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EDUCAÇÃO »

Inovação além da tecnologia

Pesquisa mostra tendência de preocupação das escolas particulares com a adoção de práticas inovadoras de ensino

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postado em 11/08/2016 18:05 / atualizado em 11/08/2016 18:16

Mariana Niederauer - Especial para o Correio

A mudança que tanto se comenta ser necessária na educação, para levar aos alunos os conhecimentos e as habilidades compatíveis com o século 21, passa por aspectos que vão além das inovações tecnológicas e que exigem uma interpretação mais abrangente do termo. Nas escolas particulares do Distrito Federal, os processos inovadores de avaliação e monitoramento são adotados em 83% dos casos, de acordo com a avaliação dos gestores. O dado é da pesquisa da Avalia Educacional, feita em Brasília e em outras quatro capitais. Já os professores do DF são os que menos concordam que equipe de gestão estimula atividades inovadoras.

Para Juliana Miranda, gerente de Avaliação da Avalia Educacional, o levantamento mostrou um distanciamento cada vez maior da gestão burocrática, muito ligada a atividades técnicas. “Isso é muito positivo. Estamos vivendo um momento de transição, de como colocar o aluno no processo de aprendizagem”, diz. Ainda de acordo com a especialista, informações como as apresentadas na pesquisa são importantes para aprimorar o processo de avaliação e, consequentemente, o ensino. “Se você não tem uma gestão baseada em dados, você tem uma gestão baseada em achismos. A gestão efetiva tem que ser feita baseados em dados reais”, aponta.

Na visão da professora Maria Cristina Bortolini, do Departamento de Estudos Especializados da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a inovação na educação parte das respostas para perguntas essenciais ao processo de ensino, como: o que está ocorrendo durante a escolarização, o que se sabe sobre o aprendizado, qual a qualidade desse aprendizado, quais as notas nas avaliações. Ela reforça ainda que a falta de direcionamento das escolas para fazer as mudanças necessárias afeta o desenvolvimento das habilidades e saberes necessários para o século 21. “Não só nossos alunos estão prendendo muito pouco sobre áreas específicas, como também eles não fazem ligações, não se posicionam criticamente nem de forma corajosa em sala de aula, buscando liderança e estabelecendo metas e prazos”, observa. Apenas 4,1% dos estudantes de Brasília que responderam à pesquisa veem relação entre o que estudam e o que vivem na prática. Menos de 55% concordam um pouco que essa relação existe e 33% discordam um pouco ou totalmente.

Para que isso ocorra, Maria Cristina destaca que a escola precisa ter o compromisso de educar permanentemente, incluindo no tempo de trabalho do professor momentos de reflexão, inclusive com os alunos, e preocupando-se com a formação desses docentes e o engajamento de toda a comunidade escolar no desenvolvimento e no cumprimento do projeto político-pedagógico (PPP). Metade dos gestores de Brasília respondeu que o projeto político-pedagógico não foi feito com a participação efetiva da comunidade escolar. O resultado global, nas cinco capitais, foi 42%. “Aqui (no PPP) está o coração, a base, a filosofia da escola”, destaca Maria Cristina.

Desenvolvimento
“A escola, hoje, não tem mais o papel de desenvolver na criança apenas o aspecto formal, da leitura, da escrita, dos cálculos mentais”, observa Marcia Fatureto, diretora pedagógica do colégio Maria Montessori, que recebe alunos até o primeiro ciclo do ensino fundamental. “Pelo contrário. A escola precisa ter esse olhar amplo, cuidar da criança como ser social que ela é e proporcionar a ela a socialização no ambiente em que vive”, completa.

Com esse objetivo, a instituição investe em formação continuada dos professores e de toda a equipe pedagógica, que participam de encontros e palestras a cada 15 dias. As avaliações abrangem a gestão interna e o desenvolvimento do estudante em sala de aula — cognitivo, intelectual, social, afetivo e psicológico.

