Insatisfeitos, professores da rede pública ameaçam parar em fevereiro

Falta de estrutura nas escolas e formação inicial defasada são alguns dos fatores que prejudicam o desempenho em sala de aula

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postado em 05/01/2017 14:08 / atualizado em 05/01/2017 19:14

Júlia Campos/Esp. CB/D.A Press

A insatisfação dos professores com questões salariais e melhores condições de trabalho, que ficou latente em 2016, pode ressurgir com ainda mais força nos primeiros dias do ano letivo de 2017. A categoria organiza um movimento grevista para fevereiro, em razão da falta de um posicionamento do governo sobre a data do pagamento dos reajustes. Na última reportagem da série sobre as perspectivas da educação para 2017, o Correio mostra os desafios que os docentes, em especial na rede pública, devem enfrentar este ano.

Segundo Vilmara Pereira do Carmo, uma das diretoras do Sindicato dos Professores do DF (Sinpro-DF), mesmo com a greve feita no ano passado, o GDF não cumpriu com a última etapa do pagamento do plano de carreira da categoria. “Alegaram que não tinham orçamento”, explica Vilmara. De acordo com a professora, esse plano de carreira não acompanhava nem a inflação de 2015, e, em 2016, não houve reajuste. “Com isso, há uma perda real dos nossos salários de 10% a 12%, o que compromete muito a receita dos professores. Houve uma queda do padrão de vida e a tendência é cair ainda mais”, critica.

Em setembro do ano passado, os professores ameaçaram deflagrar greve geral para reivindicar o pagamento do reajuste. A categoria ingressa ganhando quase R$ 5 mil para a jornada de 40 horas semanais e a média fica entre R$ 6 mil e R$ 7 mil devido aos benefícios. “Solicitamos uma pesquisa ao Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e, das 33 categorias do governo, estamos no 28º lugar. Comparado ao Brasil, pode parecer um salário bom, mas, para o DF, está muito aquém do que deveria”, afirma.

Quanto à estrutura que os docentes encontram nas instituições de ensino, Vilmara relata que varia muito de uma regional para outra. Naquelas com deficit de escolas, como a Estrutural, a situação é mais complicada, porque a demanda é grande e as salas de aula acabam superlotadas. Outro problema elencado por ela é o pagamento do Programa de Descentralização Administrativa e Financeira (PDAF). “O governo encaminha a verba todos os anos para a escola, destinada a pequenos reparos e a projetos pedagógicos. Esse recurso vem capenga desde 2013 e muitas vezes é usado para pagar dívidas. Isso compromete muito a qualidade da educação e o papel pedagógico”, afirma.

Por fim, Vilmara também destaca a falta de cuidado com a saúde dos profissionais da educação. “O GDF fala que os professores pegam muitos atestados, mas ignora a nossa realidade. As condições de trabalho, a estrutura, a sociedade que passa por um processo de violência, as famílias que têm abandonado os filhos na escola. O adoecimento é grande e não é uma opção”, justifica.

 

Entrevista Júlio Gregório Filho

 

 

 

"O cenário econômico não nos permite fazer nenhuma previsão imediata. Esse reajuste representaria, em média, um acréscimo de R$ 200 no contracheque de cada professor e, depois, o Estado não teria condições de pagar"

 

O secretário de Educação do Distrito Federal reconhece que as dificuldades econômicas do governo prejudicaram os investimentos no setor, mas acredita que, diante do cenário de crise, o saldo foi positivo. Não há previsão, no entanto, do pagamento do reajuste para os professores e, apesar de a capital caminhar para cumprir grande parte das metas do Plano Nacional de Educação, ainda falta promover mudanças no ensino médio e garantir as aprendizagens dos estudantes na idade certa. Confira a entrevista exclusiva de Júlio Gregório Filho ao Correio.

Como foi o ano de 2016 para a educação no DF?

O ano de 2016 não foi diferente do vivido em todo Brasil: um período de dificuldades de natureza financeira, com intensas discussões sobre os processos e desenhos da educação, do atendimento dos alunos e do relacionamento com professores. Reputamos como um ano vivido com dificuldades. Está se encerrando não tão bem como gostaríamos, mas está terminando bem.

E o que falta?

O que nós gostaríamos era que tivéssemos tido orçamento e disponibilidade financeira para que pudéssemos fazer todos os reparos que nossas escolas estão necessitando. Além disso, contemplarmos, também, a contratação dos orientadores educacionais e realizar o atendimento do pleito dos professores sobre os reajustes salariais, que não conseguimos honrar por falta de financeiro. Mas não podemos deixar de destacar que, felizmente, o Distrito Federal não viveu parcelamentos ou atrasos nos salários dos seus servidores, incluindo os profissionais que atuam na área de educação.
O DF conseguiu cumprir a meta de universalizar a educação para crianças de 4 e 5 anos?
Toda a demanda manifesta, ou seja, toda solicitação de matrícula feita pelo 156 foi atendida. Isso não significa que todas as crianças de 4 e 5 anos do DF estejam matriculadas nas escolas, mas significa que todas as pessoas que procuraram matrícula para essa faixa etária foram contempladas, ainda que tenhamos demorado e conseguido fazer esse atendimento no segundo semestre.

