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Correio Braziliense

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Julia Tolezano, a youtuber JoutJout, em conversa com o Eu, Estudante

Confira entrevista com a youtuber e aproveite para abrir a cabeça sobre as possibilidades de escolha de uma profissão - afinal, como no caso dela, o caminho não precisa ser tradicional

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postado em 20/10/2016 21:28 / atualizado em 22/10/2016 16:29

Caio Franco/Divulgação

Você sabe quem é Julia Tolezano? O nome da fluminense de Niterói de 25 anos pode não lhe parecer incomum. É mais provável que você conheça o nome pelo qual ela se popularizou na internet: JoutJout. No YouTube, ela tem mais de 1 milhão de seguidores no canal JoutJout Prazer, criado há dois anos e meio. Formada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), a youtuber nunca atuou na área, mas fez da plataforma de vídeos sua profissão.


Nos clipes, JoutJout fala de tudo um pouco: desde indagações sobre a vida, relacionamentos e o clássico amigo oculto no Natal a produções musicais de funk. O debate já tangenciou questões sérias como feminismo e racismo, mas frequentemente gira em torno de atividades do cotidiano, como lavar a louça. Tudo isso de forma autêntica e descontraída, sem papas nas línguas.


Nesta sexta-feira (21), ela estará no Colégio Marista Brasília Ensino Médio, junto a Ivys Urquiza, youtuber do canal Física Total, para um bate-papo sobre carreira com jovens prestes a fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e vestibulares. A palestra é gratuita e aberta ao público externo do colégio, mas é preciso se inscrever previamente pelo link. Dos 440 lugares, metade vai para os alunos do Marista e metade para a comunidade em geral.

Confira entrevista exclusiva da JoutJout para o Eu, Estudante:

Qual será o teor da palestra no Marista?
Eu e o Ivys (Urquiza), do Física Total, vamos falar das nossas experiências, que são muito diferentes, de épocas e lugares diferentes do país. Será uma forma de acalmar os corações da galera que está começando a fazer vestibular e escolhendo profissão, porque é um momento tenso, mas não precisa ser tão tenso assim. Eu sempre fui muito desesperada quanto a saber o que queria ser quando crescer. Eu vivia estabelecendo mil metas. Eu alcançava as metas que queria e depois falava que não era nada disso que eu queria, ficava em crise, toda bagunçada, toda confusa. Foram épocas assim de uma Julia muito confusa, sem saber o que queria mesmo. A gente acha que sabe o que vai acontecer mas, na verdade, embora tenha muito de esforço e de planejamento, tem também muita coisa que acontece que você não planeja.

O mundo do trabalho está passando por muitas mudanças, e surgem opções de carreira. Sua trajetória é um exemplo disso. Que dicas você daria para quem se identifica com essa situação?
É difícil isso porque, hoje em dia, a sensação é a de que todo mundo tem que trabalhar numa ONG, no Google, num lugar que faça diferença no mundo inteiro e que mude a vida das pessoas o tempo todo. Acho que essa visão, além de romântica, é uma pressão que não precisa existir. É lógico que é ótimo se você puder fazer mudanças positivas para o mundo e as pessoas ao seu redor, mas o mundo é grande demais. Às vezes, se você fizer um excelente trabalho e as pessoas ao seu redor forem as pessoas que trabalham com você, isso já é mudar o mundo de certa forma, é mudar ao seu redor.

Como você vê a geração Y?
Eu acho que a gente anda bem desesperado. É uma geração ansiosa e aflita porque sofre uma pressão muito grande. Tem muita história de gente que largou tudo e foi ver o mundo de carro, fez um blog, fez um aplicativo e ficou riquíssimo aos 20 anos. Todo mundo quer ficar riquíssimo aos 20 anos mudando a vida das pessoas. É complicado. Além da pressão dos pais, da família, existe uma pressão pessoal ainda maior, então é um troço que complica a cabeça da gente.

 

Antes de o canal deslanchar, quais eram seus planos profissionais?
No início, quando eu estava no ensino médio, queria trabalhar com produção editorial e ser paga para ler livros. Era a imagem romântica que eu tinha. Consegui isso, trabalhei nisso e, um dia, falei: “Gente, de onde eu tirei essa ideia maluca de que eu queria ficar trabalhando em editora se eu não gosto de editora?” Fiquei pulando de emprego em emprego, um mais louco que o outro, um mais diferente que o outro, e me formei. A ideia que eu tinha é que iria me formar, já empregada, riquíssima, morando fora da casa dos pais, toda independente. Mas não foi nada disso que aconteceu. Eu não tinha um tostão, estava desempregada, ainda morando na casa dos meus pais e não gostei da faculdade que fiz. Fiquei desesperada tentando fazer outros cursos. Fiz redação publicitária que também não era minha cara e, durante esse período, comecei a fazer os vídeos. Teve uma hora em que percebi que o curso estava atrapalhando meus vídeos; então, larguei e fiquei só com o YouTube.

