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Correio Braziliense

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DF sem avanços no Ideb

Brasília está entre as três unidades da Federação que não alcançaram sequer a meta estipulada para os anos iniciais do ensino fundamental. Situação é ainda mais preocupante no ensino médio, em que 15% dos estudantes estão no nível zero de proficiência

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postado em 09/09/2016 14:21 / atualizado em 09/09/2016 14:31

Ana Paula Lisboa

Em 2015, o Distrito Federal não cumpriu nenhuma das metas estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC) para o desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Brasília ficou entre as três unidades da Federação que não alcançaram sequer a meta para os anos iniciais do ensino fundamental — faltou um décimo para que a capital alcançasse o patamar programado, de 6,1. Já nos anos finais, os estudantes brasilienses alcançaram uma média de 4,5 — 0,6 ponto abaixo do esperado. No ensino médio, o indicador ficou meio ponto abaixo da meta, em 4 pontos. A escala vai de zero a 10.

Questionado sobre os motivos do desempenho ruim, o secretário de Educação do DF, Júlio Gregório Filho, afirma que os resultados estavam abaixo das metas já em edições anteriores — em 2013, o patamar ideal foi atingido na rede pública e, na média geral, apenas no 5º ano do ensino fundamental. “As provas foram aplicadas em 2015, sem grandes possibilidades de transformação do sistema de ensino na nossa gestão, num período em que a rede pública estava em greve, o que prejudicou bastante, pois o clima não era de normalidade”, comenta. A Prova Brasil, cuja nota compõe um dos indicadores do Ideb, além de aprovação e evasão, foi aplicada em novembro de 2015. Os professores entraram em greve em 15 de outubro e saíram em 12 de novembro.

Cleber Ribeiro Soares, diretor de Imprensa do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro/DF), não comentou os resultados do Ideb, mas analisou as causas para a baixa performance das escolas locais. “A greve não deve ser o único indicador considerado. É fundamental avaliar as condições oferecidas no processo de aprendizado. Se você não dá as condições ideais, não terá bons resultados”, diz, ao listar problemas da educação básica pública na capital, como falta de materiais e de locais apropriados para estudo, além de atrasos em repasses de recursos.

“Falta investimento e seriedade na educação pública, e a sociedade não suporta mais a distância entre o discurso de quem está no poder e a realidade, que é a falta de investimento e o cuidado. Nós temos um corpo de docentes extremamente comprometido com a educação pública, mas desvalorizado pelo Governo do Distrito Federal”, reclama o professor, que integra o quadro de profissionais da Secretaria de Educação há 23 anos.

Mudança estrutural
A proficiência dos estudantes do DF em português e em matemática é outro dado que preocupa. No ensino médio, 15% deles estão no nível 0 de capacidade nas duas disciplinas, em uma escala que vai até o nível 10. Quase 80% não chegaram à metade da escala em matemática — estão entre os níveis 0 e 4. Nos anos finais do ensino fundamental, 77% dos estudantes que participaram da avaliação se encontram nesses mesmos níveis.

Para o secretário de Educação, Júlio Gregório, mais que estabelecer rankings, o Ideb deve servir para estimular uma reflexão com professores e coordenadores em prol de melhorias e buscando atender o interesse dos alunos. “O sistema atual é defasado e agressivo para o estudante e para o professor, e eles não estão aguentando: o docente adoece, e os discentes não são atraídos pelo que é oferecido e saem — daí a alta evasão”, avalia. Os percentuais de reprovação também são elevados. “É preciso rever um sistema que produz mais de 30% de reprovados. Não é necessário facilitar ou diminuir o nível, mas pedir conhecimentos que gerem interesse e façam sentido para que as pessoas cheguem preparadas ao mercado de trabalho.”

A proposta de Júlio Gregório é condizente com a do ministro da Educação, Mendonça Filho, que defende uma grande reforma no ensino médio, para reverter o mau desempenho e a evasão escolar. Luis Claudio Megiorin, presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF), se posiciona ceticamente quanto às mudanças propostas por Mendonça Filho. “Eu sou favorável à reformulação, mas não é por aí. Se o ensino médio está ruim, é porque o ensino fundamental não é bom. É preciso mexer em toda a estrutura, alfabetizar a criança na idade certa”, observa. O topo do ranking das melhores escolas públicas do DF nos anos iniciais e finais do ensino fundamental ficou com colégios militares (veja o quadro). O sistema não gera lista de classificação para o ensino médio nem para colégios particulares.

