EDUCAÇÃO »

Aluno de Planaltina denuncia humilhação

A polícia e a Secretaria de Educação investigam vice-diretor que obrigou garoto de 13 anos a voltar descalço para a sala de aula. Gravação mostra o menino chorando

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 07/12/2016 21:33

Morador de uma casa simples no bairro Arapoangas, em Planaltina, João (nome fictício), 13 anos, parecia ainda não entender a situação que havia vivido na tarde da última segunda-feira. O garoto estuda no Centro de Ensino Fundamental Arapongas (Cefa) e teve a imagem viralizada na internet em um vídeo no qual aparece chorando, de cabeça baixa. A cena gravada seria resultado de humilhação causada pelo vice-diretor da instituição, Jordenes Ferreira da Silva, que recolheu as sandálias do aluno no intervalo e o obrigou a voltar para a sala descalço, enquanto era alvo de chacotas de colegas.


O caso chegou à 31ª Delegacia de Polícia (Planaltina), depois de informado ao Conselho Tutelar. O vice-diretor prestou depoimento e foi liberado. Na manhã de ontem, a família de João recebeu o Correio em casa. “Fiquei descalço no intervalo, porque estava brincando de futebol com uma bolinha de papel. Estava com a sandália na mão. Aí, coloquei no chão para calçá-la e, nesse momento, o Jordenes pisou no meu pé e levou a sandália para a direção. Quando tentei pegar de volta, ele disse que, já que eu gostava tanto de andar descalço, que eu fosse para a sala assim mesmo”, conta. O menino chorou ao ouvir as risadas dos alunos. “Fiquei com muita vergonha. Assim que cheguei à sala, abaixei a cabeça e fiquei chorando, mas os meus amigos me defenderam e falaram para eu não ficar triste.”


Jordenes trabalhou normalmente ontem. João ficou em casa. A mãe, Lúcia (nome fictício), 32, ainda se recupera do susto que levou ao receber a visita do Conselho Tutelar. “Eles chegaram aqui falando que iríamos para a delegacia devido uma situação que o meu filho havia passado. Fiquei assustada. O que mais me revolta é que a direção nem entrou em contato para me avisar”, reclama. Segundo a mãe, o colégio nunca proibiu o uso de sandálias. “Eu quero conversar com o vice-diretor, entender o que aconteceu. Nunca tive problemas com a escola, ao contrário.” O Cefa oferece ensino em tempo integral, com aulas das 7h às 17h30. Jordenes trabalha na instituição há 18 anos e será o diretor da gestão que começa em janeiro de 2017.


A chefe da Corregedoria da Secretaria de Educação, Mônica Gondim, informou que o vice-diretor Jordenes não tem nenhuma conduta inadequada registrada no órgão. “Ele possui um histórico funcional muito bom, mas, no dia do acontecido, instauramos um procedimento de investigação preliminar. Se conseguirmos levantar todos os dados, na próxima semana poderemos instaurar um Procedimento Administrativo Disciplinar”, afirma. Se ficar provado que o professor cometeu excessos, será aplicada uma punição, que varia de suspensão de até 90 dias à perda do cargo.


A diretora da escola, Eunice Correia, contou que estava no almoço durante o incidente. “Não tinha conhecimento do episódio. No meio da tarde, os conselheiros tutelares chegaram à escola e retiraram o João e mais dois alunos da sala, dizendo que os levariam à delegacia”, detalha. Eunice tentou impedir, pois os conselheiros não explicaram o problema. “Eles tiraram o celular do bolso e começaram a gravar tudo. Só quando o Jordenes chegou eles informaram o ocorrido, deram voz de prisão a ele e o acompanharam à delegacia”, diz.


O vice-diretor é descrito na secretaria como funcionário equilibrado e rígido. “Sempre foi muito esforçado, é um dos pilares mais importantes da escola. Até então, nunca havíamos passado por situação parecida com o Jordenes”, diz Eunice. Pais de estudantes e ex-alunos, no entanto, discordam da diretora. “Ele é um tirano. Destratou os filhos de vários vizinhos, sempre querendo ensinar na base da humilhação”, conta um morador que preferiu não se identificar. Um adolescente de 13 anos revela que foi suspenso pelo vice-diretor porque assobiou em sala de aula. “Ele briga por tudo. Se chegar um minuto atrasado, ele manda voltar.”. Segundo João, Jordenes é provocador. “Ele coloca apelidos em vários alunos”, critica.
A defesa do vice-diretor

Na 31ª DP, Jordenes contou à polícia que, na tarde de segunda, os alunos saíram para almoçar e, na volta para a sala, ele viu que João chutava uma bola feita de papel e fita crepe, “promovendo algazarra e instigando os demais”. Ao perceber que o garoto estava descalço,  advertiu. Na versão dele, como o menino não parou de fazer bagunça, ele recolheu os chinelos e recomendou que fosse à sala da vice-direção para que conversassem e, assim, devolvesse o calçado. Consta na ocorrência que “o aluno não quis ir até a direção e voltou para a sala de aula descalço”. O Correio não conseguiu contato com Jordenes.
 
Colaborou Luiz Calcagno

* Estagiário sob a supervisão de Guilherme Goulart

 

Ajude

João completa hoje 13 anos. E está surpreso com a repercussão do caso. “Eu nunca havia visto um jornalista na minha vida, e só hoje mais de cinco vieram conversar comigo”, anima-se. O garoto gosta muito de futebol. Tem uma irmã, mas considera dois vizinhos como parte da família. “Eles são meus irmãos também. Jogamos bola o fim de semana todo.” A situação familiar dele é complicada. A mãe tinha um bar na região, mas o negócio faliu recentemente. O pai, de 61 anos, não pode trabalhar por causa de várias doenças. Para ajudar a família, entre em contato pelo telefone (62) 99997-5365.