Quando você começou a se dedicar estritamente ao canal?
Foi em maio de 2014. Tive o privilégio de fazer isso, porque meus pais podiam me bancar. Depois de três ou quatro meses em que me dediquei só a isso, eu passei a ganhar dinheiro. Após nove meses, consegui fazer meu primeiro merchan(dising) e ganhar dinheiro realmente. Foi aí que passei a ser independente, o que eu queria desde o início.

Quando você começou o canal, tinha a pretensão de transformá-lo em profissão?
Eu não tinha uma pretensão de nada, só queria colocar alguma coisa que eu havia produzido no mundo. Eu tinha muito medo de as pessoas não gostarem do que eu faço, e isso me impedia de fazer as coisas. Uma hora pensei que devia perder esse medo e fiz o canal.

Como o canal funciona? Existem temas definidos?
Falo sobre o que eu quero falar, sobre os assuntos que eu quero falar naquela semana. Coloco os vídeos terça e quinta, falo sobre os assuntos do meu jeito sem roteiro, sem nada, só observações da vida.

A que você credita o sucesso do seu canal?
À naturalidade. O feedback que as pessoas dão normalmente é que fica a sensação de que somos muito amigos e que a gente está conversando numa mesa de bar. E você vê que não é só com você que acontece aquele tipo de coisa. Você se sente representado de certa forma. Tem muita gente que se sente, mas tem gente que não se sente - é natural. Mas tem muita gente que se sente abraçado pelo vídeos. E compreendido e fala: “poxa, não tô sozinho nesse pensamento e nesse costume que tenho de fazer sei-lá-o-quê”.


Quais vídeos fazem mais sucesso?
Os de empoderamento - seres humanos em geral - ou os funks que invento. Como estamos em débito com as mulheres, os vídeos de empoderamento acabam sendo muito femininos, porque as mulheres não estão lá muito empoderadas. Então elas acabam sentindo mais esse impacto. Mas não é, tipo, para que apenas as mulheres se sintam bem. É para as pessoas no mundo se sentirem bem.

Você percebeu que você era feminista por meio do canal? Como foi esse processo?
Começaram a falar, querida você é feminista. Aí eu falava “ih, não, sem levantar bandeiras, nem nada.” Mas fui estudando porque as pessoas apontavam tanto isso. Quando eu pesquisei, percebi: “gente, mas está certíssimo esse apontamento, é isso mesmo”. E aí, abracei.

Existe a demanda de pautas como feminismo e racismo pelo seu público?
Eu nunca fiz um vídeo sobre feminismo. Eu nunca falei “feminismo é isso”. Mas mesmo fazendo um vídeo sobre como lavar a louça ou como amarrar os sapatos, vai ter feminismo ali porque ele está em tudo, ele está exalando. Então, mesmo que você não vá lá procurando isso, isso meio que bate de alguma forma em você. E as pessoas também vão muito no canal procurando isso também porque já sabem que vão encontrar lá.

Como é sua interação com o público?
Eu não sou a melhor pessoa de redes sociais. Sou meio relapsa com isso. Mas vejo muito sobre o que as pessoas estão falando. Às vezes, eu peço tema, então eu sei mais ou menos o que elas querem. Não que isso vá pautar totalmente os vídeos. Não tem como eu falar sobre algo que as pessoas querem que eu fale, mas que eu não sei ou não quero falar. Eu realmente tenho que querer muito falar sobre aquele tema para eu poder falar com propriedade. Mas super rola uma interação.

Quem é o seu público?
Todo mundo. Tem para todo mundo. As análises que o Google dizem que mulheres de 18 a 35 anos. Mas, às vezes, um senhorzinho me para na rua para me falar: “Olha, eu vejo seus vídeos. Eu que mostrei pros meus filhos”. Tem desde crianças de 10, 12 anos até senhores de 70 e poucos anos. Tem para todo mundo, mesmo.  

Que oportunidades vieram a partir do canal no YouTube?
O que eu mais ganhei com o canal foi um empoderamento incrível. Fui colunista da Cosmopolitan, escrevi livro, viajei para mil lugares, conheci pessoas incríveis. Mas o que mais ganhei foi a chance de conhecer pessoas incríveis, o que abriu muito a minha cabeça. Ver que o mundo vai muito além da minha bolhinha.

Você é do Rio, mas se mudou para São Paulo há cerca de quatro meses. O que está achando da mudança?
Deu maior vontade de morar em São Paulo. Tem mais um choque de não ter um horizonte, você olha e vê mais prédio, prédio prédio. Não tem mar, um lago, um rio, uma montanha. Mas tudo bem, também, é outra vivência e estamos abertos para isso.

 

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