SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

EDUCAÇÃO »

Novos desafios para os pais

Como os responsáveis devem encarar o desafio de educar os filhos em um mundo de mudanças constantes? Já existem até grupos de apoio e compartilhamento de experiências com o objetivo de ajudá-los nessa tarefa

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 10/03/2016 19:07

Alexandre Facciolla , Mariana Niederauer

Rodrigo Nunes
O mundo conectado e cheio de possibilidades que se revela às novas gerações representa o surgimento de desafios diários aos pais que vão criá-las. É preciso saber impor limites sem deixar de entender os sentimentos das crianças. A tarefa é complexa e há universidades que oferecem apoio, por meio de espaços voltados para o compartilhamento de experiências e orientação sobre o desenvolvimento infantil.

“A literatura tem apontado que esse é um problema internacional, da necessidade desses pais terem alguma preparação”, observa o professor Marcelo Ribeiro, do Colegiado de Psicologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). “Antigamente, havia uma estabilidade maior nas estruturas sociais em termos das relações humanas. Hoje, vivemos uma instabilidade, tudo muda muito rapidamente. As informações, os conhecimentos e os saberes precisam estar em constante atualização”, completa.

Para o professor, o mundo globalizado e tecnológico favorece a “deseducação”, uma vez que torna mais complicado lidar com as frustrações, devido à facilidade de comunicação. Marcelo ressalta, no entanto, que não significa que tudo era melhor antigamente, é apenas um momento diferente, com novos desafios, e que cada um precisa encontrar o próprio caminho. “É importante que os pais não entrem numa idealização sobre a maneira correta de criar os filhos”, diz. “Pais cometem erros, mas o importante é eles estarem permanentemente atentos ao processo educativo, vendo o que erraram, e aprendendo com o filho também.”
 
Pequenas mudanças
No Distrito Federal, a Escola de Pais do Centro Universidade de Brasília (UniCeub) funciona desde 2013 com o intuito de ajudar os responsáveis a entender o comportamento das crianças a partir dos próprios exemplos e atitudes. “É muito comum a família colocar a culpa do comportamento da criança na própria criança. Nós mostramos que não há solução mágica”, afirma a professora Michela Ribeiro, que supervisiona os grupos. O atendimento é feito gratuitamente por estudantes de psicologia da instituição.

Muitas vezes, nem são necessárias grandes mudanças para ver resultado no comportamento da criança. Em uma situação em que os pais passam o dia fora, por exemplo, Michela destaca que dedicar um momento específico do dia aos pequenos reforça a importância que eles têm para os pais. Isso pode contribuir para inibir comportamentos inadequados, como a teimosia, que pode ser uma estratégia da criança para chamar a atenção. Outro ponto importante destacado pela especialista é o estabelecimento de regras claras. Cabe a cada responsável definir quais serão elas; o essencial é que sejam possíveis de serem cumpridas pela criança e passadas de maneira gradativa.

O grupo de pais do Centro de Estudos e Práticas em Psicologia (CEPPSI) da Univasf também parte para o terceiro ano de funcionamento. O projeto é voltado ainda para cuidadores, avós, tios e outros familiares, com o objetivo de ajudar no desenvolvimento das relações parentais (leia Memória). O atendimento pode ser individual ou em grupo e os assuntos abordados surgem de demandas dos próprios participantes. Há ainda uma parte de orientação que inclui informações sobre desenvolvimento infantil.

 Não quer dizer, no entanto, que exista uma fórmula correta para ser pai ou mãe, mas sim que há conhecimentos e experiências importantes que ajudam o adulto a desempenhar melhor esse papel, percebendo atitudes e comportamentos que tem na relação com os filhos. “Alguns aspectos que nós percebemos como muito recorrentes e que têm tudo a ver com a educação escolar é aquilo que diz respeito ao desenvolvimento moral da criança. Aqui entra a questão do limite, da autonomia e da capacidade da criança de se relacionar também”, explica o professor Marcelo Ribeiro, coordenador do grupo de pais.

