Marcas da defasagem

Os índices de reprovação comprometem o desempenho do DF nas avaliações nacionais. A situação levou a Secretaria de Educação a implementar programa para recuperar o ensino de alunos com dois anos ou mais de distorção idade-série

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postado em 03/01/2017 16:48 / atualizado em 03/01/2017 16:55

Ed Alves/CB/D.A Press
 
Aos 14 anos, a estudante Maria Fernanda Cândido começará a cursar o 7º ano do ensino fundamental quando poderia ingressar no ensino médio. O irmão, João Victor da Rocha, 17, deveria ter concluído os estudos no fim do ano passado, mas abandonou a escola. Eles engrossam uma estatística preocupante para a educação do DF: são mais de 85 mil alunos acima da idade ideal para a série em que estão matriculados. Esse é o dado que contribui para o desempenho longe do esperado para a região — nenhuma das três metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foram alcançadas — e o foco da segunda reportagem da série do Correio.

A artesã Maria Fátima da Rocha, 47, é mãe de Maria Fernanda e de João Victor. Ela conta que a adolescente parou de frequentar a escola duas vezes. Apesar da defasagem, quer continuar os estudos e sonha ser advogada. Realidade diferente da do irmão, que deixou o colégio e não tem previsão de retornar. Apesar de Maria Fátima matriculá-lo anualmente, João Victor não frequenta as aulas. “Não tem quem faça ele ir para a escola. Ele disse que, neste ano, não precisa nem colocá-lo, porque ele não vai. Sempre foi muito difícil para ele aprender e, agora, falou que não vai ficar grande no meio das criancinhas”, lamenta.

Depois de deixar os estudos, o jovem começou a trabalhar com artesanato e, hoje, faz cadeiras de fibras. A mãe estudou até a 5ª série do ensino fundamental — equivalente, hoje, ao 6º ano — e tenta orientar os filhos. “Hoje em dia, a pessoa só é alguma coisa se tem estudo. Converso todos os dias. Falo que estudo é a única coisa que a gente tem de bom na vida e que ninguém tira”, conta a mãe.

Essa é uma das situações que agravam o quadro da educação no DF. Em 2015, ficou entre as três unidades da Federação que não alcançaram sequer a meta para os anos iniciais do ensino fundamental. Faltou um décimo para que a cidade alcançasse o patamar programado, de 6,1. Nos anos finais, os estudantes brasilienses alcançaram uma média de 4,5 — 0,6 ponto abaixo do esperado. O indicador do ensino médio ficou meio ponto abaixo da meta, estagnado em 4 pontos. A escala vai até 10.

O cálculo do Ideb leva em consideração a relação entre desempenho dos estudantes nas avaliações e o fluxo escolar — reprovações, aprovações e abandono. No caso da capital federal, esse segundo fator é o que mais pesa na nota, uma vez que o desempenho dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) é superior à média nacional tanto em língua portuguesa como em matemática nos anos iniciais e finais do ensino fundamental e no 3º ano do ensino médio.

Segundo o Censo Escolar de 2015, 62,9 mil alunos do ensino fundamental estão em defasagem na rede pública do DF. Assim como no resto do país, o índice aumenta nos anos finais do ensino fundamental, do 6º ao 9º ano. No ensino médio, do total de 79.627 estudantes, 23.928 estão defasados. Mas, ao contrário do que ocorre no ensino fundamental, a maioria dos alunos repetentes está no 1º ano.

Para reverter esse cenário, a Secretaria de Educação criou o Programa de Avanço das Aprendizagens Escolares no Ensino Fundamental (leia Para saber mais). Hoje, o projeto atende cerca de 3 mil estudantes nessas condições em 100 turmas específicas. A expectativa do órgão é dobrar essa quantidade em 2017. O diretor de Ensino Fundamental da pasta, Francisco Carlos Costa, explica que a matriz aproxima a Educação de Jovens e Adultos (EJA) ao ensino fundamental na tentativa de acelerar os estudantes e garantir o aprendizado.

O atendimento funciona em três blocos. O primeiro recebe estudantes do 6º e do 7º ano. O segundo é voltado aos do 7º e do 8º ano. E o terceiro é exclusivo para quem está no 8º ou no 9º ano. “A perspectiva é que os alunos consigam concluir os dois anos em um para tentar corrigir o fluxo. A maioria, cerca de 80%, apresenta resultado e volta ao fluxo normal. Já recebemos muitas adesões de diretores. No Gama, por exemplo, onde havia duas turmas, agora são 14”, ressalta.

Na avaliação de Costa, transformar essa realidade exige uma modificação da cultura da reprovação como forma de manter disciplina na escola. “Mudar essa situação demora, mas a grande maioria entende que não é a melhor estratégia pedagógica. A escola tradicional era excludente, onde a reprovação se tornava o caminho para manter a ordem”, destaca.

