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Desafios para uma educação de ponta

Especialistas, alunos e professores avaliam que modernizar os colégios, com a adoção de tecnologia na sala de aula, é o primeiro passo para estimular o aprendizado. Em Planaltina, comunidade conseguiu digitalizar uma escola pública por meio de parcerias

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postado em 18/06/2017 16:42 / atualizado em 18/06/2017 17:40

Marcelo Ferreira

Localizada a 43km da região central de Brasília, uma escola pública coleciona tecnologias que ainda não alcançam o horizonte de boa parte das redes de ensino do país. Quem passa por fora do Centro de Ensino Fundamental Arapoanga, em Planaltina, encontra um retrato típico de outras instituições mantidas por recursos públicos: muro alto de concreto, com buracos deixando à mostra os tijolos e algumas pichações. Ao atravessar o portão, o que se encontra é outra realidade. Lá, alunos passam o cartão estudantil em um totem eletrônico que automaticamente avisa no celular dos pais a hora em que ocorreu a entrada na escola.


“É um controle que fazem para minha própria segurança”, esclarece César Nunes, 14 anos, aluno do 9º ano da Arapoanga, como é conhecida a escola. Pouco tempo depois, César se encaminhou com outros alunos para a “Sala Especial”. É lá onde estavam aprendendo sobre o sistema solar em uma lousa digital, que funciona como um tablet projetado na parede.


A modernização da escola começou em 2004, depois que os professores perceberam uma alta taxa de evasão de alunos. De 2010 a 2016, esse índice caiu de 2,8% para 0,9%. “Chegou a um ponto em que o aluno era mais tecnológico que o professor, era outra linguagem. A gente tinha que emparelhar com eles para atraí-los para a escola”, relata o professor de ciências biológicas, químicas e físicas John Mcartson. De lá pra cá, foi um processo gradativo. Primeiro trocaram as sirenes por caixas de som, que sinalizam os intervalos o momento da saída com músicas de uma playlist sugerida pelos alunos.


Depois, conseguiram instalar o totem eletrônico na entrada da escola, desenvolveram um aplicativo onde os pais acompanham as atividades dos alunos, boletim, data de eventos e ementa das aulas, e tiveram como uma das mais recentes aquisições a lousa digital. “Quando o recurso é novo, assusta. Mas hoje tem disputa entre os professores para usarem a lousa. Nós mesmos nos ajudamos, os professores que têm mais facilidade ajudam os que têm menos”, destaca Mcartson.

 

Marcelo Ferreira
 

 

Os materiais, no entanto, não foram adquiridos por meio de políticas públicas. Segundo relembra o diretor da escola, Jordenes da Silva, foi feita uma força-tarefa da equipe de educadores para digitalizar a escola, com parceiros como ONGs, empresas, e a embaixada do Japão e até mesmo a Nasa.


Silva conta que, desde 2010, já foram feitas 12 aulas de 50 minutos por videoconferência com o carioca Daniel Nunes, que mora na Califórnia e participa do programa de sondas da agência espacial dos Estados Unidos. “Ele foi procurado para ajudar na preparação dos alunos para a Olimpíada Brasileira de Astronomia. No ano passado, ele fez uma surpresa: veio pessoalmente dar a aula aqui, os alunos ficaram muito encantados”, lembra.


“O governo deveria ser mais ativo para viabilizar a modernização das escolas. Nossa escola busca parcerias externas, mas isso não tira a responsabilidade do governo”, observa o professor Mcartson. “Não tem nada de extraordinário no que fazemos. O que tem aqui deveria ser institucional, ter em todas as escolas brasileiras, e não só na Arapoanga”, completa Silva.

Outra realidade
Diferentemente da Arapoanga, as escolas de ensino fundamental e médio da rede pública brasileira são predominantemente analógicas. No caso da escola de Planaltina, os 500 alunos contam com as tecnologias apenas do 1º ao 9º ano. Quando eles precisam mudar de escola para cursar o ensino médio, se deparam com a realidade precária do uso de eletrônicos nas escolas públicas brasileiras. “Quando a gente tem contato com vídeo e imagem, a gente compreende melhor o conteúdo. Não tinha isso na outra escola em que estudei. Vai ser uma falta grande quando eu sair daqui, porque sei que outras escolas não fornecem o que tem aqui”, lamenta Jennifer Ventura, 14 anos, aluna do 9º ano da Arapoanga.


A falta prevista por Jennifer é sentida por Anderson Felippe Silva, 16 anos, ex-aluno da Arapoanga que agora estuda no 2º ano do Centro de Ensino Médio 2 de Planaltina, a 15 minutos de distância da antiga escola. “Eu tinha aulas interativas, dinâmicas e eu podia usar a lousa digital. Se estivesse aqui, ajudaria nas aulas de química, física e biologia, facilitando a compreensão do conteúdo para o PAS”, avalia Anderson, que faz referência ao Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (UnB).


