Jogo Baleia Azul preocupa jovens, pais e professores; alunos comentam

A corrente virtual propõe atividades autodestrutivas. A sequência de desafios pode ser prevenida: a dica de especialistas em educação é ficar de olho no comportamento de crianças e adolescentes e apostar no diálogo. No Brasil, casos de suicídio suspeitos são investigados

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postado em 18/04/2017 19:22 / atualizado em 19/04/2017 15:10

O jogo Baleia Azul tem gerado preocupação entre jovens, famílias e escolas pelo alto teor prejudicial à vida das "missões" que são passadas aos participantes por meio de mensagens em grupos virtuais no Facebook ou no WhatsApp. Fazer desenhos com lâmina no corpo, assistir a filmes de terror de madrugada, subir no alto de um telhado ou edifício e, por fim, tirar a própria vida são algumas das 50 tarefas que integram a corrente. O fato de os desafios serem executados por adolescentes e jovens torna o problema ainda mais grave. No Brasil, existem casos de suicídios de adolescentes sendo investigados pela Polícia Civil no Mato Grosso, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e na Paraíba.



“As atitudes propostas pelo jogo não têm uma proposta de construção ou desenvolvimento e comprometem os jovens e a vida em sociedade", avalia Marcelo Krokroscz, diretor do Colégio Fundação Escola de Comércio Alvares Penteado (Fecap). Doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), ele observa que a natureza das ações é fator mais prejudicial. “Os desafios são característicos de todos os jogos, o que preocupa neste, em específico, é que o adolescente quer se afirmar como pessoa praticando atividades que atentam contra si mesmo”, afirma.

Os desafios são a moda da vez na internet: é comum encontrar vídeos ou relatos em redes sociais de pessoas que cumpriram desafios dos mais diversos tipos, como segurar gelo por um determinado período de tempo, postar determinadas fotos ou até encher uma banheira de salgadinhos e mergulhar nela. O problema está em missões que trazem riscos, como o próprio jogo da Baleia Azul e outros, como o jogo da asfixia (em que jovens interrompem a respiração até desmaiarem), o jogo da fada (que incentiva crianças e adolescentes a ligarem o gás da casa de madrugada, sem o conhecimento dos pais) e balconing (filmar-se pulando de uma varanda para outra).

Andrea Ramal, doutora em educação pela  Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), analisa que o fascínio pelo jogo ocorre pela necessidade de autoafirmação, característica da juventude. “Participar desses jogos é próprio da insegurança que a fase da adolescência gera. Ele supostamente promove quem conseguiu realizar os desafios e conquista pessoas inseguras que veem nele uma oportunidade de encontrar autoestima e jovens que têm pensamentos parecidos com os seus”, diz.

Dá para prevenir


A consultora em educação Andrea Ramal explica que é possível evitar o envolvimento de jovens nesse tipo de ação. “A maior prevenção sempre é a conversa: as proibições têm limites, você não consegue evitar todos os risco limitando, mas sim conscientizando”, defende. Além da comunicação efetiva, a consultora cita a inclusão de educação para a internet nas escolas, a promoção de reuniões de pais sobre os riscos desses tipos de interação on-line e o monitoramento da utilização da rede como formas de proteger os adolescentes. A especialista cita como ação positiva a iniciativa Baleia Rosa, movimento que surgiu na internet e propõe a execução de 50 atividades positivas, como aprender palavras, assistir a vídeos felizes e de humor, ler um livro, comer doces e dizer aos pais que os ama.

É importante que estudantes, familiares e professores observem se ocorrem mudanças de comportamento em adolescentes com quem convivem, o que podem ser indício de algum problema. “O papel dos pais e de educadores é ter atenção ao jovem. A segunda atitude mais importante é estar sempre aberto e manter o diálogo. Essas são as duas regras fundamentais para preparar os jovens para o futuro e ensiná-los a viver em sociedade”, acredita Marcelo Krokroscz.

No Colégio Fecap, em São Paulo, por exemplo, o jogo despertou a preocupação de um grupo de jovens que estão produzindo um jogo interativo oposto, com o intuito de conscientizar estudantes. “Com o auxílio de uma professora, os alunos estão trabalhando na elaboração de tarefas e fazendo a promoção de atividades para prevenir os desafios negativos”, explica o diretor da instituição, Marcelo Krokroscz.

A origem


Especula-se que o jogo tenha surgido na Rússia e, daí, tenha se espalhado pelo mundo e tem gerado investigações em países como Inglaterra e França. Acredita-se que o jogo funciona sob o comando de um líder que distribui desafios a partir de grupos secretos em redes sociais. Na internet, os jogadores devem mostrar que fizeram as atividades para que, então, o moderador aprove a participação deles na próxima fase: que o leva para outro grupo virtual — cada fase possui um grupo próprio composto por jovens que já realizaram a fase desafio. Os integrantes entram na sequência de desafios por meio de convite e, uma vez que decidem entrar, não podem desistir, sob pena de sofrer com pressões e ameaças de moderadores.

Falem, jovens

Estudantes do 3º ano do ensino médio do Centro Educacional da Asa Norte (Cean) comentam o assunto:

 

 

 

 

 

 
Luiz André Pereira Cardoso, 17 anos, foi desafiado por colegas a pintar o cabelo de loiro e postar em uma rede social, no ano passado. “Se eu alcançasse um número de curtidas, eu iria descolorir", lembra. No entanto, ele tem critérios com as missões que aceita fazer. "Eu não me vejo participando de desafios como o da Baleia azul. Da mesma forma que você pode ser influenciado por um colega a participar desse jogo de pintar o cabelo, você pode ser incentivado a jogar o game da Baleia, só que é algo que não faz sentido para mim”, diz. “Para mim, cada cabeça é um mundo: as pessoas podem estar passando por situações difíceis e entram no jogo como uma alternativa e uma busca de fuga”, acredita.

As amigas Kemilly Pereira, 17 anos, e Taline Fernandes, 18, acham que a participação no jogo pode estar associada à pressão de amigos. “Às vezes, a pessoa pode nem querer entrar, mas os amigos jogam e incentivam, aí ela vai lá e participa, por causa do grupo mesmo”, considera Taline.
 
Thalita Ataíde de Souza, 17 anos, conheceu o jogo por meio de uma colega da igreja, que foi chamada para participar da corrente da Baleia Azul e recusou. “Eu, com certeza, nunca jogaria. Para mim, a vida é um bem muito precioso e, por mais que estejamos passando por problemas, não devemos fugir deles, mas sim encará-los e pedir ajuda”, considera a estudante.
 
Caso descobrisse que um colega está querendo participar dos desafios, Vitória Lucília, 17, conta que procuraria alertá-lo. “Eu tentaria ajudar, falar que não é legal, explicar o quanto é perigoso porque você envolveria também os outros. É um jogo que afeta você, mas também faz mal para a sua família e as pessoas de quem você gosta”, conta.




*Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa