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Pesquisadoras comentam sobre políticas públicas na primeira infância

Simpósio em Recife (PE) reúne 450 pessoas para discutir o tema "Primeira infância como prioridade absoluta"

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postado em 07/11/2016 18:39 / atualizado em 09/11/2016 11:09

Ana Paula Lisboa

Fabiano Alves / Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

Durante o VI Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância, que começou nesta segunda-feira (7), em Recife (PE), a brasileira Marcia Castro, pesquisadora da Universidade de Harvard, e a equatoriana Maria Caridad Araújo, economista chefe de Proteção e Saúde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), falaram sobre o desenvolvimento da primeira infância na diversidade e em contextos de vulnerabilidade.


Marcia Castro, professora associada de demografia na na Escola de Saúde Pública T. H. Chan da Universidade de Harvard, destacou que diversos fatores influenciam a primeira infância, como a família, a comunidade e os contextos do país e do mundo. “Todos esses são aspectos que diferem para cada criança. Por isso, não existe um pacote único para solucionar os problemas da primeira infância”, alertou a membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), promotor do evento.

 

“Não dá para se falar em Brasil sem falar de desigualdade e, para superar o círculo vicioso de desigualdade, a principal solução é focar no começo da vida”, defendeu Marcia Castro. Pela grande quantidade de realidades existentes no Brasil, ela sugere que não é possível aplicar um formato único no país. “Mas talvez possamos ter uma estratégia nacional com modelos que se diferenciam dependendo do contexto.” Na concepção dela, uma boa política pública voltada à primeira infância deve valorizar e incentivar o aleitamento materno e diferentes formas de estimulação no começo da vida - sem esperar que a criança chegue à idade escolar para ser estimulada.

 

Pesquisadora de Harvard se posiciona contra o congelamento de gastos públicos

A pesquisadora de Harvard se manifestou contra a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 241 e criticou o fato de educação e saúde serem sempre os primeiros tópicos em que se pensa em fazer cortes. “Não é aceitável congelar os gastos públicos com isso por 20 anos. Isso vai prejudicar e muito a área social. Vimos isso na década de 1980, e o final não foi feliz”, afirmou Marcia Castro.

 

A professora ainda defendeu ações para que o Marco Legal da Primeira Infância saia do papel e seja realmente aplicado. “As ações em prol da primeira infância não podem ficar apenas com saúde, educação e assistência social. É importante envolver diferentes setores - como estrutura urbana, transportes, agricultura”, acrescentou.

 

Experiência peruana

A equatoriana Maria Caridad Araújo, economista chefe de Proteção Social e Saúde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), trouxe ao público detalhes sobre a experiência de um projeto exitoso do Peru: Servicio de Acompañamiento a Familias (SAF) do programa Cuna Más, lnçado em 2013. A iniciativa é focada em famílias com crianças vivendo em zonas rurais dispersas e em condições precárias. “Mesmo que exista um centro de cuidados, famílias pobres dessas localidades precisariam assumir o custo de se deslocar até lá - o que se torna muito difícil. É por isso que a iniciativa assumiu para si o custo do deslocamento ao passar a oferecer visitas familiares”, explicou.

 

De acordo com Maria Caridad, as lacunas de desenvolvimento infantil são muito grandes na América Latina e no Caribe, em que há muitas diferenças entre os progressos dos grupos de meninos e meninas mais pobres e mais ricos. “No Peru, no grupo de crianças de 4 anos na zona rural, essa lacuna é enorme. Poderia-se pensar que a escola poderia preencher essas lacunas, mas é preciso resolver isso desde antes”, disse sobre o porquê de o programa focar na fase pré-escolar. Em 2015, o SAF chegou a 82 mil crianças em 580 distritos no país.

 

O projeto se baseia num programa bem avaliado da Jamaica, com visitas semanais com duração de uma hora, implementadas por facilitadoras da comunidade que receberam uma formação, acompanhadas de um acompanhante técnico duas vezes por mês. Durante a visita, são estimuladas brincadeiras específicas para desenvolver uma relação saudável entre mãe e filho e implementar o brincar na rotina da família, especialmente brincadeiras que estimulam o aprendizado. “Tudo isso resulta num melhor desenvolvimento infantil - em aspectos cognitivo, socioemocional, de comunicação entre outros. O que prepara melhor as crianças para a escola”, destacou a economista do BID. “O governo sabia que não seria possível levar o programa a todo o público de uma vez só - por isso, houve um grupo de controle inicial, e grupos que receberam o atendimento posteriormente.”

 

Dois anos após o início do projeto, as crianças foram avaliadas por meio do Questionário de Idades e Fases (ASQ 3) e foram registradas melhorias que variam de 9% a 12% em comparação com a parcela de crianças que não participaram do SAF nas seguintes habilidades: resolução de problemas, comunicação, motricidade e desenvolvimento pessoal e social. “O SAF também ajudou a diminuir lacunas entre os grupos mais ricos e os mais pobres”, apontou.

 

“O custo do programa é de US$ 300 por ano por criança. A cada dólar investido, tem-se um retorno que supera US$ 3,2 - sendo mais pragmáticos, sem considerar uma série de ganhos que não é possível contabilizar. O Cuna Más consegue mudar hábitos das famílias que estão arraigados na sociedade. É uma estratégia que pode ser usada para promover mudanças em outras áreas, como a da saúde”, observou Maria Caridad.

 

* A jornalista viajou a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

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