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Correio Braziliense

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Ensinamentos de arte e de vida

Em uma casa simples, na invasão Vila do Boa, na região de São Sebastião, o artista Nivaldo Nunes, 39 anos, dá aulas de artes gratuitas a dezenas de crianças. A iniciativa mobiliza a comunidade

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postado em 03/04/2016 15:15 / atualizado em 03/04/2016 15:17

Marianna Nascimento - Especial para o Correio

Uma floresta, retratada em estilo realista e com riqueza de detalhes, quase passa despercebida por quem anda pela Rua Nacional, nos arredores da invasão Vila do Boa, próxima a São Sebastião. Pintada no muro de uma das casas da rua, a obra, que se perde em meio aos lotes com casa de madeira e chão de terra, marca o local onde sonhos se realizaram e outros começaram a ser cultivados. A construção é simples e divide, no mesmo lote, espaço com outras do mesmo perfil.

Em dias de chuva, a água escorre abundante pelo chão irregular, entre o portão e o interior da casa. É preciso andar com cautela para não cair na lama escorregadia. Ainda assim, a ausência de espaço ou mesmo de estrutura não é empecilho para que o morador da casa, Nivaldo Nunes, 39 anos, desenvolva, ali mesmo, o trabalho que procurava exercer quando saiu do Maranhão, há quatro anos, e veio para Brasília. O pintor trabalha para uma imobiliária e faz bicos para complementar a renda. Mas é nas horas livres que ele se realiza, dando aulas gratuitas de pintura e desenho a 40 crianças carentes da Vila do Boa, no instituto que tem o mesmo nome do dono, fundador e único professor.

Tudo começou quando Nivaldo ainda era criança. Ainda novo, ele começou a trabalhar na roça como agricultor, mas o amor pelas artes sempre esteve ali e, segundo ele, o dom de pintar também. “Eu sempre tive o sonho de ser um artista e ter minha própria escola para ensinar aquilo que eu aprendi, mas, lá no Maranhão, eu não tinha recursos, era mais difícil. Por isso, vim para cá.” Em 2012, Nivaldo e o irmão, que hoje mora em Brazlândia, se despediram dos pais, no Maranhão, e partiram de ônibus rumo ao Distrito Federal.

Nivaldo faz pinturas tão realistas quanto aquela que dá cor à parte externa da casa, mas não tem formação em artes plásticas ? ou qualquer outra além do ensino médio, que concluiu ainda no Maranhão. “Aprendi lendo revistas e, mais tarde, com a internet. Agora que dou aulas aprendo muito mais com os alunos, eles têm muito a me ensinar também”, diz, cercado de meninas e meninos que, mesmo enquanto ele conversa com a reportagem, demandam a atenção do mestre para mostrar e perguntar sobre os trabalhos.

Questionado sobre a intenção ou possibilidade de cursar uma faculdade, ele demora alguns instantes para responder e tenta escolher palavras que justifiquem sua posição sobre o assunto. Por fim, resume: “Não me imagino nessa situação”. As aulas ocorrem gratuitamente aos sábados, das 8h às 10h e das 14h às 16h. As turmas são formadas por meninas e meninos a partir dos 7 anos, mas a idade máxima para ingresso ou permanência não é estipulada. Segundo Nivaldo, adolescentes de até 15 anos participam do projeto.

O trabalho teve início em 2012, com oficinas esporádicas ligadas ao Instituto Metamorfose, realizadas sob uma tenda branca no quintal de Nivaldo, em frente ao muro com a floresta pintada que deu início a tudo. “Enquanto eu pintava essa paisagem, as crianças se aproximavam, ficavam interessadas. Algumas delas até me ajudaram. A partir daí, começaram as oficinas”. No ano passado, o Instituto Metamorfose deixou de funcionar na casa de Nivaldo, mas, em novembro, ele decidiu que devia continuar o trabalho e criou o próprio instituto. “Plantamos nas crianças um sonho e o amor pela pintura, eu não quis abandonar isso”, declara.

Pequenos artistas
O interior da escola de artes na Vila do Boa é tão simples quanto a parte de fora. A geladeira, o armário e o sofá dividem um cômodo apertado com cadeiras, cavaletes, prateleiras cheias de tinta, pincéis e quadros. “Nossa maior dificuldade é a falta de espaço. Só não atendo mais crianças porque não tenho condições”, diz. Paredes de madeira, chão de cimento e fiação elétrica visível dão o toque final na aparência humilde, mas a decoração é sofisticada: alguns quadros de Nivaldo ornam o ambiente.

Apesar disso, o que chama atenção são os trabalhos das crianças. Coloridos e de estilos realista, cubista, impressionista, futurista ou abstrata, eles ficam pendurados nos quatro cantos da sala. Cada um dos pequenos aponta para algum quadro, nos cavaletes ou nas paredes, reivindicando a autoria das obras. “O que eu mais gosto de pintar são flores”, diz Elaine Gouveia, 11 anos, e mostra um quadro de natureza-morta, o último que produziu. “Quando eu crescer, quero ser uma pintora igual ao professor”, confessa.

Elaine é aluna de Nivaldo desde 2014, quando a atividade ainda consistia em oficinas sob uma árvore da rua e, mais tarde, sob a tenda branca. Assim como em casa e na escola, ela faz as aulas acompanhada dos irmãos Mateus Gouveia, 13 anos, e Milena Gouveia, 10. Eles não têm o mesmo sonho de Elaine, mas o gosto por fazer arte não é menor. Milena quer ser professora quando crescer, mas não abre mão das aulas. Mateus conta que teve de se adaptar para não ficar de fora da atividade de que tanto gosta. “Aqui eu aprendi a desenhar e a pintar bem certinho e bonito, mas aprendi também a me comportar melhor. O professor diz que, se não tivermos boas notas na escola, não vamos poder pintar. Eu não quero isso”, conta o garoto.

Crianças de vários níveis de habilidade são supervisionadas por Nivaldo, mas o carinho, segundo ele, parte igualmente de todas e é retribuído na mesma proporção. “Os pais me agradecem, porque, no período em que estão aqui, eles poderiam estar na rua, fazendo outras coisas. É muito gratificante passar a eles tudo o que sei e receber, em troca, tanto respeito e carinho”, diz Nivaldo, mais uma vez cercado pelos aprendizes.

Para ajudar
O Instituto de Artes Nivaldo Nunes aceita doações, como material de pintura e desenho (cavaletes, quadros, tintas, pincéis etc). Para doar, basta entrar em contato com Nivaldo pelo número 9222-9474


SOLIDARIEDADE
40
Quantidade de meninos  e meninas beneficiados pelo projeto

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