Escola pública bilíngue em Taguatinga ainda tem vaga

A aluna Natiele Queiroz é surda e veio do Maranhão para estudar na unidade, que oferece Libras e português

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postado em 03/03/2017 20:05

Pedro Ventura

Natiele Queiroz, de 13 anos, veio do Maranhão para Brasília há 24 meses. Foi a mãe quem decidiu deixar a terra natal para dar à filha um ensino melhor. A adolescente é surda e frequentava uma escola regular no estado de origem. No Distrito Federal, ela é um dos cerca de 140 alunos da Escola Bilíngue Libras e Português Escrito, em Taguatinga.

 

A unidade funciona desde julho de 2013 e oferece todas as etapas do ensino básico e educação de jovens e adultos (EJA). Devido à pouca procura, ainda há vagas para este ano em todas as séries.

 

“Em escolas regulares, os alunos chegam sem uma língua. Muitas vezes são filhos de pais ouvintes, com irmãos ouvintes”, explica a diretora da escola, Maristela Oliveira Bento. “A língua é muito importante para o desenvolvimento e a alfabetização de um bebê ou de uma criança surda.”

 

No caso de Natiele, foi a mãe quem aprendeu a língua de sinais e ensinou à filha. A menina conta que hoje a situação se inverteu. “Agora eu ensino o que sei e falo que ela precisa estudar mais”, brinca. Segundo a diretora Maristela, a adolescente evoluiu muito desde que chegou à escola. Ela cursa o quinto ano.

 

Turma de estimulação linguística precoce fechou

Por falta de procura, neste ano a escola precisou fechar a turma de estimulação linguística precoce, que recebia bebês de 6 meses a 3 anos de idade. A proposta é atender quem tem a deficiência o mais cedo possível, para que a criança tenha contato com a Língua Brasileira de Sinais (Libras) durante todo o seu desenvolvimento e possa se comunicar.

 

De acordo com Maristela, para reabrir o serviço, basta um aluno. A matrícula, como em qualquer outra série oferecida, deve ser feita na secretaria da escola (QNH 1/3, AE 2), das 8 horas às 22h35, de segunda a sexta-feira.

 

A diretora diz que há uma intenção de estabelecer parceria com a Secretaria de Saúde para que os bebês surdos sejam encaminhados assim que a deficiência for diagnosticada. “Se a criança tiver essa assistência desde pequenininha, ela vai ser bilíngue, e isso vai mudar a vida dessa pessoa.”

 

O atendimento de estimulação linguística precoce é prestado por uma professora surda. A unidade oferece o serviço tanto a quem não ouve quanto àqueles que têm alguém com a deficiência auditiva na família. Assim, a linguagem se desenvolve em casa também, e todos podem interagir.

 

Professores são fluentes em Libras

Antes de funcionar como escola bilíngue, a unidade era uma escola classe. Ela precisou ter as salas adaptadas para um tamanho menor, para que os alunos tenham facilidade de enxergar o conteúdo, e cada turma tem, no máximo, dez alunos.

Ainda existem turmas remanescentes do antigo modelo, mas sem novas vagas. Esses estudantes podem continuar na instituição, desde que optem pelo ensino diferenciado que o lugar oferece.

 

O conteúdo é o mesmo de instituições regulares, em um currículo adaptado. As aulas são ministradas em Libras, com bastante recurso visual, e o material é adaptado. A maior parte dos professores é fluente na Língua Brasileira de Sinais e, antes de trabalharem lá, passam por uma banca de aptidão.

 

Foi o amor pelos sobrinhos que fez a professora Francisca Boaventura procurar a nova formação há 16 anos. Em uma família de quatro docentes, nenhum sabia a língua e sentiram o quanto o trabalho poderia ser importante na vida das duas crianças que nasceram com surdez. “É gratificante perceber o potencial dos meus alunos, o aprendizado é constante, tanto para mim quanto para eles.”

 

Mairla de Maria Talles, que leciona educação física, é surda e chegou a ter aulas com parte da equipe responsável pelo projeto em Taguatinga. O caminho, conta, foi difícil, mas recompensador.

 

Como na estimulação, parte dos alunos de qualquer série pode ser ouvinte. É o caso de Laysa Geovanna Bustamante, de 7 anos. Os pais da menina, que cursa o segundo ano, têm deficiência auditiva e optaram por matriculá-la na escola.

Sentada ao lado de colegas que não ouvem, Laysa sinaliza que ama ir ao colégio. “Do que eu mais gosto é poder conversar com os meus amiguinhos.” Além disso, diz que é lá onde aprende mais a se comunicar com os pais.

 

Português como segunda língua

A unidade ensina o português escrito como segunda língua. Segundo a professora Hellen Lucyanne Sousa, que ministra o conteúdo para o ensino médio, as aulas são dadas como se fossem a estrangeiros. “Minha preocupação não é que eles [os alunos] saiam daqui sabendo tudo de conjunção, artigo ou concordância. O objetivo é que façam uso da língua escrita para se comunicar.”

 

Única pública do tipo no DF, a Escola Bilíngue Libras e Português Escrito foi criada por meio da Lei nº 5.016, de 11 de janeiro de 2013.

 

Agência Brasília