Congresso de jornalismo de educação começa em SP

Durante dois dias, participantes estarão inseridos em debates que buscam, no fim das contas, ajudar a aumentar a qualidade da cobertura desse setor jornais e servir de caminho para que a educação seja mais valorizada e se torne prioritária no país

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postado em 28/06/2017 11:40 / atualizado em 29/06/2017 13:48

Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press
 

Começou nesta quarta-feira (28), em São Paulo, o primeiro Congresso de Jornalismo de Educação, organizado pela Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), criada há um ano. O evento continua até amanhã (29) no câmpus Vila Olímpia da Universidade Anhembi Morumbi. O objetivo é estimular o aprimoramento da cobertura sobre o tema nos veículos de comunicação. Serão 17 mesas que discutirão do ensino infantil ao superior com palestrantes do Brasil e de Chile, Argentina, Estados Unidos e Turquia.



Comparação internacional
A palestra de abertura, sobre jornalismo de educação na América Latina, teve como convidados Ricardo Braginski; editor do jornal Clarín na Argentina e especialista em educação; e Elizabeth Simonsen; que criou a seção de educação do jornal La Tercera no Chile, chefe de Comunicação do Centro de Pesquisas Avançadas em Educação na Universidade do Chile, autora do livro Mala educación.

No Chile, antes da ditadura, o sistema de ensino era majoritariamente público. Depois desse período, interesses privados começaram a se intrometer na pauta. “Por causa das condições e salários precários dos docentes, se criou o ‘copago’, sistema pelo qual os pais devem dar recursos adicionais aos colégios subvencionados privados financiados pelo estado”, comentou Elizabeth. As consequências das mudanças estão nos números de alunos no sistema público, que atendia 75% dos alunos em 1990 e 36% em 2016.

Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press
A medida era bem vista até os anos 2000, quando o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) começou a ser aplicado de forma massiva e uma grande discrepância entre estudantes de colégios públicos e colégios subvencionados se revelou. O mal-estar tomou conta das ruas com protestos e movimentos que pediam, por exemplo, o fim do lucro entre colégios particulares. A questão tomou tamanha proporção que se tornou tema prioritário nos jornais e ganhou seções fixas especializadas. Em 2014, inclusive, educação foi o assunto que definiu as eleições, porque se tornou um tema prioritário e politizado. Isso trouxe impactos importantes. “Com isso, conquistamos gratuidade para os alunos mais vulneráveis e, com o tempo, vamos eliminando o ‘copago’ e os colégios não podem mais fazer provas para selecionar os alunos que estudarão lá”, afirma.

Já na Argentina, Ricardo Braginsk, do Clarín, explicou que “a educação não é um tema central, muito menos que defina uma eleição”. Apesar disso, o país tem um histórico de ensino de qualidade. Em 1930, 60% da população tinha concluído a escola primária, um nível muito acima do dos países vizinhos, inclusive o Brasil, na época. No entanto, houve um processo de queda de qualidade. “O sistema passou a ter cada vez mais alunos e a educação particular e pública se massificou. O decréscimo no nível vem de muitos fatores, como a desvalorização de professores”, diz. Em 2010, foi aprovada uma lei que destina 6% do PIB (Produto Interno Bruto) argentino à área, mas isso ainda não se traduziu no aumento da qualidade e na melhoria em avaliações como o Pisa.

Nos últimos 10 anos, 300 mil estudantes migraram para escolas particulares, buscando um ensino melhor. Assim como no Brasil, a evasão escolar e a distorção idade-série são problemas graves. “O jornalismo está passando por uma grande transformação, com a busca por alcançar tendências atuais. Com isso, os meios tradicionais estão buscando novos perfis profissionais. As redações, como a do Clarín, se enchem de jornalistas mais jovens e integrados à linguagem das redes sociais”, conta. Nesse contexto, o jornalismo de educação perde espaço. “Os suplementos de educação deixam de existir porque não se provaram sustentáveis. Existe também uma concorrência com notícias que geram bem mais impacto.”

Apesar do panorama estar mais difícil, ele percebe que a qualidade, em notas e reportagens bem-feitas, continua sendo muito valorizada. “Porém, há menos material de profundidade, a maior parte é feita de minuto a minuto. Não é uma questão da idade e o perfil dos jornalistas, mas sim de falta de estrutura e tempo. Os acontecimentos de educação, a não ser que se trate de um escândalo, não fazem parte nem da agenda política nem da agenda dos jornais”, diz.

Jeduca
Antônio Gois, presidente da Jeduca e jornalista de O Globo, percebe que, em um ano, a associação obteve alguns resultados importantes, como orientar e ajudar jornalistas durante coberturas de educação e fortalecer o diálogo com órgãos como o Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Um apoio importante, visto que “99% dos jornalistas trabalham na área sem ter tido formação específica para isso”. A organização conta com 500 associados de 80 cidades. Entre os patrocinadores do congresso, estão a Fundação Telefonica, o Instituto Unibanco e a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.


*A jornalista viajou a convite da Fundação Telefonica