 A partir do trabalho feito na universidade é possível perceber diferentes tipos de relações parentais (leia Para saber mais). Normalmente, os responsáveis misturam características de várias delas, a depender do próprio histórico familiar. Alguém que passou por dificuldades financeiras quando criança, por exemplo, pode querer compensar dando tudo ao filho e acaba sendo permissivo demais. Perceber essas relações e trabalhá-las por meio da terapia contribui para o desenvolvimento global da criança e os resultados são percebidos na escola. Os mesmos padrões podem se apresentar na relação professor-aluno.

Parceria
O grande desafio da médica veterinária Luanna Vieira, 27 anos, foi ter se casado e engravidado muito nova. “Meu maior receio era se teria de abrir mão da faculdade, como conseguiria conciliar tudo”, relembra. Hoje, ela acredita que a maternidade a deu força para superar os obstáculos que aparecem. Marina está com seis anos e Luanna tenta se espelhar na relação de parceria que tem com a mãe dela para educar a pequena. Ela acompanha de perto a trajetória escolar da menina, conversa com os professores para saber como está o desempenho em sala de aula e ajuda nos deveres de casa. E não são apenas os limites que se ganha com a relação equilibrada. Marina já tem responsabilidades: arruma a própria mochila, a lancheira da escola e cuida da cachorrinha dela. “Eu procuro determinar funções compatíveis com a idade dela, para que ela consiga ajudar e se sentir útil. Eu e ela somos muito parceiras.”

Onde encontrar

» O Centro de Formação de Psicólogo do UniCeub oferece atendimento gratuito pela Escola de pais: treinamento de estratégias educativas de crianças de 6 a 12 anos. As reuniões ocorrem de segunda a quinta-feira, em vários horários, no Centro de Atendimento à Comunidade — Setor Comercial Sul, Quadra 1, Edifício União. A duração do projeto é de 15 semanas e o início está marcado para 14 de março. Inscrições pelo telefone 3966-1626, até o dia 13 de março.

Para saber mais

Confira quais são os quatro estilos parentais

Autoritário
Muito limite e pouco afeto

São pais que colocam muitas regras, rígidas e inflexíveis. Exigem obediência em primeiro lugar e consideram pouco o lado do filho e os sentimentos dele. Estabelecem muitos limites — horário para chegar em casa, regulam tempo de tevê e games, controlam notas —, mas dão pouco afeto e participação — brincar, ficar junto, ajudar nas tarefas, elogiar e valorizar o bom comportamento.
 
Permissivo
Pouco limite e muito afeto
 
Permitem quase tudo ao filho, sob a justificativa de que ele “precisa expressar seus desejos e emoções”. Dessa forma, é o filho quem acaba estabelecendo as regras da casa. Oferecem coisas materiais em excesso. Consideram os sentimentos, as opiniões e necessidades dele, mas deixam as próprias opiniões e autoridade de lado. Geralmente, têm receio de dizer “não” e não serem mais amados pelos filhos.
 
Negligente
Pouco limite e pouco afeto

São aqueles que permitem quase tudo, mas não se comprometem com seu papel de educador e deixam o filho “solto”. Podem ser também pais muito ocupados, que não têm tempo algum ou não apresentam o interesse necessário para a educação do filho, ou, ainda, pais que estão confusos e não sabem como agir. Estabelecem poucos limites e demonstram pouco afeto e participação.
 
Participativo
Muito limite e muito afeto

Esse é o melhor estilo parental. São pais que exigem a obediência de regras e mantêm a autoridade, mas, diferentemente do estilo autoritário, os pais participativos são mais abertos para as trocas com seus filhos, usando explicações e permitindo o desenvolvimento da autonomia. Estão disponíveis para brincar, para ajudar com as tarefas, elogiam e valorizam a criança.

publicidade

publicidade