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Trilhas da Educação

Crianças do Agreste aprendem com ritual do homem do campo

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postado em 02/09/2016 18:13 / atualizado em 02/09/2016 18:18

Portal MEC /MEC

Uma velha tradição na região do Semiárido potiguar era olhar para o céu com a expectativa de adivinhar o dia em que a chuva iria cair. Ou apenas na esperança de ver a terra molhada. Esse rito foi lembrado pela professora Deusineide dos Santos Nasário. Segundo ela, sua avó costumava usá-lo para prever o tempo.

 

Inspirada por essa lembrança, Deusineide foi conversar, no final de 2014, com a mãe de um dos seus alunos da Unidade de Ensino Francelino Granjeiro, no município de Pau dos Ferros, no Semiárido do Rio Grande do Norte. A mãe, agricultora, que herdara o conhecimento sobre a observação do tempo, explicou à professora o que sabia. “No dia 8, eles observavam o tempo e relacionavam ao inverno (estação seca) de janeiro. E assim eles faziam com 9, 10, 11, 12 e 13, justamente os meses de janeiro, fevereiro, março, abril, maio e junho. Um dia para cada mês.’’

 

Com o retorno às aulas, no ano seguinte, a professora decidiu pôr em prática com os alunos um projeto sobre a previsão das chuvas no campo à luz do olhar do agricultor. As atividades começaram no segundo semestre de 2015 com a turma multiano — a professora trabalha simultaneamente com alunos do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental.

 

Para dar início às atividades, Deusineide buscou inspiração em músicas e fábulas capazes de motivar a produção textual e aguçar a criatividade e a curiosidade dos alunos. Eles deveriam perguntar em casa como os pais ou avós faziam para prever as chuvas. E foi surpreendida por muitas histórias, a exemplo do episódio relatado pela trabalhadora do campo. “Além dessa que a agricultora dissera, veio a da pedrinha de sal”, diz a professora. “Eles colocam seis pedrinhas de sal, na Noite de Santa Luzia; cada pedrinha é referente a um mês. Aí, a pedrinha que amanhecer mais úmida indica por que vai ter inverno (chuvas).”

 

Com base nas experiências relatadas, a professora pediu aos alunos que fizessem, eles mesmos, a previsão do tempo. Os estudantes foram orientados a ter em casa um pluviômetro, instrumento que mede a quantidade de chuvas, e observassem o tempo durante as férias. No início do atual ano letivo, as atividades do projeto tiveram continuidade. Mas o objetivo da professora, no entanto, nunca foi o de comparar a previsão dos agricultores com a chuva que realmente caíra no inverno nordestino.

 

“O primeiro objetivo, de comprovar as experiências ditadas pela tradição, foi deixado de lado”, afirma a professora. “Se fizéssemos isso, tiraríamos a magia do senso comum do homem do campo.”

 

Assim, o objetivo geral passou a ser a valorização do modo de observação dos agricultores.

 

Para encerrar o projeto, Deusineide promoveu uma apresentação, com músicas e peça de teatro, aberta a toda a comunidade escolar, incluídos os pais das crianças. No final, a surpresa. “As crianças estavam se apresentando e cantavam: ‘Queremos chover! Queremos chover!’ E choveu, já no começo de julho.”

 

De acordo com a professora, os agricultores sugeriram que as crianças dançassem todos dias. “Para ver se chove todo dia para a gente plantar.”

 

 

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