A implantação do sistema de ciclos tem ajudado a reverter o cenário de distorção idade-série nos ensinos fundamental e médio?
No nosso entendimento, esse sistema é fundamental, porque as crianças têm diferentes velocidades no seu desenvolvimento físico, afetivo e cognitivo. Essas diferenças têm de ser respeitadas e a educação, como um todo, tem que levar isso em consideração. Se pegarmos uma criança de 6 anos e reprová-la, sob alegação de que ela não aprendeu a ler, significa que o ritmo dela não a fez atender àqueles objetivos. Os ciclos têm essa vantagem. Há um tempo maior para respeitar as diferentes velocidades e aprendizagens. Não é fazer o que o senso comum fala, de realizar promoção automática ou desenvolver a proposta de ciclos como se fosse anualizada e ficar reprovando apenas na 3ª série (do ensino fundamental). É preciso repensar o fazer pedagógico durante o ciclo de tal maneira que a criança possa, permanentemente, circular em diferentes turmas, suprindo defasagens que ela apresenta durante seu processo de aprendizagem.

Essa medida funciona na prática?
Como isso também é uma questão nova — na nossa cultura ainda permanece a seriação anualizada —, o professor, muitas vezes, apesar de estar no ciclo, está trabalhando como se anual fosse. Então a criança não atingiu os objetivos de aprendizagem do 1º ano e eles já começam a trabalhar o 2º ano sem resgatar as defasagens do anterior. Essa é uma intensa discussão que nós estamos tendo com os professores e vai se avançando aos poucos. Mas o que nós não podemos passar é a ideia da promoção automática do aluno, porque quem tem essa ideia tem o raciocínio anualizado. No entanto, temos tido relativo sucesso na mudança dessa cultura.

Como está a discussão da reforma do ensino médio?
Fiquei 34 anos em escolas do ensino médio e não é possível que a aula que eu dava nos anos 1970 esteja sendo apresentada aos alunos de hoje. Atualmente, com todas as ferramentas e as tecnologias que temos, o professor não é o único detentor das informações. Por exemplo: fui a Planaltina, em um sábado, e havia 15 alunos fazendo uma aula de circo, entusiasmadíssimos. Alguns deles até tinham abandonado a escola, mas não abandonavam a aula de circo. Ou seja: a aula de circo tinha, no mínimo, que ser o gancho para manter aquele aluno que a nação não pode perder dentro da escola. E quem disse que a aula de química é mais importante que a aula de circo? Então, eu advogo que ele possa substituir a aula de química, sim, pela aula de circo. Não quer dizer que, a partir de agora, a aula de circo será obrigatória. Por isso, eu defendo a opção, com exceção de português e matemática. Em razão disso é que não estamos satisfeitos com o ensino médio no Distrito Federal. Ele já esteve muito melhor do que está hoje.

Qual a sua avaliação das ocupações das escolas públicas no DF?
Nós já vínhamos discutindo um redesenho do ensino médio contemplando esses aspectos. O advento da medida provisória, dentro do contexto político, foi um norte para as manifestações que ocorreram e que eu considero muito importantes. Estive debatendo com os alunos que estavam ocupando uma escola e levei a eles o desenho que nós desejamos para o Distrito Federal. Inclusive, houve concordância. Acho importantíssimos esses meninos se posicionarem e se manifestarem. Não advogo qualquer tipo de violência. Eles têm de fazer as manifestações deles, se posicionarem, se pronunciarem, mas respeitarem, também, a manifestação dos demais.

Como vocês pretendem cumprir o reajuste dos professores?
Foi mostrado muito claramente ao Sindicato dos Professores que, se fosse dado esse reajuste, acordado previamente, o Estado não teria condições de arcar com as obrigações salariais até o fim do ano, inclusive com 13º e férias. Por essa razão, apesar de uma imensa vontade do governo em cumprir esse acordo, não foi dado esse aumento.

Há alguma previsão?
O cenário econômico não nos permite fazer nenhuma previsão imediata. Esse reajuste representaria, em média, um acréscimo de R$ 200 no contracheque de cada professor e, depois, o Estado não teria condições de pagar, fazendo igual a Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Apesar das condições de trabalho e da insatisfação, nós estamos em um concurso para seleção de professores efetivos. Hoje, temos em torno de 95 mil candidatos inscritos.