“Lucro pedagógico”
Durante 13 anos, a balconista Dayana Lázara, 32 anos, trocou os cadernos e o lápis pelas fraldas e as mamadeiras. No 1º ano do ensino médio, engravidou da primeira filha, hoje com 14, e optou por sair da escola para cuidar do bebê. Em seguida, vieram mais duas crianças e, só na metade de 2015, e com incentivo do marido, Carlos Alexandre Lima dos Santos, 28, ela decidiu retomar os estudos. “Eu ficava constrangida por conta da idade. Ao mesmo tempo, tinha necessidade, em razão do emprego. É a primeira coisa que as pessoas perguntam: até quando estudei”, conta. Dayana é balconista de uma padaria há sete anos, mas o sonho é concluir um curso de técnica em enfermagem.

Apesar da resistência dela, o marido decidiu matriculá-la na EJA. “Primeiro, fiquei acanhada. Pensei que teria um monte de adolescentes, mas fui vendo que não era assim. Os alunos foram chegando e tinha gente mais velha, de 50 anos. Eu que me senti adolescente no meio deles”, brinca. Dayana concluiu o 3º ano do ensino médio em 2016. “Por mim, continuaria”, comenta, aos risos. Ela vai sentir falta do apoio dos professores e da turma, mas não pretende parar mais. “Quando voltei para a escola, meu pensamento mudou. Queria crescer”, resume.

Para Célio Cunha, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB) e assessor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o nó da educação básica no Brasil começa a se formar nos primeiros anos. “A alfabetização e a aprendizagem devem ocorrer nos anos iniciais e, na medida em que isso não ocorre na idade certa, é cumulativo. Também faltam bons alfabetizadores. Nem sempre as faculdades preparam adequadamente os professores para isso”, explica.

Cunha avalia, ainda, que a repetência acaba gerando evasão escolar. “Quando o aluno é reprovado, em tese, deveria, no ano seguinte, ter vantagem em relação aos outros. Mas isso nem sempre ocorre. A repetência é um fenômeno histórico que sacrifica a nossa educação”, lamenta. Para resolver o problema, o professor enumera alguns exemplos, como aula de reforço em outro turno e apoio para a família, que, às vezes, é marcada por um histórico de problemas socioeconômicos. “A instituição precisa trabalhar pedagógica e socialmente, fazer uma aliança para atender a família. Quando uma criança começa a faltar, por exemplo, um funcionário pode ir à casa dela e ver o que está acontecendo. O lucro pedagógico é muito bom”, conclui.


Para saber mais

Portaria publicada

Em 21 de dezembro de 2016, foram publicadas, no Diário Oficial do Distrito Federal, as regras para abertura de turmas de correção da defasagem idade-série nas unidades de ensino fundamental do DF, por meio do Programa para Avanço das Aprendizagens Escolares (PAAE). De acordo com a portaria, as escolas que tiverem alunos suficientes para formar uma turma devem solicitar a abertura à Secretaria de Educação. Além disso, será considerado estudante em situação de distorção escolar aquele que se encontra com dois ou mais anos de atraso da idade em relação ao ano escolar esperado, considerando para o cálculo a data de nascimento até 31 de março.
 
Ciclos como alternativa
 
O DF adota, desde 2005, a Organização Escolar em Ciclos para as Aprendizagens, que alcançou todas as etapas da educação básica no ano passado. A primeira fase, conhecida como Bloco Inicial de Alfabetização (BIA), abrange os três primeiros anos do letramento. Nesse período, os estudantes não podem ser reprovados. Eles evoluem de acordo com as aptidões adquiridas e, em vez de um ano para serem alfabetizados, têm três para alcançar todas as metas.

No segundo bloco, que compreende o 4º e o 5º anos, não há reprovação entre um e outro. São dois anos para aprender o conteúdo de forma continuada. Os alunos passam por avaliação formativa, diagnóstica e processual. Ele só pode ser retido no fim do 5º ano. Por fim, 16 escolas implantaram a terceira etapa, que abrange alunos do 6º ao 9º anos. De acordo com a pasta, a expectativa é dobrar os números no próximo ano.

No ensino médio, existe o projeto de dependência para quem reprovou em até duas disciplinas. O aluno migra para o ano seguinte, mas continua devendo as duas matérias em que não conseguiu resultado satisfatório. Essa é uma das formas de reduzir o impacto das reprovações, e a SEDF pretende, nos próximos anos, adotar uma política para que estudantes reprovados em mais de duas disciplinas das 13 obrigatórias também não tenham que refazer o ano todo.

“O nosso objetivo é que o estudante refaça, no contraturno, apenas os componentes que ele ainda não obteve êxito. Essa é uma das principais perspectivas para se tentar recuperar o estudante que reprovou o 1º e o 2º ano, porque, a partir dos 18, ele migra para a Educação de Jovens e Adultos (EJA)”, esclarece o diretor do ensino médio da pasta, Fernando Wirthmann Ferreira. A previsão é de que o projeto comece a ser colocado em prática em 2018.

O presidente do Conselho de Educação do DF, Álvaro Moreira Domingues Júnior, considera o ensino por meio de ciclos uma boa alternativa para solucionar o problema. “Ao fazer dessa maneira, respeita-se o tempo que o aluno apresenta no processo de aprendizagem e as diferenças significativas. É uma forma de respeitar as diferenças e a capacidade de aprender de cada um”, considera.