A decisão do MEC de não divulgar dados do Enem por escola continua polêmica

Ex-presidentes do Inep comentaram o assunto durante Congresso de Jornalismo de Educação

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postado em 02/07/2017 19:37 / atualizado em 02/07/2017 19:53

Alice Vergueiro/Jeduca

 

As mudanças no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foram tema de debate durante o 1º Congresso de Jornalismo de Educação, promovido pela Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), entre 28 e 29 de junho, em São Paulo. As alterações implementadas pela gestão de Mendonça Filho, ministro da Educação, transformam o Enem, unicamente, numa ferramenta de acesso ao ensino superior. Entre as transformações está o fato de o exame não ser mais usado como ferramenta para certificação do ensino médio e a decisão de parar de publicar os resultados do Enem por escola.

 

Reynaldo Fernandes, professor titular de economia na Universidade de São Paulo, diretor geral da Escola de Administração Fazendária, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), reprova a resolução. “O argumento contrário é o de que os alunos fazem o Enem compromissados porque ele é usado para seleção em universidades (ou seja, os alunos de melhor desempenho é que o fazem) e de que ele é um exame de caráter voluntário”, comenta. No entanto, de acordo com a análise dele, isso não invalida as médias obtidas.


Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press
“Pegando as mesmas escolas, a dispersão da nota de português no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e no Enem em 2011 foi de 0,85. A de matemática foi de 0,91. Os valores estão muito próximos do perfeito, que é 1. Então, o viés da seleção pode ser tratado”, defende. “Se é verdade que o Enem não classifica bem, então o Saeb também não. Existe uma crítica potencial ao exame, mas o problema não foi estudado a fundo”, completa.

 

Ele, que foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) entre 2005 e 2009, defende que a divulgação dos dados serve mais do que apenas para gerar comparações entre as escolas, o que também não é algo ruim. “É autoritário não divulgar os dados porque não se concorda com o uso que se faz deles. É errado”, avalia. “Combate-se a deficiência da informação com mais informação e não com menos.”


Chico Soares, professor titular aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde é pesquisador do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais (Game), também reprova a falta de divulgação dos dados. “Teremos a mesma informação só que de jeito pior, jogando fora uma evolução de nove anos. Estamos trocando um indicador por outro”, afirma. “As pessoas são contra a divulgação e registro de resultados em educação, mas, sem verificar se a pessoa aprendeu, não se verifica se ela está tendo acesso ao direito à educação”, defende.
 
Ranking publicitário
Um dos problemas da divulgação dos resultados do Enem por escola é o uso comercial feito pelos próprios colégios. Para melhorar os índices, houve, por exemplo, instituições que apareceram no exame com dois CNPJs (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) e, assim, separaram em um deles os melhores alunos para conseguir figurar na parte mais alta do ranking.

 

Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press
Renato Júdice de Andrade, diretor do Colégio Rio Branco e ex-diretor da Abave (Associação Brasileira de Avaliação Educacional), pondera, porém, que a questão afetará os estudantes. “As pessoas se baseavam nisso para escolher a escolha dos filhos. Não disponibilizar mais essa informação será um problema. Os dados ainda existirão, mas serão da prova Brasil. O problema é que ela não decide o caminho para a universidade, então, para nós, dirigentes de escola, será difícil motivar o aluno a fazê-la”, comenta.

 
“Vou ter que dizer para o estudante que, além de se preparar para o Enem e para o vestibular (pois há muitas universidades que ainda não adotam o exame), ele ainda terá de fazer outra prova apenas para verificar o que aprendeu?”, questiona. Na opinião dele, o que pode ser feito é, em vez de interromper a divulgação dos dados dos colégios, refletir sobre um melhor uso que se pode fazer deles.

 

*A jornalista viajou a convite da Fundação Telefônica