfabetos funcionais

 

Eduardo Knapp

Receber o diploma que ateste a conclusão do ensino médio ou do curso superior não garante ao estudante um ensino de qualidade. Muitos deixam a sala de aula sem saber operações básicas de matemática. Outros, sequer têm condições de passar por um processo seletivo para uma função específica em uma empresa, porque não dominam os conhecimentos adequados de português. Para o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, a qualidade da educação no Brasil só apresentará alguma melhora a partir de avaliações do que é ensinado em sala de aula e por meio de pressão da sociedade.

No entender dele, milhares de pessoas recebem um grau de educação, no ensino médio ou superior, sem ter adquirido as habilidades, competências e conhecimento correspondente ao diploma. Gianetti assinala ainda que a universalização do ensino fundamental causou a falsa sensação de que quem frequenta a sala de aula tem acesso a um aprendizado de qualidade. Entretanto, muitos abandonam o colégio por deficiências acumuladas ao longo dos anos. “Seria interessante ter alguma avaliação, ao fim dos cursos, para aferir se, de fato, os estudantes adquiriram o que se espera como contrapartida. Existem milhares de analfabetos funcionais com diploma”, diz. (AT)

 

Caminhos opostos


Escolhas erradas de um país podem comprometer o futuro da população por anos a fio. Basta traçar um paralelo entre o Brasil e a Coreia para ver o quanto essa realidade é cruel. Nos anos 1960, as duas nações tinham economias muito parecidas, baseadas em produtos primários. Vendiam ao exterior basicamente grãos e mercadorias de baixa tecnologia. Nas décadas seguintes, enquanto o Brasil relegou a milhões de jovens um ensino de qualidade, a Coreia se tornou obsessiva em relação à educação. Um mundo de oportunidades se abriu aos coreanos.

Atualmente, dois terços das exportações do país asiático são de manufaturados de média e alta tecnologia. O Brasil continua a comercializar, predominantemente, commodities e itens básicos. Há 50 anos, a renda média per capita dos brasileiros e dos sul-coreanos era praticamente igual. Hoje, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos asiáticos é de US$ 27.970, conforme o Fundo Monetário Nacional (FMI), valor 3,5 vezes maior que os US$ 8.710 dos brasileiros. Estudo de Clara Silva Coelho, da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostra que uma das razões para a diferença está na capacidade que os países têm de desenvolver indústrias mais sofisticadas e aptas para competir internacionalmente.

A Coreia começou sua rápida transformação nas décadas de 1960 e 1970, aumentando a participação das indústrias de média e alta tecnologia e consolidou a mudança ao longo dos anos 1980 e 1990. Parte do processo se deu com a criação de centros de pesquisas financiados por empresas privadas, que buscaram nas universidades os melhores alunos para garantir mão de obra de qualidade. Além disso, a educação básica oferecida pelo Estado aos jovens passou a exigir qualidade cada vez maior, com avaliações periódicas. O Brasil até ameaçou seguir neste caminho na década de 1960, mas não foi capaz de manter o processo em meio a diversas crises econômicas e à baixa qualificação profissional.

O quadro é tão destoante, que o Brasil não consegue ampliar sua participação no mercado internacional, respondendo por pouco mais de 1% do comércio entre as nações. A razão disso, acredita o professor José Alexandre Scheinkman, da Universidade Columbia, em Nova York, está na  produtividade dos trabalhadores brasileiros que, em vez de melhorar, piorou. Há 30 anos, eram necessários quatro brasileiros para produzir o mesmo que um norte-americano no chão na fábrica. Agora, são necessários cinco.

Sem mágica

O economista Claudio Haddad, presidente do conselho deliberativo da escola de negócios Insper, explica que não há segredo para que o Brasil leve ensino de qualidade à população, como fizeram os coreanos. Ele detalha que é preciso uma gestão que combine planejamento, objetivos definidos, metas e um sistema de incentivos que remunere os bons e corrija distorções que apareçam pelo caminho. “Não existe bala de prata ou mágica. O professor precisa ser pontual, estimular os melhores e dar a atenção necessária para aqueles com dificuldade”, afirma.

Para Haddad, não é possível que as greves e os atrasos de professores comam metade das horas-aula. Ele alerta que nem investimentos em tecnologia, com salas interativas e tablets, vão salvar o país se não houver uma revolução no modelo de ensino.  “Sem metas e análise nada funciona. Precisamos de professor em sala de aula pontualmente. O aluno aprendendo a ler, a escrever. Isso foi deixado de lado”, alerta. (AT)

 

 

 

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