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Inspeção para evitar acidente

Unidade de ensino da Estrutural voltará a funcionar após anos interditada. À época, foi constatada presença de gás metano. Secretaria instalou sistema de filtragem, mas especialistas alertam para risco de construção sobre áreas que abrigaram lixão

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postado em 09/02/2017 21:50 / atualizado em 09/02/2017 22:01

Marcelo Ferreira
Depois de quatro anos e oito meses fechada, a Escola Classe 1 da Estrutural voltará a receber estudantes. A unidade de ensino, que foi interditada devido à alta concentração de gás metano (CH4) no ar, passou por reformas e precisará de monitoramento diário para acompanhar os níveis. Especialistas reprovam a construção de prédios sobre áreas que abrigaram lixões, mesmo que seja feita inspeção constante. O gás pode causar desde problemas de saúde a explosões, quando em contato com o oxigênio. A Secretaria de Educação (SEDF) garante, no entanto, que segue todas as normas técnicas e que recebeu termo de liberação de uso da edificação do Corpo de Bombeiros Militar e da Defesa Civil do DF.

Um operador da empresa IA Ambiental, contratada pela secretaria por meio de licitação, vai monitorar, todo os dias, o nível de gás metano na edificação. O trabalho de vigilância e extração do gás é feito desde outubro de 2016, por meio de sistema instalado em um contêiner, em local restrito e cercado dentro da escola. Para sugar o CH4 acumulado no subsolo do terreno, foram instaladas tubulações interligadas que chegam ao contêiner. Os tubos ficam espalhados entre os corredores de quatro pavilhões da instituição. Ao todo, são 27 poços de extração, com 2,5m de profundidade cada. Também foi colocado o mesmo número de pontos rasos de medição dentro das salas de aulas.
 
Marcelo Ferreira
 
O sistema custou aos cofres públicos R$ 500 mil e, a cada mês, o governo desembolsará R$ 13 mil para manter a medição diária e a manutenção. Segundo a SEDF, essa foi a solução a mais barata encontrada para colocar a escola em funcionamento. A outra opção seria demolir o edifício, escavar e reaterrar o terreno e edificar novamente o prédio no mesmo local ou em outra região, a depender de laudo da Defesa Civil. Essa obra foi orçada em mais de R$ 13 milhões, ainda de acordo com a pasta.

O subsecretário de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação da SEDF, Fábio Pereira de Sousa, não soube informar se houve um estudo de impacto ambiental no terreno onde a escola está situada, uma vez que a construção ocorreu em 2004. “Na atual gestão, contratamos a empresa de gerenciamento de áreas contaminadas IA Ambiental, que ganhou a licitação e construiu uma tubulação para a extração de todo o gás metano para evitar novos vazamentos”, destaca.
 
Marcelo Ferreira
 
O gestor da empresa IA Ambiental e tecnólogo em química Fábio Pereira Gomes explica que foi feita, preliminarmente, por outra companhia, uma investigação na região, em um raio de 500m no entorno do colégio, para verificar a presença do gás. “Na sequência, a nossa empresa fez um plano de intervenção para a retirada de um bolsão do gás metano, produzido por fermentação de matéria orgânica criado a partir do lixão. O sistema, que funciona dentro do contêiner, conta com uma bomba a vácuo que suga todo o gás, direcionando-o a um tanque, também a vácuo. Em seguida, o material passa em um filtro de carvão ativado para ser despejado na atmosfera, em forma de gases não poluentes”, detalha.

Samuel Fernandes, diretor do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro), teme que a medida adotada pelo governo seja arriscada. “Se não existissem riscos, não seria necessário um técnico medindo o gás todos os dias”, constata. Ele ainda questiona se o monitoramento vai ocorre conforme prometido — diariamente, três vezes ao dia, incluindo fins de semana. Para Fernandes, não há como ter certeza de que a escola está segura. “Os professores vão trabalhar com medo”, afirma. Na avaliação dele, a melhor alternativa seria construir a escola em outro local.

Uma professora, que preferiu não se identificar, confirma que não se sente segura com a situação. “Todos se esforçaram muito para ter a escola de volta. À época da interdição, foi muito traumatizante para todos nós. Agora, estamos com receio de que algo possa acontecer”, relatou. O subsecretário Fábio Pereira de Sousa reforça, no entanto, que Secretaria de Educação seguiu todas normas técnicas. Segundo ele, os índices de concentração de gás metano observados nas medições das últimas semanas estão no patamar de 0,1% e 0,2%, abaixo do nível de 15%, considerado preocupante. “Não há mais evidências de vazamento”, garante. Se o índice chegar a nível crítico, no entanto, há um plano de evacuamento pronto.

Ameaça
Na avaliação de especialistas, terrenos que já foram usados como lixões não devem abrigar edificações. Esses locais costumam funcionar como bombas-relógio, devido ao alto teor inflamável do gás metano depositado no subsolo. “Como a escola depende de monitoramento, não existe uma segurança intrínseca. É evidente que essa inspeção reduz o risco. Entretanto, caso o equipamento falhe ou não faça a verificação correta, pode acontecer uma tragédia. O fato é que existe um potencial explosivo e isso é muito preocupante”, adverte o engenheiro Alexandre Landesmann, professor de engenharia civil do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).

O professor Pedro Murrieta, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), concorda com a análise. “Não proponho que lixões recém-fechados ou aterros recebam qualquer tipo de construção. Em um país desenvolvido, é proibido que a população more nesses locais”, alerta Murrieta. De acordo com ele, a inspeção regular minimiza a gravidade da situação, mas não afasta totalmente o risco de um acidente acontecer.

A diretora da escola, Raquel Andrade, informou que os pais dos alunos participarão de uma reunião em 17 de fevereiro, com técnicos da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros Militar do DF, para dirimir dúvidas. Na sexta-feira, assim como os demais alunos da rede pública, os estudantes da Escola Classe 1 retomarão o ano letivo. Ao todo, 54 funcionários, dos quais 44 professores e 14 profissionais da limpeza, estão prontos para receber os 1.150 alunos matriculados na educação infantil ao 3º ano do ensino fundamental na instituição. A Estrutural conta com outras quatro escolas: a Escola Classe 2, o Centro Educacional 1, o Centro de Ensino Fundamental 2 e o Centro de Educação Infantil. Durante o período de interdição, os alunos da Escola Classe 1 foram transferidos para escolas no Guará e na Asa Sul.

Inflamável

O gás metano (CH4) não tem cor nem cheiro. É inflamável e formado naturalmente pela decomposição de material proveniente de lixões. Quando em contato com o oxigênio, pode provocar explosões. Além disso, a inalação pode causar asfixia, inconsciência, parada cardíaca e danos ao sistema nervoso central.