Para a bióloga e professora de inglês Gabrielle Bley Volpe, 44 anos, mãe de Clara, 10, e Talita, 7, essa avaliação holística e a integração, estão entre os aspectos mais importante da educação das pequenas. “Eu busco uma educação que permita a elas imaginarem e criarem. Acredito que seja isso o que as pessoas mais vão precisar para lidar com as questões que estamos vivendo hoje em dia.”

Palavra de especialista

Gestão bem planejada


Os estudos revelam que uma gestão eficaz é aquela que prioriza a aprendizagem dos alunos e não mais os aspectos meramente administrativos. Uma gestão voltada à aprendizagem implica em ter como prioridades: clareza de conteúdos; material didático alinhado aos objetivos curriculares; contínuo monitoramento do desempenho escolar; corpo docente que planeje e trabalhe coletivamente para que o tempo pedagógico seja cumprido de forma satisfatória; acompanhar os professores menos experientes e dar suporte àqueles que têm dificuldades. Um gestor de uma escola eficaz acompanha a atividade do professor em sala de aula, mas não com um espírito policialesco, próprio da nossa cultura e tradição, e sim dentro de uma perspectiva colaborativa para o aprimoramento do trabalho pedagógico.

Adolfo Ignacio Calderón, professor da PUC-Campinas

 

O desafio da avaliação eficaz

Do ensino fundamental para o médio, a preocupação dos pais com relação ao conteúdo ensinado aos filhos aumenta. Mas a garantia de um ensino dinâmico, que inclua temas transversais, e de uma instituição que garanta a participação deles, também é apontada como relevante. “Acho que ter a nossa participação aliada à da escola dá segurança e os deixa mais tranquilos na hora de enfrentar a concorrência num vestibular”, afirma a dentista Cláudia Jreige, 51 anos, mãe de quatro filhos, de 16 a 22 anos.


“Inovação é a relação com os nossos alunos, a forma diferente de fazer as coisas, de despertar o interesse deles em todas as áreas”, reforça o diretor do colégio Mackenzie, Walter Ribeiro. Carlos Eduardo Oliveira, professor de química da escola, acredita que o contato com os pais e a facilidade de acesso à direção contribuem para o processo de ensino e para adotar as inovações necessárias, que, para ele, têm relação com permitir ao aluno construir e se apoderar do conhecimento que está à disposição dele. “A inovação é essa: aproveitar as dúvidas e os questionamentos que os alunos têm”, destaca.

Luis Claudio Megiorin, presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa-DF), acredita que a inovação na avaliação seja o maior desafio das escolas. A competitividade, acirrada no ensino médio em razão da preparação para exames de seleção do ensino superior, é um dos fatores apontados por ele como dificultador de uma avaliação global. Segundo ele, os pais devem ficar atentos ao que é cobrado e informar à escola sobre eventuais discordâncias. “Se o pai não fizer isso, vai tirar a oportunidade da escola de rever a forma como ela avalia.”

Para Álvaro Domingues, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sinepe-DF), toda inovação, seja tecnológica, seja na prática docente, depende de uma disposição da gestão para adotá-la. “O mais inovador, atualmente, é a prática pedagógica e, nessa esteira, vem a avaliação”, afirma. Além dessa disposição, Domingues afirma que é necessária a adoção de um modelo que facilite a adesão do corpo docente e conte com a cumplicidade dos professores. “Se antes o professor era o polo divulgador de conhecimento, hoje, ele não tem mais esse status: ele é um facilitador e promotor da aprendizagem. Ele tem que mudar radicalmente”, explica o presidente do Sinepe-DF.

O apoio da escola para levar adiante essas mudanças é a principal demanda dos professores. “As instituições não dão suporte para que os professores possam usar a inovação”, relata Trajano Jardim, diretor de Comunicação do Sindicato dos Professores em Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sinproep-DF). “Quando incluem (a inovação), a formação fica por conta do próprio professor”, completa.

 

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