Como fica o investimento em educação durante a crise econômica e política?

Essa foi a pergunta que permeou um dos debates durante congresso de jornalismo especializado na área em São Paulo

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postado em 28/06/2017 12:49 / atualizado em 28/06/2017 12:56

Durante o primeiro Congresso de Jornalismo de Educação, que ocorre entre esta quarta-feira (28) e quinta-feira (29), em São Paulo, Priscila Cruz, uma das fundadoras do movimento Todos pela Educação; Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação; Alessio Costa Lima, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime); e Idilvan Alencar, presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed); debateram sobre a educação em tempos de incerteza.



Em meio à crise política e econômica, quando os escândalos governamentais tiram o foco das discussões sobre ensino. A mediação foi de Antônio Gois, presidente da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca). Apesar de o país estar em recessão, talvez este seja um intervalo em que o investimento na área se faça ainda mais necessário. “Em período de crise política e econômica, fica uma sensação de que é preciso reconstruir o país. E não dá para fazer isso sem educação”, garante Priscila Cruz.

Para isso, ela defende a importância do investimento em professores e nas escolas com condições mais precárias, a fim de buscar equidade. “A economia deve servir à educação e não o contrário”, avalia Daniel Cara. Ele abordou a importância de aumentar os recursos destinados à área para viabilizar mudanças como a própria reforma do ensino médio. “Senão, não tem como tirar do papel.” Para o presidente da Jeduca, Antônio Gois, para priorizar a área, “o diálogo não deve ser com o ministro da Educação que passou ou com o atual, mas com toda a sociedade”.

Alessio Costa Lima cita o cumprimento do PNE (Plano Nacional de Educação) como um desafio. “Não dá para fazer ampliação de rede ou melhorar qualidade apenas com gestão (algo que precisa melhorar) ou boa vontade, é preciso ter mais investimentos. Há uma dívida acumulada com a educação do país, tanto em termo de acesso (com crianças de 4 a 5 anos que estão fora da escola) quanto em termo de ampliação”, critica.

Mudança estrutural
“Um dos argumentos para justificar a reforma do ensino médio é o fato de o ensino médio ser uma tragédia nacional. Ela está posta, tumultuou o ambiente escolar, trazendo mais dúvidas do que respostas, mas está parada, porque só poderá ser aplicada quando tivermos a Base (Nacional Comum Curricular). Então não entendo essa pressa”, comenta Idilvan Alencar. Ele acredita que o problema do ensino médio não é apenas o currículo, no que focou a reforma, e teme pelo futuro. “Dizem que pior do que está não fica, mas sempre tem como piorar”, comenta. “Há muitas dúvidas, os estados ainda não entendem a reforma e como aplicá-la, e o MEC (Ministério da Educação) também não tem essas respostas.”

Caminho
“A gente tem grandes avanços em educação por mérito dos municípios. É preciso quebrar essa ideia de que as grandes mudanças precisam vir do governo federal. Somos um país enorme e sem histórico de efetividade em políticas de grande massa”, acredita Priscila Cruz. “Também é preciso questionar políticas que tratam todo mundo igual, senão, não será possível alcançar equidade. É preciso mudar esse capítulo.” A representante do Todos pela Educação ainda reforça que o Brasil precisa valorizar mais as equipes técnicas das Secretarias de Educação, afinal, a decisão da direção a tomar é política, mas “quem carregar o piano nas costas são os técnicos”.

Qualidade jornalística
Para Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a imprensa precisa dar um passo além e adotar uma abordagem mais analítica e aprofundada, em vez de apenas noticiar os fatos. “Não tivemos um debate qualificado sobre a reforma do ensino médio nos jornais, por exemplo”, diz. Priscila Cruz acredita que faltou, em muitos casos, avaliar políticas anteriores antes de centrar o debate nas novas. Para que o ensino ganhe importância midiática, ainda é preciso convencer outras editorias dos jornais, além da especializada em educação, sobre a importância do tema. “Fale-se tanto de pensar fora da caixa e ainda está tudo dividido em caixinhas, mas dá para trabalhar educação como um tema transversal na mídia”, opina.

Priscila Cruz ainda criticou o uso de afirmações genéricas nas reportagens. “Às vezes, passamos um tempão falando com o jornalista e, no fim, sai uma frase do tipo ‘educação é importante’. É preciso qualificar mais o debate, expor a crítica e soluções específicas”, orienta. Outro erro da imprensa apontado por Idilvan é se prostrar à onda conservadora atual. “Intolerância de gênero, religiosa, e de tudo mais... Se tem um espaço para quebrar isso é a escola. E a imprensa precisa mostrar isso.”

*A jornalista viajou a convite da Fundação Telefonica