Na atual escola de Anderson, há acesso limitado à rede Wi-Fi e laboratório de computadores com máquinas ultrapassadas. Dos 45 terminais, nove estavam com avisos de defeito. Os computadores foram adquiridos por doações de órgãos públicos e pelo Ministério da Educação (MEC) a partir do programa ProInfo, que oferece equipamentos de laboratórios de informática. No entanto, as últimas aquisições feitas no país por esse programa datam de 2013, de acordo com a assessoria da pasta. Hoje no primeiro ano do ensino médio do CEM 2, Pâmela Cristina de Sousa, de 15 anos e ex-aluna da Arapoanga, lembra que usava um aplicativo criado na antiga escola para acompanhar suas notas e informar os pais sobre o calendário de reuniões. “Ajudava a ter um controle dos meus estudos”, nota a Pâmela.


Para Gilberto Lacerda, especialista em informática na educação da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), não basta ter tecnologia nas escolas, como laboratórios e acesso à internet, mas sim aplicação didática feita pelos educadores. “Tecnologia didaticamente utilizada é ter recursos digitais no trabalho do professor, na preparação de materiais de ensino, livros digitais, softwares, jogos, dispositivos de pesquisa, repositórios, bibliotecas virtuais, uma infinidade de possibilidades digitais”, avalia.

 

Carência sentida

A diretora do CEM 2 de Planaltina, Sonara Liane, sente falta de uma internet de qualidade para que os educadores possam oferecer mais recursos de aprendizagem aos alunos e acompanhar o que eles acessam para além dos muros da escola. “A gente precisa de uma internet que possibilite mais acesso e aprendizagem ao aluno. Mas esse uso tem que ser orientado. Não podemos ficar distantes do acesso às informações que os alunos têm fora da escola.”


A reclamação de Sonara tem um motivo: das 667 escolas públicas do DF, 547 têm internet, e a velocidade é de um a cinco megas. Só no CEM 2, há 2 mil alunos nos períodos da manhã, tarde e noite, e 40 professores que utilizam o serviço de rede. De acordo com o subsecretário de Modernização e Tecnologia da Secretaria de Educação do DF, Marcelo Ataíde, a meta do Governo do DF é ligar mais 90 escolas com internet de alta velocidade até dezembro de 2017.


O Ministério da Educação descreve planos para a inserção de novas tecnologias nas escolas públicas do país, como ensino de robótica e formação de professores para o ensino digital. Tudo, no entanto, são ainda promessas. De acordo com Rossieli Soares, secretário de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), serão feitas licitações para compra de materiais de robótica e qualificação de professores. Se tudo caminhar bem, segundo Soares, até outubro deste ano, os alunos do ensino fundamental e do médio do país aprenderão a montar robôs.

Sem eletrônicos
O tema do uso de novas tecnologias nas escolas brasileiras esbarra em um assunto que abre polêmicas: estudantes podem utilizar eletrônicos, como tablets, notebooks e smartphones, em sala de aula? Na Câmara dos Deputados, tramita há dois anos um projeto de lei, de autoria do deputado Alceu Moreira (PMDB-RS), que prevê que os aparelhos só serão aceitos se fizerem parte das atividades pedagógicas e se forem autorizados pelos professores.


O projeto foi arquivado pela Mesa Diretora da Câmara, mas em alguns estados e municípios do país, já vigoram leis que restringem o uso dos eletrônicos em sala de aula, como no Distrito Federal. Jordenes da Silva, diretor do Centro de Ensino Arapoanga, critica: “Os alunos são nativos digitais e essas tecnologias não só ajudam os pais a interagir e participar da escola, como também mantêm o interesse dos estudantes pelo ensino”, afirma Silva. (LMB)

 

Três perguntas para

 

Eric Bettinger,
professor de economia da Stanford School of Business

Em um mundo cada vez mais digital, qual é a responsabilidade dos educadores?
A tecnologia não é um substituto tão bom quando falamos de educação. Na educação, a tecnologia deve ser usada como um complemento, não como um substituto do aprendizado em sala de aula. Os educadores precisam saber como usá-la como complemento. Sozinha, a tecnologia não tem a capacidade de melhorar uma experiência, falando de educação.


Qual é o papel dos governos no sentido de criar políticas de modernização do ensino?
Para trabalhar com tecnologia, também são precisas instalações e treinamento. A prioridade de um governo deve ser preparar uma força de trabalho que nos sustente para as próximas gerações. E parte da responsabilidade é preparar essas pessoas para as tecnologias com as quais elas vão trabalhar, e é difícil, porque a tecnologia muda muito. Então, é difícil para o gestor público saber em que tecnologia investir. Precisa haver muita pesquisa para saber o que será mais produtivo para o futuro.

O que recomenda para a educação brasileira?
No Brasil, me parece que a educação pública ainda oferece privilégios para pessoas de maior poder aquisitivo, então, é preciso ajudar os demais estudantes a bancar educação em entidades privadas. É necessário também atacar a desproporcionalidade de oportunidades na educação pública e, ao mesmo tempo, garantir que existam outras opções privadas. Isso vai prover a força de trabalho de que o país precisa.