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Correio Braziliense

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Alunos com altas habilidades recebem assistência especializada de programa da Secretaria de Educação, que completa 40 anos em 2016. Educadores alertam para acompanhamento desde a infância

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postado em 06/12/2016 21:21 / atualizado em 06/12/2016 21:29

Minervino Junior

Em frente à tela do computador, Augusto César Theodoro Miguel, 11 anos, pesquisa sobre ilusão de óptica. “Um dos temas que mais gosto. Mexe com os sentidos e a mente humana”, justifica, com os olhos vidrados. Dali, ele sai e mostra a máscara que fez com jornal e um quadro com imagens do fundo do mar. As atividades são desenvolvidas na sala de artes do Atendimento Educacional Especializado ao Aluno com Altas Habilidades/superdotação em uma escola da rede pública do Guará. Há seis anos, Augusto faz o acompanhamento. “Ter altas habilidades é uma responsabilidade. As pessoas acreditam que você é inteligente demais e sabe tudo, mas não é assim. Gosto de tentar as coisas”, afirma o menino.

Tendência ao questionamento, vocabulário detalhado e além do esperado para idade, alto potencial criativo e rapidez de raciocínio são algumas das características das crianças avaliadas com altas habilidades. “Uma vez, o Gabriel me fez uma pergunta que não soube responder, e ele disse: “Mas, mãe, você cresceu já faz tempo”, conta, aos risos, Maria do Carmo Dionísio, 52. Ela é mãe do pequeno Gabriel, 10. O menino aprendeu a ler antes dos 3 anos e começou a chamar a atenção da família e até de desconhecidos ao usar palavras que não eram comuns para a faixa etária. “A gente ia em festa de aniversário, e as pessoas perguntavam se eu já tinha levado o Gabriel a um neurologista”, relembra a mãe. “A cobrança da sociedade é grande. É muita coisa para a cabeça da mãe, que não entende. A gente cria o nosso filho para ser igual às outras crianças.”

 

Minervino Junior
Se Gabriel está lendo um livro e a família, conversando ou com a televisão ligada, ele está atento a todos os movimentos. “Eles têm uma antena que a gente não usa”, descreve Maria do Carmo. E até a bronca tem de ser diferente. “Aprendi que ter uma conversa séria com ele funciona”, explica. “Uma conversa pode resolver vários problemas”, ensina Gabriel. Para o aluno, ter altas habilidades significa se encontrar com outras crianças como ele e fazer atividades que gostam. “Tenho uma memória fotográfica, sou bem inteligente, sei falar e cantar em inglês”, comenta ele, sobre seus talentos. E acrescenta: “Na verdade, não aprendi com ninguém. Com o tempo, fui vendo e aprendendo bem rápido.” Foi assim que ele descobriu o cinema e se encantou. Aos 10 anos, sonha ser cineasta. “Via que podia emocionar, rir, ficar assustado, se envolver no filme como uma relação pessoal”, detalha.

Preocupações
Os relatos de outras mães são semelhantes. O dia a dia é o mesmo, bem como as angústias. A nutricionista Vanessa de Almeida Batista, 33, acabou de chegar ao atendimento especializado com o filho Bernardo, 7. “Quando me chamaram na escola dizendo que ele precisava pular de série, aquilo me chocou”, lembra Vanessa. Com 2 anos e meio, o menino falava tudo e contava sobre o mundo que o cercava. A leitura veio sozinha. Se algum colega do colégio chama o menino de “Benado”, ele não responde. “Mãe, meu nome é Bernardo”, conta ela.


No entanto, além de altas habilidades, o filho de Vanessa é diagnosticado com hiperatividade (leia Para saber mais). “O que complicada ainda mais. Na escola regular, eles se incomodam, porque os outros alunos não estão no mesmo ritmo dele. Ele termina a tarefa primeiro. Responde as perguntas. Uma vez, ele chegou contando que a professora disse que todos podiam responder, menos o Bernardo”, relata a nutricionista. Para o menino, a aula foi chata, porque não pode participar.
Francisca Souto, 45, também questiona o sistema de ensino. Ela é mãe de Lucas, 9, e não admite que o filho decore fórmulas, conceitos ou qualquer conteúdo. “Fico muito triste quando vejo que ele acerta uma questão na prova, mas, por ter um raciocínio diferente do esperado, a professora dá um meio certo”, lamenta.

 

AHPHS/Divulgação
 

Estudantes com altas habilidades tendem a se cobrar muito e, consequentemente, têm dificuldades para lidar com a frustração. “Ele não tira só 10. Isso é um mito”, complementa Francisca. A mãe também se sente culpada por ter demorado para perceber o talento de Lucas. “Tudo o que ele apresentava eu achava normal de criança. Não me chamava a atenção. No ano passado, quando fui a uma psicopedagoga, ela, na hora, disse que o Lucas era superdotado”, relata.


AHPHS/Divulgação

 

A empresária Mariath Oliveira, 47 anos, passou por situação similar em casa. Depois do primeiro filho nascer com altas habilidades, ela não esperava que o segundo também seria assim. “Quando o mais velho foi estudar tabuada com o mais novo, ele voltou dizendo que o Endel já sabia tudo”, relembra. O livro que o menino lia era o dicionário, de maneira sequenciada.


AHPHS/Divulgação

 

Ezguiakin de Oliveira tem 22 anos, é formado em química e faz licenciatura para ser professor. Ele fala inglês, espanhol e turco. O irmão, Endel Lucas, 11, faz o acompanhamento especializado. “A gente ouve muitas comparações, as pessoas dizendo que seu filho é melhor do que os outros”, desabafa a mãe. Esses comentários acabam fechando a criança ou o adolescente no próprio universo de suas habilidades, o que pode ser prejudicial.

 

Para saber mais

Dupla condição
Crianças ou adolescentes com altas habilidades também podem ter outros diagnósticos, como Transtorno do Deficit de Atenção (TDAH), síndrome de Asperger, autismo, entre outros. É o que se costuma chamar de dupla condição. Nesses casos, o estudante faz dois acompanhamentos, um para cada caso. Neste ano, o atendimento da Secretaria de Educação completa 40 anos. Ele atende crianças a partir dos 4 anos que saibam ler e escrever. Ali, os estudantes convivem entre pares e lidam com competição e desafios de uma forma diferente, além de terem as habilidades estimuladas. Também em 2016, a Associação de Pais, Professores e Amigos dos Alunos com Altas Habilidades/Superdotação do Distrito Federal completa cinco anos. Ela foi criada para ajudar a construção de políticas públicas para altas habilidades/superdotação.

 

Quatro perguntas para

Maria José Vieira Borges, psicóloga do Atendimento Educacional Especializado ao Aluno com Altas Habilidades/
superdotação — equipe do Guará


Como é o atendimento?
Ele é considerado um atendimento suplementar ao ensino regular. É um espaço para desenvolver e potencializar a habilidade que o estudante já demonstra, seja na área acadêmica, seja algum talento, como artes visuais ou cênicas. Funciona uma vez por semana, no horário contrário ao da escola. A criança pode ser indicada pela própria família, pela escola, por amigos, ou mesmo pela própria criança. A maioria vem com o encaminhamento do professor do ensino regular. Ele preenche uma ficha e nos encaminha, descrevendo tudo o que observa de altas habilidades, de surpreendente. A partir desse momento, o aluno passa por um período de observação, que varia de quatro a 16 semanas. Nessa avaliação, vamos verificar o que, dentro da metodologia de três anéis, ele se encaixa. Se ele tem inteligência geral acima da média, se tem um nível de criatividade de excelência e se tem um envolvimento com a tarefa que faz maior. Desta análise, temos o perfil das características dessa criança. Ela é efetivada no programa ou não e, se sim, permanece conosco até completar o ensino médio.

O que define uma criança com altas habilidades/superdotação?
Ela apresenta capacidade cognitiva acima da média, rapidez de raciocínio surpreendente, aprende de forma rápida, tem prazer maior ao estudar, apresenta desde pequeno uma precocidade. Além disso, tem talento diferenciado para o desenho, para a escrita, um alto nível de criatividade, apresenta respostas diferenciadas e inusitadas e um vocabulário avançado. São essas diferenças que vão aparecendo tanto para a família como para a escola regular.

Existe alguma dificuldade para trabalhar com essas crianças?
Como profissional, não vejo dificuldade. Considero que são crianças boas de se trabalhar. São alegres, sensíveis, preocupadas com o outro, com o meio ambiente. Agora, os pais vivem essa dificuldade de uma maneira mais presente. Os mitos sociais, a falta de preparo das escolas. No fim do ano, é comum os responsáveis buscarem orientação para trocar o filho de escola. Essa criança sempre quer mais e, muitas vezes, fica ociosa em sala de aula, pode ser vista como hiperativa, por exemplo.

Existe alguma implicação caso um aluno com altas habilidades não seja acompanhado ainda na infância?
O prejuízo maior é que essa criança perde tempo de ser trabalhada, ajudada para canalizar a inteligência dela. Pode ficar um adulto que não se define, não define a profissão. É muito capaz, muito inteligente, mas pode acontecer de não se definir. Não é regra. O prejuízo maior é para a própria sociedade, que perde essa capacidade, esse recurso humano que pode ser utilizado para o desenvolvimento social. Esse adulto se enxerga como inteligente, capaz, mas não teve a ajuda, fica mais introvertido, tem mais dificuldade de lidar com as frustrações. Quanto mais cedo o atendimento, melhor. No entanto, também recebemos adolescentes.