Professora de Yale e Columbia avalia a educação infantil brasileira

O diagnóstico não é promissor e um dos motivos é que as crianças de 0 a 6 anos não são valorizadas nem vistas como prioridade

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postado em 01/07/2017 18:09 / atualizado em 01/07/2017 18:20

Sharon Lynn Kagan, professora das universidades Columbia e Yale, trabalha com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) para estabelecer padrões de aprendizado na educação infantil em vários países, incluindo o Brasil. Na avaliação dela — apresentada durante o 1º Congresso de Jornalismo de Educação, organizado pela Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) entre 28 e 29 de julho em São Paulo —, o país precisa avançar muito nesse sentido. “A primeira infância (fase que vai até os 6 anos) é o período em que o cérebro se desenvolvimento mais rápido e está mais vulnerável. As crianças pequenas são aprendizes muito competentes, mesmo enquanto bebês”, explica. “A educação na primeira infância não trata de ensinar matemática e leitura, mas de ensinar os alunos a cuidar de si mesmos, a se tornarem bons cidadãos”, diz.

 

Alice Vergueiro/Jeduca

 

“Não adianta só ter sistemas, é preciso ter qualidade, equidade e eficiência. E como o Brasil está nisso? Em qualidade, está muito ruim. Não há igualdade entre as regiões do país quando se trata da quantidade de crianças atendidas por creches. E com relação à sustentabilidade, o Brasil está fazendo progresso, mas não chega perto de outros países”, decreta. A questão demanda atitudes com urgência, mas sem esperar resultados imediatos. “É preciso pensar longe e em longo termo, pois os países que estão cuidando bem da primeira infância começaram esse trabalho há 20 anos”, afirma.


Para funcionar no Brasil, não basta copiar um exemplo de fora, é preciso criar um formato que funcione melhor aqui. “O modelo nórdico, por exemplo, funciona muito bem, mas apenas se você quiser pagar 79% de impostos para serviços sociais”, comenta. Diretora associada de Políticas no Teachers College da Universidade de Columbia e professora adjunta no Centro de Estudos Infantis da Universidade de Yale, ela observa que uma boa educação infantil é feita com com bons professores e bom currículo.


“No caso do Brasil, ainda é preciso pensar em termos de acesso e acolhimento, pois a oferta é algo que falta. Temos que pensar em termos de quantidade e qualidade”, acrescenta Sandra Zakia, doutora em educação e professora da Universidade de São Paulo (USP). Apesar de ter legislação consistente, incluindo o Marco Legal da Primeira Infância, falta aplicação. “Em 2015, 600 mil crianças de 4 a 5 anos, uma fase obrigatória, estavam fora da escola. Já com relação à creche, que não é obrigatória, mas um direito para crianças de 0 a 3 anos, em 2015, apenas 25,6% do público era atendido. A meta do PNE (Plano Nacional de Educação) 2014-2014 é chegar a 50%”, compara.


Mesmo entre as creches oferecidas, há muitas falhas. “Apenas 60% tem banheiro adequado para educação infantil, 34% tem berçário, 59% tem parque infantil, 3% não tem abastecimento de água, 24% são adaptadas para deficientes com dificuldade de mobilidade. Na pré-escola, a situação é tão precária quanto”, analisa Sandra. Ela ainda criticou o fato de não existe um sistema de avaliação da educação infantil, algo que o PNE previa que deveria ter sido implantado até 2016.
Apesar de, com atraso, o Ministério da Educação (MEC) fará algo a respeito: durante o congresso, Maria Inês Fini, presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), anunciou que será criado um estudo para avaliar as condições de acesso à educação infantil, mas sem aplicar testes ou provas às crianças. A Avaliação Nacional da Educação Infantil (Anei) deve ser incluída na edição de 2019 do Sistema Nacional de Avaliação Educacional (Saeb).

Discriminação

Psicóloga, especialista em educação infantil, professora do Instituto Singularidades, presidente da Associação Brasileira de Estudos sobre o Bebê (Abebê), coordenadora adjunta do Instituto Avisa Lá, Cisele Ortiz reclama do fato de as crianças estarem sempre presentes nas propagandas e promessas dos políticos, mas não nas ações. “Vinde a mim as criancinhas, mas e depois”, questiona. “Elas são prioridade como determinam as leis.” As justificativas para a baixa cobertura das creches públicos são falta de dinheiro, falhas na gestão, falta de compreensão sobre o papel da educação infantil e até falta de espaço.


“Já ouvi de vereadores que crianças não precisam de muita coisa, para elas qualquer coisa serve. Também ouvi que já tem creche demais, que criança precisa mesmo é ficar com a mãe”, revela. “Tem 5 milhões e 300 mil crianças na pobreza e, sem educação desde o berço, a pobreza não muda”, alerta. O motivo principal para tudo isso, na visão de Cisele, é o preconceito. “As crianças pequenas são discriminadas. Uma criança de educação infantil custa menos que um jovem de ensino médio, então por que a primeira não recebe investimento?”, pergunta.


Até o professor da educação infantil é menos valorizado, nem sempre tem piso nacional garantido, pois as instituições usam outras terminologias para poder pagar menos, principalmente em creches”, afirma. A solução para mudar o panorama, na visão de Cisele, está na transformação de paradigmas sobre o assunto. “É preciso mudar a visão da sociedade sobre a educação infantil, investir no debate sobre isso, informar e formar a população, pois crianças bem cuidadas aprendem a cuidar de si, do outro e do mundo”, conclui.
 
* A jornalista viajou a convite da Fundação Telefônica