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Jovens e adultos

Pequenos agricultores voltam à escola e compartilham técnicas aprendidas

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postado em 09/06/2016 21:27

 

O reencontro com a escola, tantos anos depois, rendeu novos conhecimentos para a lida no campo, mais autoestima e amizades entre os agricultores de duas comunidades da zona rural de São Miguel do Oeste, município catarinense de 38,9 mil habitantes. “Não queria que o projeto acabasse; com as aulas, a gente volta a ser criança, esquece os problemas e a vida de só trabalhar”, comenta Santina Alves Ferreira, 50 anos. Ela e o marido, que moram numa chácara de 11,5 hectares, onde plantam “de tudo um pouco” e criam 50 galinhas, oito porcos e cinco vacas, estão entre as duas turmas de 60 trabalhadores rurais que concluíram, em 2015, o ensino fundamental.

 

O curso foi ofertado pelo Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (Proeja), do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC), em parceria com a prefeitura de São Miguel do Oeste, que pretendia revitalizar as escolas da zona rural. Além da formação nos anos finais do ensino fundamental (quinto ao nono ano), os alunos frequentaram aulas do curso de formação inicial continuada de técnicas em agricultura familiar. Esse projeto (Proeja FIC em técnicas de agricultura familiar) foi um dos vencedores do prêmio Medalha Paulo Freire, do Ministério da Educação. Desde 2005, o prêmio identifica experiências relevantes para a alfabetização e a educação de jovens e adultos no Brasil.

 

Dona Santina e o marido, Vilmar Pereira, 52 anos, interromperam os estudos na antiga quarta série por falta de oportunidades. “Sempre passei correto e gostava de estudar; tinha os cadernos caprichados”, diz dona Santina. “Mas a escola, depois da quarta série, ficava muito longe, não dava para ir a pé: eram mais de quatro quilômetros só para ir; naquela época, não tinha ônibus escolar, e meu pai não podia pagar transporte.”

 

Mãe de três filhos, a caçula com 17 anos e no último ano do ensino médio, a agricultora espera que o projeto do IFSC prossiga, com turmas de ensino médio. “Alunos não vão faltar; eu mesma serei a primeira da fila”, garante.

 

Parceria A oferta dessa etapa de escolarização depende de parceria do IFSC com a rede de ensino do estado. “Ficamos tocados com os relatos e estamos trabalhando para viabilizar o ensino médio”, diz Douglas Antonio Rogeri, coordenador dos cursos Proeja FIC do IFSC, campus de São Miguel do Oeste. “Se a parceria der certo, ofereceremos disciplinas técnicas, praticamente as mesmas descritas na forma de curso FIC, porém, nesse caso, integrado ao ensino médio.”

 

A parceria é importante para o serviço de transporte escolar dos alunos e para a composição do quadro de professores. “Hoje, o IFSC não tem condições de oferecer o ensino médio, pois os professores dessa área já estão sobrecarregados com as disciplinas do campus”, justifica Rogeri.

 

Para concluir o ensino fundamental, Santina, Vilmar e os demais agricultores precisaram ir à escola duas vezes por semana, durante quatro anos. As aulas eram ministradas à noite, em duas comunidades rurais. Na Linha Dois Irmãos, os agricultores assistiam às aulas na Escola Municipal Padre José de Anchieta; em Canela Gaúcha, na Escola Municipal Rural Waldemar Antonio von Dentz. O IFSC cedeu professores da área técnica e alguns da básica. O município ofereceu professores da área básica, transporte, espaço físico e alimentação.

 

A experiência foi proveitosa tanto para os alunos quanto para os professores. “Eu tinha aulas das 19h às 22h30; assim que chegava em casa, ia fazer logo os deveres de casa porque, no outro dia, tinha de trabalhar na lavoura e cuidar dos animais”, conta Santina, que estudava na escola da comunidade Linha Dois Irmãos, a 25 quilômetros do IFSC. “Tinha dia, depois do dia todo trabalhando na roça, que o cansaço batia, mas mesmo assim a gente não deixava de ir. Valeu muito a pena e não senti dificuldade nenhuma em aprender.”

 

Coordenador do curso Proeja FIC em técnicas de agricultura familiar nos dois anos iniciais, o professor José Carlos Martins, de português e inglês, descreve a experiência para chegar ao povoamento rural: “O trajeto era bem acidentado, com bastante sobe e desce; dificuldades nos dias de chuva, com possibilidades de nem poder sair de lá no mesmo dia”.

 

Tanto na Linha Dois Irmãos quanto em Canela Gaúcha, a 8 quilômetros do IFSC, o professor encontrou estudantes com idades de 40 a mais de 60 anos, com muita experiência para compartilhar, o que tornava as aulas mais fáceis. “Lembro que trabalhamos na aula de português um texto que envolvia uma raposa; como, nessas comunidades, raposa é o mesmo que gambá, histórias fantásticas surgiram”, diz. Nas aulas de inglês, muitos alunos confessavam que jamais se imaginaram um dia estudando essa língua. O rendimento escolar foi um sucesso, na avaliação do professor. “Não havia nada de excepcional no material didático; o que fez a diferença foi o sentimento de inclusão, de valor como ser humano, de comunidade que tinha o que dizer, de reconhecimento de identidades”, afirma. “Trabalhar com pessoas que ficaram tanto tempo fora da escola é trabalhar a valorização do ser humano e suas experiências. É saber que, em determinados contextos, mais aprendemos do que ensinamos.”

 

Prática Além das disciplinas da grade curricular comum, como matemática, português e inglês, os agricultores tiveram aulas práticas sobre técnicas de agricultura e pecuária. Professor do ensino profissionalizante, Cherilo Dalbosco ministrou aulas de gestão agropecuária. Segundo ele, os alunos aprenderam sobre fluxo financeiro da propriedade rural familiar, custos de produção e apuração de resultados econômicos. “O objetivo foi ensinar o agricultor familiar a fazer controles e gestão financeira da sua propriedade”, explica.

 

Para assimilar o conteúdo, o trabalho final dessa disciplina foi realizado nas pequenas propriedades dos próprios alunos. A aquisição de conhecimentos básicos de matemática e o uso da calculadora permitiram aos agricultores, garante Dalbosco, obter “um maior domínio de conceitos e técnicas de controles e registros financeiros” das propriedades rurais familiares. “Foi tudo muito bom no curso: aprendemos a plantar árvores frutíferas, o modo certo de criar galinhas, como organizar as pastagens, fazer a matemática baseada na nossa realidade”, resume uma ex-aluna ao relatar a experiência com o curso em um encontro de avaliação do MEC. “Todas as aulas foram importantes.”

 

O diretor do campus de São Miguel do Oeste, Diego Albino Martins, explica que há demanda na região para novas turmas de agricultores com o perfil de Santina e do marido. Duas turmas que unem a educação de jovens e adultos ao ensino profissionalizante estão em andamento no município de Iporã do Oeste, a 35 quilômetros de São Miguel do Oeste.

 

“Percebemos a mudança, o empoderamento dessas famílias, que voltam a estudar, que querem tirar carteira de motorista, seguir para o ensino médio e a graduação”, afirma Martins. “E como as aulas são alinhadas com as atividades e realizadas em escolas das comunidades, eles reforçam os laços sociais e incentivam uns aos outros para que ninguém desista dos estudos”.

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