EDUCAÇÃO »

60 mil analfabetos no DF

Pesquisas mostram que o número de pessoas que não sabem ler e escrever saltou de 1,9% da população para 2,08%, entre 2013 e 2015. Brasilienses que abandonaram os estudos contam o drama de ser iletrado

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 31/07/2017 20:46 / atualizado em 31/07/2017 21:16

Carlos Vieira
A vendedora ambulante Shirley Ananias, 33 anos, nasceu em Ibiá, no interior de Minas Gerais, mas vive no Distrito Federal há mais de dez anos. Ela tem uma filha de 3 anos, a pequena Bruna Ananias Clementina da Silva, e seu maior desejo é que a criança seja letrada, já que não teve o que descreve como “privilégio”. “Com 11 anos, eu parei de ir à escola porque tinha de trabalhar na lavoura para ajudar em casa. Agora, tudo que eu quero para minha menina é que ela não passe por essa tristeza. Bruna já está na creche e, depois, vai para um colégio aprender tudo.” Quando questionada sobre a lembrança mais feliz da infância, Shirley cita os momentos em que estava na escola. “Não me lembro do barraco de lona em que morava, da miséria. Só da felicidade que era estudar”. Os olhos da mineira se enchem de água com o relato.

A realidade de Shirley é a mesma que a de outras 60.329 pessoas no DF que não sabem ler nem escrever. O dado é da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad), divulgada pela Companhia de Planejamento (Codeplan). Os resultados do levantamento mostram que o número saltou de 1,9% da população para 2,08%, entre 2013 e 2015. A pesquisa aponta ainda que o Paranoá é a região administrativa com o maior percentual de analfabetos: 4,03%. Em seguida, aparecem Brazlândia (3,7%), Ceilândia (3,58%) e Santa Maria (3,50%). A capital tem hoje 3 milhões de habitantes. Apesar dos números, o DF foi a única unidade da Federação que recebeu do governo federal, em 2014, o selo “Território Livre do Analfabetismo”. O certificado só é dado às localidades em que 96% dos moradores podem ler e escrever.
 
Carlos Vieira
 
Josenaide Laurindo Marques, 47 anos, enfrenta dificuldades com as letras. A piauiense acorda às 4h20 para pegar o primeiro ônibus que sai do terminal de Águas Lindas rumo ao Plano Piloto. Depois de chegar à Rodoviária, por volta das 6h30, ela precisa pegar outro ônibus para o serviço. Hoje, a doméstica trabalha em uma casa de família na Asa Sul. Josenaide chegou à capital com 6 anos, em 1970, depois de deixar Barreiras do Piauí. Nascida em uma realidade difícil, a infância dela foi marcada pela miséria. “Era tudo muito triste, pobre. Desde muito nova, precisei trabalhar na roça para ajudar minha mãe, que cuidou dos cinco filhos sozinha. A gente precisava se virar. Eu juntava lenha para os outros, carregava água em baldes, vigiava plantação na roça das pessoas, ajudava minha mãe a descascar mandioca”, relembra. Josenaide nunca teve a oportunidade de ir à escola. Assim que chegou ao DF, começou a trabalhar como doméstica, ainda criança. “Sempre trabalhei na casa dos outros limpando, cozinhando, cuidando de crianças. Não dava para eu estudar, porque os patrões não deixavam. Eu tinha de limpar durante o dia e cuidar dos filhos deles à noite.”

60.329
Pessoas analfabetas no DF

12,9 milhões
Cidadãos analfabetos no Brasil

758 milhões
Total de analfabetos no mundo