Escala de proficiência

Os dados são da última edição do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), divulgados ontem. O cálculo da nota é feito a partir dos resultados da Prova Brasil e da Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb). Em cada etapa do ensino, ela é dividida em 10 níveis. Quanto maior o nível, melhor a proficiência do estudante naquela disciplina e maior o número de pontos que ele alcança — no ensino médio, pode chegar a 425 em português e 475 em matemática.

 

Escolas privadas
As escolas particulares do Distrito Federal nunca atingiram metas estabelecidas pelo Ideb. No ensino médio, a performance foi um ponto abaixo do ideal, ficou em 5,6. Nos anos finais do ensino fundamental, a disparidade foi de 0,9 ponto. Nas séries iniciais do ensino fundamental, a diferença foi a menor: de 0,2, registrando uma média de 7,1. Luis Claudio Megiorin, presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF), acredita que, entre as 482 escolas particulares registradas na Secretaria de Educação do DF, há cerca de 20 de grande porte e bom desempenho. “O resto é um fiasco”, critica.

No entanto, ele analisa que a falta de transparência do MEC ao aplicar o Ideb na rede particular é um problema. “É preciso que a avaliação seja feita de forma censitária, como nas escolas públicas. Se não, os pais investem nos colégios no escuro”, percebe. Nessa rede, a coleta de dados é feita por amostragem. “O pensamento geral é o de que, se é escola particular, o ensino é bom, mas não é assim. Entre os destaques no Ideb, está uma escola pública em Sobral (CE), com pontuação 9,8. Sinceramente, não sei se teríamos alguma escola particular aqui com uma performance assim.”

Realidades distintas
Para o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino no Distrito Federal (Sinepe/DF), Álvaro Domingues, o fato de as escolas públicas terem alcançado metas do Ideb e as particulares nunca terem chegado lá não quer dizer que as primeiras sejam melhores. “É complexo comparar escolas públicas e particulares, pois são amostras e realidades distintas. A escola privada tem um público e um modo de gestão diferentes, específica para cada gestor, o que torna a meta mais desafiadora. Não há uma unidade como na escola pública: cada escola é dirigida segundo o seu gestor”, afirma.

Ele acredita que o surgimento de escolas particulares de pequeno porte nos últimos 10 anos em áreas menos favorecidas, como Samambaia e Recanto das Emas, que oferecem uma estrutura menos eficiente, podem ter impactado o desempenho no Ideb. “Essas instituições cobram pouco, o que sugere menor investimento no aluno. Algumas cobram R$ 450 por estudante, quase metade do que o estado paga por aluno, que é uma média de R$ 800”, compara.

Palavra de especialista - O que falta ao ensino
A evolução (no ensino fundamental) e a manutenção (no ensino médio) nos índices nacionais, mesmo sem cumprir metas, é resultado de um esforço contínuo do governo, que começou com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), depois com o ensino fundamental de nove anos e, em 2009, ganhou impulso com a obrigatoriedade de o Estado prover educação dos 4 aos 17 anos. No DF, houve uma priorização histórica do ensino fundamental em detrimento do ensino médio e, só agora, estão começando a direcionar os esforços. O orçamento da educação é maior na capital federal do que nos estados, por consequência, deveríamos ter os melhores índices de ensino. Então, temos que investigar a fundo e entender de onde vem essa discrepância. Agora, nós temos o Plano de Educação do Distrito Federal (PDE), que foi aprovado no ano passado. É preciso usá-lo como guia e buscar atingir as metas estipuladas. No que se refere à rede particular, os pais também devem ficar de olho no desempenho dos colégios. Apenas colocar o aluno em uma escola privada não garante sucesso: é preciso cobrar evolução.

Remi Castioni, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB), especialista em políticas públicas

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